As Seis Paramitas


Cada paramita é ensinada sob sete tópicos: reflexão sobre defeitos e virtudes, definição, classificação, características de cada classificação, incremento, perfeição e resultado.


A perfeição da generosidade

A primeira paramita é a generosidade. A razão pela qual a generosidade é ensinada em primeiro lugar é que os bodhisatvas precisam agir de uma forma que seja benéfica para os outros seres. Para realmente poderem ajudar outros seres, precisam primeiro estabelecer com eles uma conexão correta; precisam ter um relacionamento positivo com as pessoas. O que faz um relacionamento positivo é ajudar os seres por diferentes meios, ajudá-los temporariamente oferecendo o que necessitam, oferecendo proteção contra o medo e oferecendo ensinamentos. Estes diferentes tipos de oferendas, ou diferentes maneiras de praticar a generosidade, levarão satisfação e felicidade aos outros seres. Uma vez que este sentimento esteja estabelecido é possível guiá-los gradualmente no caminho do dharma e finalmente conduzi-los à obtenção do resultado final, que é a budeidade. Este é o motivo pelo qual a generosidade é ensinada em primeiro lugar, porque ela fornece os meios para realizar essa aspiração.


I. Reflexão sobre as virtudes e defeitos. O primeiro tópico é sobre os benefícios que surgem da prática da generosidade e os defeitos que resultam de não praticá-la.

O fundamento de qualquer prática é o desejo de praticar. Como já mencionamos, o budismo não é apenas uma maneira de pensar ou de falar. Temos que realmente praticar, e esta é a razão para estarmos estudando as seis paramitas. Para praticar a generosidade é necessário existir o desejo de fazer esta prática, não basta ouvir falar que é preciso praticar. Mesmo se nosso lama nos disser isso, não quer dizer que seremos capazes de praticar. O que, então, poderá nos ajudar? É importante sabermos que se praticarmos a generosidade muitas qualidades surgirão e que, se não o fizermos, surgirão muitos defeitos. Esse é o resultado da natureza da generosidade: se formos generosos isso trará muitos benefícios e, se não formos, muitos defeitos surgirão como resultado. O Buddha mostrou que a falta de generosidade torna difícil a compreensão e o progresso no caminho e impede a realização da budeidade. O próprio Buddha viu as desvantagens de não praticar a generosidade e aconselhou seus discípulos a praticá-la para evitar esses equívocos. Quando deu essa orientação, não estava sendo autoritário, mas sim indicando que se eles praticassem a generosidade muitos benefícios e qualidades apareceriam como resultado, e se não praticassem a generosidade muitas desvantagens e defeitos resultariam. Nós também temos que reconhecer as vantagens e qualidades da prática da generosidade e os defeitos e desvantagens de não praticá-la. Quando tivermos consciência disso será fácil praticar a generosidade e vamos querer praticá-la espontaneamente por sabermos o quão útil e benéfica ela é. Vamos ser inspirados por estes motivos. Esta é a razão para aprendermos agora sobre as qualidades que resultam de praticar a generosidade e os defeitos que resultam de não praticá-la.

Quais são os benefícios que advêm da generosidade? O objeto da generosidade é explicado sob dois aspectos. Se considerarmos o objeto como sendo um animal, veremos que os animais sofrem de muitas diferentes maneiras, devido à fome, sede, doença, medo e veremos que podemos ajudá-los de muitas diferentes formas, protegendo-os de seus sofrimentos.

Se considerarmos o objeto da prática como sendo os seres humanos, veremos que eles são sujeitos a quatro tipos de sofrimento típicos da existência humana. São eles o sofrimento do nascimento, velhice, doença e morte. Além destes, existem dois problemas tipicamente humanos, o problema da atividade excessiva e o da frustração. Atividade excessiva é a sensação que estamos constantemente apressados, que nunca existe tempo suficiente para nada e que estamos sempre ocupados desde a manhã até a noite. É a constante sensação de que não há tempo, que cada momento do dia, cada hora e cada minuto está tomado e que nunca há um momento para relaxar. É a constante sensação de termos que nos apressar e de que nada que queremos fazer consegue ser terminado. Nunca achamos tempo para terminar o que queremos fazer e isso causa preocupações e dificuldades consideráveis. Esse problema de atividade excessiva é devido ao fato de não termos controle sobre nossas vidas. Não podemos dizer: "Espere aí, não quero morrer agora porque não terminei tudo o que comecei". Quando a morte chegar, ela vai acontecer independentemente de termos ou não terminado. Este é o motivo de termos o constante sentimento de pressa e a sensação de que a vida está passando, que não podemos segurá-la. Sentimos que não podemos terminar nada. Este é um dos problemas da condição humana.

Outro problema é o da frustração. Mesmo nos apressando tanto, mesmo trabalhando muito arduamente, fisica, verbal e mentalmente, nunca realmente sentimos que as coisas estão completas, existe sempre uma sensação de insatisfação, de que não é o suficiente, que não está certo, que é pequeno demais ou não é suficientemente bom. Existe sempre a frustração em nossas mentes de que as coisas não são exatamente o que deveriam ser.

Esses dois fatores, atividade excessiva e frustração, são problemas globais da humanidade, independentemente de riqueza e pobreza. As pessoas têm que conviver com eles. Como podem, então, serem eliminados esses dois aspectos das dificuldades humanas, causas de tanta angústia? O melhor dos remédios para estes dois problemas, ao menos no curto prazo, é a generosidade. A generosidade é o que pode realmente aliviar este tipo de sofrimento.

A hiperatividade resulta de sensação de que estamos perdendo alguma coisa. Então, se doarmos alguma coisa para diminuir a sensação de carência e frustração, isso automaticamente aliviará o sofrimento da hiperatividade.

Se fizermos algo por alguém, pelo menos por um tempo essa pessoa vai se sentir aliviada do sentimento de constante frustração e carência; a causa de tais sentimentos será removida por atos de generosidade e a mente daquele indivíduo será aliviada e vai se sentir feliz. Essa pessoa vai então se beneficiar de nosso generoso presente. É por isso que é importante praticar a generosidade, que é muito benéfica por reduzir a dor e angústia de outra pessoa.

Também para nós, nosso sentimento de querer ajudar outros seres não ficará apenas na teoria, mas, em vez disso, se tornará uma realidade, por estarmos realmente fazendo alguma coisa para ajudar os outros. Pelo mesmo motivo, estaremos acumulando muita virtude que nos levará a budeidade muito rapidamente. Quando chegarmos lá, poderemos, é claro, ajudar muito mais os seres, e fazê-lo de uma maneira muito mais grandiosa. Por isso o Buddha ressaltou nos sutras as grandes vantagens, as grandes qualidade que advêm da prática de generosidade.

No "Sutra pedido pelo chefe de família Drakshulchen" (em tibetano Chimdag Drakshul Chengyi Zhupai Do) o Buddha enumerou as qualidades resultantes de praticar a generosidade e os defeitos advindos de não ser generoso. O Buddha disse: "Isso quer dizer que o que doamos é verdadeiramente nosso porque sempre vai trazer bons resultados para os outros e para nós, enquanto o que conservamos não vai ser desfrutado por ninguém além de nós; quando morrermos vamos ter que deixar para trás nossas coisas e elas então não serão benéficas para ninguém. Quando conservamos alguma coisa, mantemos também conosco todas as preocupações de ter que cuidar dela; vamos nos preocupar porque ela pode ser roubada, desperdiçada ou apodrecer. Se doarmos alguma coisa, então não teremos nada para nos preocupar; não precisaremos nos preocupar que ela possa ser roubada, desperdiçada ou apodrecer. Se conservarmos algo para nós mesmos por muito apego ou por avareza, isso só vai nos ser útil por algum tempo, já que algum dia vai ter que passar para outras mãos.

Se doarmos alguma coisa, isso não beneficia só a pessoa que recebe nosso presente, mas também a nós, porque a o resultado da generosidade vai nos levar para muito próximo da budeidade. Enquanto mantivermos as coisas para nós mesmos por apego, ela provavelmente vai ser causa de orgulho, ciúme, raiva, todas as formas de sentimentos negativos. Manter as coisas para nós significa, então, cair na negatividade em vez de ganhar alguma coisa. "Se doarmos nossas coisas", como disse o Buddha, "você realmente as possui porque o benefício do presente se torna inexaurível, enquanto se você as mantém, o benefício do objeto se torna pequeno e se esgota rapidamente". Foi assim que o Buddha mostrou o benefício da generosidade e os defeitos da avareza.


II. Definição. A definição da generosidade é: O puro desejo de doar alguma coisa a alguém para ajudá-lo; esse desejo não é maculado por nenhum apego àquilo que você está doando. A generosidade não depende do tamanho ou qualidade daquilo que você está doando; só depende da pura intenção de realmente ajudar a pessoa que recebe seu presente, sem apego.


III. Classificação. Existem três diferentes aspectos da generosidade: doar riquezas (a doação de coisas materiais), doar destemor (o presente de proteger os outros) e doar o dharma, o presente dos ensinamentos.


IV. Características de cada classificação


A. Doar riquezas. A respeito da generosidade material, normalmente é ensinado que devemos ser generosos e doar coisas para os outros. Entretanto, nem todas as formas de tais atos de generosidade são benéficas, porque existem presentes impuros que não devemos dar. Devemos praticar apenas as formas puras de generosidade.


1. Doações impuras. Existem quatro tipos de presentes materiais impuros. Eles podem ser impuros devido a quatro fatores: quando a intenção é impura, quando o próprio presente é impuro, quando aquele que recebe é impuro e quando a forma de doar é impura. Devemos, então, só levar em consideração a generosidade que não seja contaminada por nenhum desses quatro fatores de impureza.

a) Intenção impura.

O primeiro fator de impureza é quando a intenção não é correta, quando doamos alguma coisa com a intenção de prejudicar. Você poderia, por exemplo, com tal intenção pensar "Se eu der isso para essa pessoa ela vai se meter em muita confusão e vai ter muitos problemas". Podemos doar alguma coisa com a intenção de que quem a recebe acabe na prisão, seja banido de um país ou mesmo que seja morto. Essas intenções são todas muito impuras e negativas. Não devemos doar com tais intenções.

b) Objeto impuro.

O segundo fator de impureza é quando o próprio presente é impróprio. Isso quer dizer, por exemplo, dar veneno, para ferir alguém. Pode ser fogo, que se deseja que queime alguém, ou armas, que servem para matar pessoas. O próprio presente é então impróprio e vai tornar o ato de generosidade impróprio e impuro. Pode, no entanto, haver excessões. Podemos dar algo que possa parecer impróprio mas seja, na realidade, útil. Por exemplo, se uma cobra venenosa tiver mordido o dedo de alguém e a única forma de salvá-lo seja amputar o seu dedo. Nesse caso a ação se torna generosa porque salvamos a vida dessa pessoa.

c) Recebedor impuro

O terceiro aspecto de impureza da generosidade diz respeito a quem recebe o presente. Existem dois tipos de destinatários impróprios de presentes. O primeiro é alguém que pede alguma coisa para você com a intenção de prejudicá-lo. Eles sabem que pedindo esse objeto para você, vão lhe causar muitos problemas. Como a motivação do recebedor é impura, não é adequado dar o presente para ele. O segundo tipo de pessoa é alguém que seja perturbado mentalmente. Se você tem alguém perturbado mentalmente que lhe pede para que você ofereça sua vida cortando sua cabeça, isso seria muito impróprio porque essa pessoa está apenas louca, e esse ato não traria benefício para ninguém.

d) Método impuro

O quarto fator de impureza da generosidade diz respeito à maneira pela qual você dá. Isso quer dizer que você doa alguma coisa para alguém, mas na verdade o que realmente gostaria de fazer seria bater naquela pessoa, ou se você doa alguma coisa de uma maneira áspera e pouco amistosa. Doar dessa forma vai fazer com que quem recebe se sinta infeliz e triste e vai causar angústia em sua mente, o que não vai ajudá-lo de forma alguma. Isso torna a generosidade impura.

Estes são os quatro aspectos que se deve evitar e abandonar para que a generosidade seja pura.


2. Doação pura. A doação pura tem três aspectos: objeto puro (aquilo que é apropriado), recebedor puro (nosso guia espiritual, as três jóias e qualquer necessitado) e método puro (doar com uma motivação pura, com devoção, com respeito, sem preconceito e aquilo que é necessário).


B. Doar destemor. O segundo tipo de doação, o do destemor, significa dar proteção. É ainda melhor do que o primeiro tipo de generosidade porque envolve proteger alguém do medo, tal como o medo de animais selvagens, doença, fogo, água ou qualquer tipo de medo. Se diz que essa forma de generosidade é como o presente da vida, porque você protege a vida de alguém daquilo que lhe causa o medo.


C. Doar o dharma. O terceiro tipo de doação é o presente do dharma. Esta é a mais elevada forma de doação, por trazer benefícios muito grandiosos. Novamente, existem quatro aspectos que definem um presente apropriado do dharma: o recebedor, a motivação do doador, o próprio dharma e o método pelo qual são dados os ensinamentos do dharma.

a) O recebedor

Vamos considerar aquele que recebe o presente. Para quem devemos doar o dharma? Não para pessoas que não estiverem interessadas nele, porque isso não vai trazer benefícios para elas, devido a sua falta de interesse. Ele deve ser doado a pessoas que estão interessadas nele e que têm alguma fé e alguma medida de apreciação pelo dharma.

b) A motivação

No que diz respeito à motivação do doador, não devemos doar o dharma para outras pessoas com a intenção de nos tornarmos famosos ou bem sucedidos, ou visando qualquer tipo de ganho pessoal. Isso deve ser feito por uma motivação pura e exclusivamente boa. O dharma deve ser doado quando temos a convicção de que quem o recebe quer aprender sobre ele, que ele quer aprender como praticar, quer saber como se livrar do sofrimento e quer saber como conseguir a felicidade. Para ajudá-lo a saber tudo isso, fazemos o presente do dharma. Basicamente isso quer dizer que só devemos doar o dharma pelo desejo de ajudar e apenas com uma motivação compassiva.

c) O próprio dharma

O que devemos ensinar quando se aplica a generosidade espiritual? Não devemos ensinar algo que tenhamos inventado por nós próprios, com um pensamento como: "Bem, eu sou bem esperto, tenho bom entendimento e realização na minha meditação, então eu posso inventar um bom ensinamento". É claro que isso é errado porque não devemos criar nossas próprias idéias sobre os ensinamentos. Mesmo se formos muito inteligentes, mesmo se tivermos muito entendimento e realização obtida através da meditação, ainda assim será possível cometermos enganos. Devemos, por isso, usar apenas os ensinamentos do Buddha, porque são os únicos que não podem levar a enganos, que são impecáveis. São as imaculadas palavras do Buddha que devem ser usadas pela generosidade espiritual. Podemos usar também os ensinamentos dos seres muito elevados que escreveram os shastras, os ensinamentos que elucidam o que o Buddha disse. De qualquer forma, não devemos inventar nossos próprios ensinamentos.

Quando usamos aquilo que o Buddha ensinou, não devemos alterar suas instruções. Não devemos tentar usar os ensinamentos para satisfazer nossas próprias necessidades. Devemos ensinar o que está contido neles. Além disso, os ensinamentos não devem se limitar a palavras. Outras pessoas devem chegar a serem capazes de praticar através de nossas explicações. Não devemos ficar no nível da teoria e especulação, mas colocar as explicações em termos práticos para que realmente possamos mostrar aquilo que pode ajudar; o que pode ser útil diretamente, na prática. Se falarmos sobre o que deve ser eliminado, devemos ser capazes de explicar como aquilo pode ser eliminado. Se falarmos sobre o que temos que realizar, devemos ser capazes de mostrar a maneira de realizá-lo. Só então o que ensinamos se tornará diretamente útil.

d) O método de apresentar os ensinamentos do dharma

A respeito da forma pela qual é feito o presente do dharma, quando falamos sobre o dharma isso não deve ser feito através de uma conversa comum; não estaremos falando sobre o dharma para bater um papo ou impressionar os outros com nosso conhecimento. Devemos falar sobre o dharma para ajudar a outra pessoa a encontrar e reconhecer a maneira de praticar o dharma. A maneira pela qual devemos explicar o dharma é para beneficiar a outra pessoa de forma prática. Não devemos ensinar de maneira a impressionar os outros ou para fazer uma exibição de nossos conhecimentos. Devemos, sim, ensinar com a intenção de ajudar a outra pessoa para que ela, ao nos ouvir, experimente um estímulo benéfico em sua mente, para que sinta devoção pelo dharma devido ao que falamos, para que possa progredir em sua prática de meditação, possa sentir mais compaixão, que possa realmente voltar sua mente para a iluminação, desenvolva sua diligência, e assim por diante. O que isso realmente quer dizer é que nossas explicações sobre o dharma devem ser benéficos para os outros, e não destinados a impressioná-los.


V. Incremento. A partir do ponto em que começamos a praticar até o ponto em que realizarmos o objetivo final da iluminação, precisamos cultivar a generosidade. Isso quer dizer que temos que gerar uma grande quantidade de generosidade; temos que praticar a generosidade em larga escala. Aqui recebemos os meios de aumentar nossa generosidade e fazê-la se tornar muito maior. Isso pode ser feito por três diferentes maneiras: através de jnana (sabedoria primordial) através de prajna (sabedoria) e através da dedicação.

Em primeiro lugar é ensinado que através do poder da pura sabedoria ou da mais elevada forma de inteligência podemos tornar excelente a nossa generosidade. Isso diz respeito à ausência dos três pensamentos quando doamos algo: a idéia de que alguém está dando alguma coisa, de que alguém recebe o presente e que existe a ação de presentear. Quando não introduzimos essa tríplice divisão, que tem origem em pensamentos e conceitos, a generosidade se torna extremamente pura. Esse tipo de generosidade traz os melhores frutos e os mais elevados resultados. É por isso que é ensinado que através do poder da mais pura sabedoria a generosidade se torna excelente.

A segunda forma de incrementar a generosidade é através do poder de prajna, do poder do entendimento espiritual. É ensinado que através do poder do entendimento, a generosidade é levada a se expandir. Esse entendimento especial vai nos ajudar a expandir a generosidade sob três formas: no princípio vai nos ajudar através da motivação correta, que é levar todos os seres a budeidade; no momento da doação vai nos ajudar a não ficarmos apegados ao objeto do presente e no final vai nos ajudar a não termos qualquer esperança ou expectativa de resultado por nossa ação generosa. Quando estiverem presentes esse três elementos positivos nossa ação não será mais uma ação ordinária; ela será especial por estar acompanhada por um entendimento profundo. Isso vai tornar nossa generosidade muito vasta; vai incrementar nossa acumulação de virtude. Isso se dá através do profundo entendimento.

A terceira forma de incrementar a generosidade é através da dedicação. A dedicação significa que quando estamos praticando a generosidade não fazemos isso em nosso próprio benefício, mas com a intenção de beneficiar todos os outros seres através de nossas ações. Esses pensamentos de dedicação vão ser também algo que incrementa tremendamente os resultados da generosidade.


VI. Perfeição. A generosidade pode ser tornada pura de duas maneiras: através da prática de generosidade ao mesmo tempo em que se tem o entendimento da vacuidade e de ter compaixão. Quando a compaixão e esse entendimento permeiam a generosidade, ela é, então, uma generosidade pura.


VII. Resultado. A generosidade é essencialmente a qualidade do não-apego; é a capacidade de doar coisas. Isso mostra que não estamos muito envolvidos com as coisas; não estamos muito apegados às coisas mundanas. Quer dizer que, como não temos grande apego às coisas, podemos realmente praticar o dharma com grande energia; nossa prática vai ser muito poderosa por não estarmos apegados às coisas materiais. Se nossa prática for muito poderosa e forte, através da completa dedicação, isso quer dizer que, como consequência, vamos ser capazes de ajudar os outros tremendamente.

Um dos resultado temporários que vêm da generosidade é de nos tornarmos muito afluentes. Teremos muitas coisas materiais em nossa vida por termos sido capazes de doar muito. Quando tivermos todas essas coisas boas em nossa vida, vamos ser capazes de usá-las para beneficiar muitos outros seres. Existem, então, muitos grandes benefícios que vêm da generosidade.

Talvez muitos de nós encarem a generosidade como algo que tem a ver com objetos, com aquilo que doamos. Mas não é, na realidade, dessa forma. É muito mais uma questão de mentalidade do que uma questão do objeto da doação. Se a generosidade ficasse apenas relacionada a objetos externos, isso implicaria em que somente alguém que fosse muito rico poderia doar muito e que alguém que fosse muito pobre não teria como praticar a generosidade e não poderia, por isso, acumular virtude. Se a generosidade ficasse reduzida ao poder, somente alguém com uma posição elevada na sociedade seria capaz de dar proteção, enquanto alguém que não tivesse uma posição elevada não teria como fazê-lo. Também implicaria em que somente alguém muito inteligente seria capaz de doar o dharma e alguém com menos inteligência não poderia fazer esse tipo de doação. Entretanto não é assim, porque a generosidade não tem a ver com as coisas externas, ela é interior. É uma questão de intenção, um estado mental. Depende daquilo que pensamos. É o estado mental de realmente querer ajudar os outros através daquilo que doamos. É o sentimento de realmente querermos ajudar os outros através de dar algo, de qualquer maneira que for possível. Mesmo se a oportunidade não surgir, isso não importa, porque o estado mental é que é o importante. É o sentimento de estar pronto para fazer qualquer coisa que pudermos para ajudar alguém através de dar para ele aquilo de que ele necessita. Então, se temos ou não a oportunidade de dar não é o importante. O importante é nossa pura motivação.

Desde que estamos falando de um estado mental, vemos que a generosidade deveria ser um estado mental positivo. Sinta, então, esse estado mental, repouse nesse estado mental por alguns momentos.

Como já foi explicado, um dos principais tópicos do Ornamento da Preciosa Liberação é a bodichitta, a mente que anseia pela liberação. A bodichitta é, basicamente, uma espécie muito pura de motivação, mas não é apenas isso. Ela não permanece sendo apenas uma motivação, mas tem que ser colocada em prática. A forma de praticar a a muito pura motivação é praticar as seis paramitas. Nós agora cobrimos a primeira paramita, a generosidade.



A Perfeição da Ética Moral

A Ética Moral tem os mesmos sete pontos como o capitulo sobre a generosidade; reflexão sobre as virtudes e faltas, definição, classificação, características de cada classificação, crescimento (expansão) perfeição e resultado.


I - Reflexão sobre as virtudes e faltas - O primeiro ponto deste capítulo vai discorrer sobre os benefícios que advêm de se observar a ética moral e os danos se não o fazemos. Na verdade, isto nos fornece os motivos da necessidade de observar a ética moral.

Quando falamos sobre ética moral nós não estamos falando sobre algo rígido e áspero como algo que nos aprisiona a grilhões. Não é como no caso de uma criança a quem não são permitidos doces quando ela pede, como em uma situação em que a criança continua importunando por doces que estão ali e nós proibimos. Alem disso não é como no caso de quando a criança quer sair para brincar e os pais não permitem dizendo: “não você tem que ficar em casa”. A Ética Moral não é como uma ordem proibindo as coisas. A ética moral também não nos impede de desfrutar de qualquer coisa boa ou prazeres que possamos ter nesta vida. Igualmente, não se está tentando nos colocar numa prisão ou nos fazendo passar por um mau bocado, nos impedindo de ter qualquer divertimento, como alguém que é posto em uma camisa de força. Isto não é ética moral. Ao contrário, o propósito da ética moral vem do fato de que nossas mentes estão sempre ocupadas com o desejo, querendo coisas. Nós sempre temos este sentimento de “eu quero isto” ou “preciso daquilo”.

Se nós perseguimos o objeto do desejo, qualquer que ele seja, nunca estaremos satisfeitos. Esta é a natureza do desejo, de nunca se satisfazer. Não importa o quanto estejamos comprometidos em atender nossos desejos, nunca encontraremos uma verdadeira satisfação e o desejo nunca vai parar. Ele é comparado a beber água salgada para aplacar a sede. Se tomamos um copo de água salgada, quanto mais bebermos, mais sedentos ficaremos. Vamos tomar um copo atrás do outro porque ficaremos mais sedentos a cada copo. Do mesmo modo, não importa o quanto temos porque sempre vamos querer mais, e é desta maneira que nos relacionamos com todos os prazeres ou objetos em geral. Antes de começarmos a perseguir algo, pensamos: “Bem, se eu tiver isto, ficarei muito feliz”. Mas, uma vez tenhamos conseguido o objeto, vamos querer mais. O desejo continua e produz mais e mais frustração e mais e mais sofrimento. Não podemos cometer o erro de pensar que perseguir cada pensamento de desejo e dos prazeres que se seguem nos proporcionará os sentimentos de paz e felicidade que estamos de fato procurando.

Se permitirmos ao desejo tomar sua própria direção e aumentar mais e mais, teremos um processo sem fim. Ele nunca vai parar. Podemos mesmo chegar ao ponto no qual mesmo que o mundo inteiro fique a nossa disposição ainda assim não nos sentiremos felizes e contentes. Nunca alcançaremos o ponto em que iremos pensar: “Ok, isto é o suficiente, agora está tudo bem. Estou satisfeito.” É da própria natureza do desejo gerar insatisfação. Pensamos que o desejo traz satisfação, prazer etc., porém ele traz apenas mais insatisfação, uma vez que a mente nunca se contenta e nunca pensará: “Já tenho o suficiente”. Ao contrario ela sentirá: “Quero isto, quero aquilo, quero mais. Isto não é o suficiente”. Nunca haverá satisfação.

Se pudermos impor limites ao desejo e interromper seu fluxo, as coisas se tornarão melhores. Por exemplo, se temos uma picada de mosquito que coça muito e pensarmos que podemos encontrar alívio deste incômodo nos coçando, a coceira vai ficar pior e vamos ter que coçar mais. Ela nunca vai parar por ser coçada e no final ficará pior. Poderemos finalmente arranhar a nossa própria pele, mas ainda teremos a coceira e ela não ficará melhor. Por outro lado, se formos capazes de controlar a coceira da picada, então, pouco a pouco, a coceira vai diminuir e desaparecerá completamente. Do mesmo modo quando queremos coisas e desfrutamos delas nosso desejo aumenta mais e nunca nos sentimos contentes. Na medida em que nosso desejo se desenvolve e cresce, nossas frustrações, dores e problemas se tornam maiores. Mas se pudermos colocar um limite no desejo, se conseguirmos parar de nos envolver com o desejo a todo momento, então, com o tempo, ele irá decrescer e, com isso, o sofrimento, a dor e os problemas também diminuirão.

A razão pela qual o Buddha chamou a qualidade da ética moral de shila em sânscrito é porque shila significa calma (paz, controle. frescor). Isto descreve o que ocorre quando paramos de seguir as ideias do desejo podemos encontrar calma (pacificação, frescor) e felicidade. Frescor aqui é usado como similar à experiência de se viver em um país muito quente e experimentar uma brisa fresca através da qual nos sentimos imediatamente aliviados do ardor do calor. Se pudermos nos sentar embaixo da sombra de uma árvore, nos sentiremos bem, frescos e relaxados, pelo alívio do calor ardente. Nossa situação é que o fogo do desejo está constantemente ardendo em nós. O que pode aliviar esta ardência do desejo é a pura Ética moral a conduta pura. Isto é comparado à brisa fresca ou à experiência de entrar em uma casa muito fresca e automaticamente sentir-se apaziguado, refrescado e relaxado. A qualidade particular da ética moral é o estado de relaxamento (frescor) que é a conduta correta.

Outra palavra que descreve a qualidade da ética moral é "pratimoksha", que em Sânscrito, que significa “regras de disciplina”.

Algumas explicações sobre isso não são muito precisas. Por exemplo, frequentemente esta palavra é explicada em termos da liberação: se você guarda os votos apropriadamente então você ganha a liberação do samsara. Esta não é realmente uma explicação muito exata. A verdadeira explicação é a de que por manter os votos você se tornará livre do sofrimento que surge quando você não os mantém (transgride seus votos); um sofrimento específico que advém de uma ação negativa específica é removido pela manutenção do voto que evita que se cometa este ato. Por exemplo, se você tomou o voto de não matar, não roubar e não se envolver em má conduta sexual, você estará então automaticamente liberado de todo o sofrimento e dor que surgem de matar, roubar e se engajar em má conduta sexual. Neste sentido, o nome pratimoksha significa “liberado das dificuldades específicas associadas a estes votos.”

Quando falamos em nos tornar livres do sofrimento e da dor, o que realmente isto significa? Se examinarmos a fonte da nossa felicidade e do bem que experimentamos na vida, vemos que elas vêm do controle que temos sobre o que fazemos, por termos livre arbítrio, livre escolha de fazer aquilo que escolhermos. Se seguirmos nossos desejos e ficamos perdidos nos objetos dos nossos desejos, perderemos o controle. Perderemos nosso livre arbítrio e nos tornaremos escravos do nosso desejo e dos objetos de nosso desejo. Assim, se alguém é um bebedor compulsivo, ele perde seu livre arbítrio de fazer isto ou aquilo; é totalmente escravo do álcool. Como isto é verdadeiro para todas as configurações do desejo, assim que alguém se torna viciado em algo, perde sua própria liberdade e habilidade de escolher. Torna-se escravo do seu desejo e irá sofrer as consequências. Por isso, se pudermos quebrar ou interromper a cadeia do desejo e envolvimento, nossa própria liberdade é conquistada, nosso próprio livre arbítrio é ganho e o poder de nossa própria escolha é vencedor.

Assim, desde este primeiro ponto de vista, que nos mostra as qualidades e vantagens que surgem da manutenção da ética moral e as desvantagens que ocorrem ao não mantê-las , podemos ver que cultivar a conduta correta é a verdadeira fonte de nossa felicidade.


II – Definição - O segundo ponto deste capítulo nos fala da definição de ética moral. A definição de ética moral é abster-se de ações negativas como resultado de uma motivação pura.

Aqui devo mencionar que o fato de fazermos uma promessa e assumirmos um compromisso de observar os votos é muito significativo e importante. Por exemplo, vamos aqui considerar uma pessoa que não roubou por um dia inteiro. Você pode perguntar “Ele se beneficiou pelo fato de não roubar? Terá adquirido alguma virtude por este motivo?” A resposta é não, se ela não teve a intenção de não roubar, se apenas aconteceu dela não roubar naquele dia. Não existiu nenhuma intenção pura por trás do fato de que ela não roubou naquele dia, nem houve uma motivação de não roubar. Quando recebemos o benefício por não roubar? Nós seremos beneficiados quando houver uma motivação definida, uma determinação de não roubar. Se alguém disser: “Ok, hoje eu não vou roubar ou matar”, passa a existir um comprometimento consigo mesmo e uma intenção por trás disso. Neste sentido, algo positivo e virtuoso foi gerado.

Tudo depende do que estamos visando. Nós podemos dizer: “Não vou roubar ou matar por um dia, um mês, um ano ou uma vida”. De acordo com o que almejamos e determinamos em nossa mente, o tempo que escolhemos mentalmente guardar o compromisso vai determinar o nosso comportamento durante este tempo. Durante aquele tempo, nosso comportamento de não cometer uma ação negativa estará produzindo virtude.


III - Classificação - O terceiro ponto deste capítulo descreve os diferentes aspectos da ética moral. Outra maneira de dizer isto poderia ser através dos três diferentes tipos de votos: ética moral de contenção, moralidade de acumular virtudes dármicas e moralidade de beneficiar outros seres.

O primeiro tipo é a ética moral que é direcionada a supressão das faltas e estabilização da mente. O segundo tipo está dirigido à produção de boas qualidades (amadurecer ou desenvolver as qualidades do dharma em nossa mente). O terceiro é a ética moral de ajudar aos outros seres (levar aos outros à completa maturidade)


IV – Características de cada - O quarto ponto descreve as características de cada um dos três tipos de ética moral.