O Dharma dos Cinco



-Por Tchamgon Kenting Tai Situpa-




Hoje, como foi requisitado, eu irei conduzir este ensinamento específico baseado no Dharma dos Cinco.



As cinco características básicas da pessoa meritória.


Primeiramente, de acordo com a qualidade geral básica da pessoa meritória há 5 particularidades que podem ser descritas e que personificam a pessoa meritória.


1 - A primeira é a mente domada e também a mente equilibrada.

Domada significa uma mente que não é selvagem. Calma e balanceada significa que essa mente domada se mantém, ela não flutua.


2 - A segunda qualidade é a gentileza e o permanecer na gentileza.

Nós podemos parecer gentis, porém, por permanecer gentil na superfície e no interior, essa é uma pessoa gentil. Gentileza não advém de fingimento, ela vem do interior da pessoa. Uma pessoa que é realmente domada, realmente estável, então uma gentileza genuína se manifesta, surge.


3 - A terceira qualidade é uma pessoa que é direta.

Essa objetividade tem tantas características, assim como uma pessoa justa, correta, etc. Então isso é ser, digamos, maduro o suficiente para que você não sinta que há necessidade de ser manipulativo. Ser manipulativo é muito estressante, porque você pode se esquecer. E você precisa ser fiel a essa manipulação, de uma certa maneira, na sua cabeça, nas suas palavras e nas suas ações também. Então, se você for correto, justo e direto, então você não precisa ter essas atividades mentais, físicas e orais desnecessárias.


4 - A quarta é a mente estável.

De certa forma, nós podemos descrever que a pessoa é confiável. Porque uma pessoa que está contente, não apenas isso, mas que tem autovalorização e autoconfiança, então, a pessoa não vê nenhuma razão para ser instável. A instabilidade não irá ocorrer. Uma casa é instável se está faltando uma boa fundação. Até mesmo com uma boa fundação, a casa será instável, se ela for construída em um solo instável e assim por diante. E estabilidade também é flexibilidade. Por que se você for estável, então você pode ser flexível. Do contrário, você pensa que irá perder muito por ser flexível, pois você não tem certeza a respeito da sua base, da sua estabilidade, das suas raízes. Se as raízes não são boas, a fundação não é boa, então você teme que se você for muito flexível, pode cair. Portanto, flexibilidade é muito importante. Uma pessoa inflexível, uma pessoa sem flexibilidade mental é repleta de estresse. Portanto, é preciso ser capaz de ser flexível. Porém, flexibilidade sem princípios é como uma bandeira sem um mastro. A bandeira deveria ser capaz de se mover ao vento, para que todos possam ver. Mas pode se mover muito graciosamente apenas se o poste da bandeira for muito robusto e forte. Logo, flexibilidade vai junto com robustez. Então, com todas essas quatro qualidades você já quase sabe tudo. Não saber tudo como sendo omnisciente, mas de certa forma, saber como agir no momento certo, da forma certa, o que dizer no momento certo, da forma certa, como pensar no momento certo acerca do assunto certo, do problema certo. Portanto, todas essas quatro qualidades descrevem uma pessoa meritória, não uma pessoa iluminada, mas meritória.


5 - Meritória significa ser uma pessoa feliz.

Meritória significa ser como uma linda árvore, na qual todos os pássaros irão viver. Uma linda árvore, cuja sombra será onde crianças e pessoas irão descansar. Uma linda árvore que se torna o ornamento daquele entorno. Então, dessa forma também se torna a fonte de muitas outras lindas árvores, se torna uma inspiração, se torna uma experiência. Então, esses são os cinco muito básicos. As cinco características básicas da pessoa meritória.




Os cinco sinais de um bom yogui.


Agora nós damos mais um passo, para um bom praticante de Dharma, um yogui. Os cinco sinais de um bom yogui. Você pode dizer um bom monge, uma boa monja, um bom praticante de Dharma, que pode ser um iniciante, um sénior, mas se a prática da pessoa estiver indo bem, genuinamente bem, então essas cinco qualidades estarão lá:


1 - Quando alguém te louva, isso não te faz oscilar. E se alguém te insulta, isso não te faz oscilar.

Ao mesmo tempo, tecnicamente, você sabe, não importa o quanto alguém te louva, ele não poderá te elogiar o suficiente para justificar o seu potencial primordial. E o seu potencial primordial é Buddha. Portanto, ninguém pode te elogiar o suficiente para justificar o seu potencial primordial. Você fica feliz quando alguém diz coisas boas sobre você, mas você não ficará histericamente feliz. E quando alguém te insulta é o mesmo: ninguém pode te insultar exatamente na medida dos seus defeitos. Porque você é o Buddha e eu sou o Buddha, mas eu não realizei a budeidade, eu estou vagueando pelo samsara. Ignorância, apego, raiva, inveja, orgulho, tudo isso.. Portanto, ninguém poderá me insultar o suficiente para realmente descrever todos os meus defeitos. Então dessa forma, alguém pode dizer "Você tem uma aparência horrível"; "Você é estúpido", todo tipo de coisa, mas isso não é nada comparado às minhas falhas, aos meus defeitos de não saber quem eu sou, quem eu sempre fui, um Buddha em construção. Essa é a primeira indicação de um bom praticante.


2 - A segunda indicação é que quando você está fazendo coisas e dizendo coisas é para o benefício dos outros.

É claro que nós podemos fazer coisas para o benefício dos outros, mas o bom yogui, o bom praticante, faz coisas, diz coisas e pensa em coisas para o benefício dos outros desprovido de qualquer tipo de condições, sem expectativas. Então é essa a número dois.


3 - A terceira: quando se está meditando e dizendo mantras, lendo os textos do sutra ou do tantra, ou meramente meditando, isso tem que ser puro.

Por exemplo, você está meditando, e quando você está sozinho e ninguém está olhando, você está viajando em sua mente, e o seu corpo também não está sentado apropriadamente, mas quando há outras pessoas a sua volta e então essas pessoas começam a tirar fotos, então você realmente se senta como um yogui, e tenta ser tão impressionante quando possível. Mas não é assim. Ninguém olhando, ninguém ouvindo ou todo mundo olhando, todo mundo ouvindo, sua prática é a mesma, sua maneira de praticar é a mesma. Essa é a qualidade de um bom yogui.


4 - A quarta qualidade de um yogui é que até mesmo que você morra amanhã, ou até mesmo que você viva por 100 anos ou mais, não há diferença.

Você não está com medo de morrer amanhã e você não está empolgado para viver 100 anos. Sem diferenças. Todo momento é viver e morrer. Portanto, o bom praticante yogui, para ele ou ela, todo momento é a morte do momento anterior e o nascimento do momento presente e então, o momento futuro, virá imediatamente após o momento presente. Então, é uma continuação. E morrer e nascer não são nada mais do que o momento passado, o momento presente e o momento seguinte. Ou então, sendo um pouco mais bruto, um pouco mais superficial, toda noite quando você vai dormir é como morrer, toda manhã quando você acorda é como nascer. É assim! Então, da mesma forma todo momento é assim, para o yogui que não tem nada a temer, porque isso é desconhecido, nós não sabemos o que acontecerá na próxima vida, da mesma forma nós não sabemos o que acontecerá amanhã, o que acontecerá no próximo momento. Portanto, a ausência de medo da morte significa que a pessoa não tem medo de morrer? Que ela está pronta para morrer a qualquer momento, de qualquer causa? Não significa isso. Sabiamente e positivamente, viver cada momento como o primeiro momento ou como o último momento. Então, essa é a quarta qualidade do yogui, do verdadeiro yogui.


5 - A quinta qualidade é que independente se algo supostamente deveria ser muito importante ou medíocre, independente disso, a conscienciosidade do yogui, a clareza do yogui e a determinação do yogui, a veracidade do yogui, a estabilidade do yogui é igual.

Algo que é suposto ser muito importante, o yogui não tem coisas extras para adicionar nessa ocasião. E algo que é uma coisa cotidiana, o yogui não tem nada para deixar de lado. Como por exemplo, nós temos uma função, uma função muito especial, nós temos roupas especiais, coisas especiais para vestir e para carregar, e coisas desse tipo, e o yogui não tem essas coisas. O yogui sempre é o mesmo, sempre decidido, sempre claro, sempre consciente, sempre verdadeiro, sempre estável. Então, essas cinco qualidades são qualidades ou sinais de um bom praticante, de um bom yogui. É claro, que você e eu e todos, iremos tentar praticar o Dharma para que sejamos um yogui, para que possamos ser capazes de fazer isso. Agora, a maioria de nós é incapaz de fazer, mas nós deveríamos olhar em frente e nos esforçar para isso. Não desesperadamente, porque você não pode alcançar nada desesperadamente. Quando você está desesperado você faz uma grande bagunça de tudo. Até mesmo com algo na palma da sua mão, se você está desesperado, você irá tremer e você fará cair e quebrar, então, não seja desesperado, apenas se mantenha calmo, tudo está bem. E o grande espaço não irá embora. A sua natureza búdica, você não irá perder. E o tempo sempre ficará ali como passado, presente e futuro. Portanto, não há razão para pânico, para ser histérico, não há razão para estar muito excitado e nem muito deprimido. Então, essas são as qualidades do yogui.




Cinco pontos importantes na linhagem do Mahamudra.


Agora, essas são as particularidades e agora nós vamos ser um pouco mais específicos com a prática. Na prática, na linhagem do Mahamudra, há cinco coisas muito importantes. E toda linhagem de Mahamudra enfatiza isso, mas a linhagem Drikung enfatiza de forma muito clara, digamos, de forma específica.


1 - Preliminares.

Preliminares é a primeira. E preliminares são o refúgio e a bodhicitta. Bodhicitta é baseada no refúgio no Buddha, Dharma e Sangha, é claro. Bodhicitta pelo despertar de todos os seres sencientes. Mas isso tem que ser verdadeiramente implementado e praticado de uma maneira diária, e claro, momento a momento, mas isso é esperar muito da maioria de nós. Então, no dia a dia.


2 - Auto-visualização.

A segunda é a auto-visualização.


3 - Visualização acima da coroa da sua cabeça.

A terceira é a visualização acima da coroa da sua cabeça, não como parte de você, mas acima da sua cabeça.

Essas duas são descritas como sampanna krama e utpannakrama, visualização e completude. Aqui [em sampanna krama], você mesmo se transforma na forma da deidade, a forma sambhogakaya da deidade. Como a grande deidade bodhisattva, pai de todos os Buddhas, Avalokiteshvara, ou como a mãe de todos os Buddhas, Tara, mas Avalokiteshvara é particularmente mencionado no texto. Mas o princípio é o mesmo. E então, o guru. O guru aqui significa: na coroa da sua cabeça, o guru Vajradhara.


Muitas vezes eu vejo pessoas ficando confusas com o guru humano e com o que o guru humano representa. Então essas duas coisas são confundidas. O guru humano é a pessoa que recebeu a transmissão do guru dele ou dela, cuja linhagem remonta ao Buddha Shakyamuni. E porque você recebeu essa linhagem de transmissão do Dharma puro, então essa pessoa é seu guru. Se não fosse pela linhagem, o guru não existiria, o guru existe devido à linhagem. E então as pessoas perguntam "Qual é o [meu] relacionamento com o guru?" É muito simples: o seu relacionamento com o seu guru, no que diz respeito à prática Vajrayana, você recebeu o ensinamento puro do Buddha, o qual continuou desde o Buddha Shakyamuni até o seu guru e o seu guru transmitiu esses ensinamentos sagrados à você, então esse é o relacionamento de vocês. O guru representa o Buddha porque eu não posso ver o Buddha agora, então o meu guru representa o Buddha para mim. As palavras do meu guru são os ensinamentos do Buddha, não tudo que o guru diz, mas o Dharma puro que o guru irá me conceder, isso é o ensinamento genuíno do Dharma. E então o guru, ele ou ela mesmo, é a Sangha. Pode ser a sangha ordinária, podem ser arhats, pode ser, no sentido Vajrayana, um bodhisattva, ou pode ser um yogui. Então esse é o aspecto sangha do guru. Então, a sua relação com o guru é ouvir o ensinamento do guru, que é o ensinamento do Buddha continuado, e então praticar isso - esse é o seu relacionamento com o seu guru.

Ademais, um ser humano que está associado com qualquer outro ser humano, não meramente como um professor, guru, mas, além disso, de humano para humano, como amigo próximo, isso é outra coisa que não tem muito a ver com guru por definição, mas sim um ser humano o qual você está familiarizado. E se o guru, enquanto esse ser humano, diz algo, por exemplo, o seu guru, entre os ensinamentos te diz "Por favor, você pode ir comprar um café da Starbucks? E não esqueça de me trazer um Muffin!" isso não é um ensinamento de Dharma, é apenas uma conversa entre seres humanos, amigo perguntando ao amigo, então se você pode, você diz "sim", se você não pode, você diz "Oh, hoje eu estou ocupado, por favor, me perdoe, mas eu irei pedir", e então você liga e a Starbucks irá trazer o café e o muffin - eu acho, não sei ao certo, mas se não for muito longe, eles o farão. Então, dessa forma, você não está fazendo nada errado, é claro que você faz o seu melhor e se você pode, assim como faz para um amigo, quando você está trabalhando em um lugar e o seu amigo está um pouco cansado e ele te diz "Eu vou descansar nesse parque, nesse banco, eu realmente tive um dia terrível, eu fiquei em pé o dia todo trabalhando, por favor, será que você pode me trazer uma pizza?", se você pode, você diz "sim", se você não pode, voc