Devoção e Visão pura

Marpa e Milarepa!!

Para praticar os estágios de criação e completude, é essencial ter devoção, fé e ter visão pura ou perspectiva sagrada. A devoção tem dois aspectos: um é o entusiasmo e o outro é o respeito. Isso significa estar interessado, entusiasmado com o Dharma e ter o respeito que vem do entendimento de sua validade e importância. O indivíduo amplia esta mesma atitude em relação ao seu próprio guru raiz e aos gurus da linhagem, tendo interesse e respeito por ele.


Outra inclinação importante é a atitude da visão pura ou sagrada. Visão pura é um dos dois modos em que podemos olhar para o mundo. Você pode olhar para qualquer coisa de modo que veja o que há de bom, que enxergue a pureza; e pode olhar para qualquer coisa de um modo em veja o que é errado, que é a impureza. Qualquer ação pode ser conduzida com uma atitude de pureza ou impureza.


Por exemplo, um simples ato de generosidade, dar alguma coisa a alguém, pode ser feito sem pensar, simplesmente para livrar-se de algo que não precisa, ou sem ter checado se seria de fato apropriado para a pessoa. Essa atitude não é uma visão pura, mas descuidada -- uma perspectiva impura. Ou você podar conscientemente. Você pode avaliar cuidadosamente a situação e determinar que o que você está dando é de fato o que a pessoa precisa. O mesmo é verdadeiro para qualquer ação ou situação. Por exemplo, você poderia ser muito paciente em uma situação ao simplesmente pensar, "essa pessoa que me abusa, é ridícula de qualquer maneira, e eu não tenho muito a fazer sobre isso, assim devo ser paciente". Mas essa não é uma visão pura. Ao invés disso, você poderia ter uma atitude corajosa e pensar, "Mesmo se houvesse alguma maneira de revidar essa pessoa, nunca faria isso". Essa seria uma atitude pura ou sagrada. O propósito de uma visão pura é enfatizar qualidades positivas ao invés de defeitos, especialmente ser livre do tipo de projeção que o faz ver as qualidades dos outros como defeitos. Se você possui este tipo de visão pura, então através disso e disso surgirá devoção. Se possui devoção, então ela própria irá trazer até você os resultados da prática.


A devoção é necessária porque, fundamentalmente nós precisamos praticar o Dharma, e se você tem 100% de confiança no Dharma, então sua prática será 100%. Caso tenha menos confiança, então sua prática será menos intensa. Sua prática sendo menos intensa, menor será o resultado. Portanto, é essencial ter confiança e devoção no Dharma em si. Para que isso ocorra, tem que se ter confiança nos indivíduos que ensinam o Dharma para você. Tem de haver confiança no guru. Se você confia no guru, então vai confiar no Dharma, e se confia no Dharma, então você irá praticá-lo.


Contudo, ter fé em seu guru não significa ter fé cega. Isso não significa acreditar "Meu guru perfeito", mesmo que seu guru não seja perfeito. Não é fingir que os defeitos de seu guru são qualidades. Nem é justificar cada ponto fraco de seu guru como sendo uma virtude sobre-humana. Afinal de contas, a maioria dos gurus terão defeitos. Você precisa recolhê-los pelo o que eles são. Não é preciso fingir que os defeitos do seu guru são qualidades, porque o objeto de sua devoção não são os pontos fracos, os equívocos ou defeitos do seu guru, mas o Dharma que ele ensina à você. Você não pratica os pontos fracos do guru. Desde que o Dharma que você receba seja autêntico e puro, então esse guru é um objeto apropriado para sua devoção. O resultado que você obtém é conseguido através do Dharma que você pratica. Você precisa reconhecer os defeitos do seu guru como defeitos e não necessita fingir que eles são outra coisa. Os defeitos do guru não podem lhe ferir, pois não são ele que você cria e cultiva. Você segue os ensinamentos do guru, "confia", o que significa principalmente confiar na validade dos ensinamentos em si.


Trecho extraído do livro "Creation and Completion", de Jamgon Kongtrul com comentário de Thrangu Rinpoche