Como desenvolver a compaixão?


Avalokiteshvara é o bodhisattva que representa o grande coração compassivo de todos os budas, então sua verdadeira natureza é amor e compaixão. Por isso, quando se faz a prática de Avalokiteshvara é muito importante para nós entender como cultivar a compaixão. Para desenvolver uma boa prática de amor e compaixão, tendo acumulado as causas e condições para a prática, é necessário ser capaz de estimular nossas sementes inatas de amor e compaixão, o que é uma preparação para que o amor e a compaixão possam florescer. Falando de um modo geral, tenhamos ou não o amor e compaixão plenamente qualificados conforme é descrito nos textos budistas, a maioria de nós tem alguma medida de amor e compaixão com potencial de serem desenvolvidos; é baseado nesse potencial que nos engajamos na prática budista. Além de promover e incrementar o desenvolvimento da semente de amor e compaixão já presente em nossas mentes, não precisamos nos preocupar em desenvolver qualquer outro sentido de "amor" e "compaixão" de inspiração religiosa sob a forma de alguma espécie de disciplina espiritual formal.


Antes que o amor e a compaixão pelos outros possam surgir em nossas mentes, primeiro devemos pensar nos outros como sendo agradáveis, positivos, e prazerosos. Para que surjam tais pensamentos positivos sobre os outros seres, devemos investigar a relação entre nós e os outros como uma amizade carinhosa. Devemos ver que o princípio de relacionamento que acontece em tal amizade é a troca mútua de benefícios, de forma mutuamente amigável e harmoniosa. Através do cultivo de tal relacionamento, pensamentos agradáveis surgem naturalmente entre as partes. Isso é o que significam amor e compaixão.


Quando falamos sobre isso a partir do ponto de vista budista, não apenas geramos tais pensamentos agradáveis a respeito de uma ou duas pessoas, mas pelo vasto reino de todos os seres sencientes do universo, cujo número é tão ilimitado quanto o espaço. Se não pudermos fazer isso, deveríamos ao menos dar nascimento a pensamentos positivos por todos os tipos de seres que vivem nesse mundo. Antes de sermos capazes de criar estes tipos de pensamentos, precisamos saber se existe um relacionamento de valorização mútua e afeto entre nós e todos esses seres. Se existe tal relacionamento, ele vai gerar pensamentos positivos.


Com esses pensamentos positivos vem a atitude mental de querer que os outros seres tenham a felicidade e se livrem do sofrimento. Dessa forma chegamos a ter uma conexão afetuosa com todos os seres sencientes. Para que isso aconteça, o principal é reconhecer que todos os seres sencientes tem a natureza de serem benéficos a nós e de nos demonstrarem grande bondade. Nesse aspecto, é ensinado nas escrituras budistas que não existe nem um único ser senciente que não tenha alguma vez sido nosso pai, nossa mãe, nosso parente e nosso amigo.


Existe uma história do tempo do Buda Shakyamuni que ilustra esse ponto. Um dia, quando ele estava fazendo seu percurso esmolando, o Buda chegou a uma estrada, e do outro lado dela havia uma velha senhora trabalhando na lavoura. Ao encontrar o Buda à margem da estrada ela imediatamente achou que ele era seu filho. "Meu filho! Meu filho!" ela gritou e correu na direção do Buda, tentando abraçá-lo, mas os acompanhantes do Buda fizeram que a velha senhora parasse no seu caminho. Nunca antes havia acontecido algo como isso ao Buda, então seus seguidores perguntaram que razão poderia haver para o que havia acontecido. "Essa velha senhora foi o renascimento de minha mãe de 500 vidas atrás", respondeu o Buda.


O motivo para que essa velha senhora encontrasse o Buda cara a cara dessa maneira foram suas tendências habituais latentes por haverem sido mãe e filho em uma vida anterior. Devido à extraordinária capacidade e poder do Buda, esse potencial foi despertado e ela viu o Buda como seu filho novamente. O Buda é uma pessoa que não fala falsidades e que abandonou a hipocrisia e, apesar de ter origem há 500 vidas atrás, certamente a conexão mãe-filho ainda existia.


Todos nós temos uma boa conexão de afeição com todos os seres sencientes da mesma forma. Saibamos disso ou não, todos fomos mães e pais uns dos outros e por isso temos muitas conexões afetuosas e amigáveis com todos os seres sencientes, mesmo que não possamos explicá-las. Em resumo, não existe nem um único ser que não tenha sido alguma vez nosso pai e mãe, em um relacionamento afetuoso e amigável.



Entretanto, não é apenas pelo fato de que todos os seres sem exceção terem sido nossos pais que devemos ter grande gratidão por sua bondade, mas existem muito mais razões para nós pensarmos sobre eles com gratidão. Geralmente, mães a pais tem muito amor genuíno e afeição por seus filhos. Também, a maioria dos seres que vaga pelo samsara precisando de muitos cuidados - especialmente quando são crianças - têm que confiar em suas mães e pais para sua sobrevivência e bem-estar. Como geralmente é assim, devemos pensar em nossos pais com gratidão, por sua grande bondade para nós em pensamentos e ações. Em particular, nós normalmente consideramos essa bondade de nos fornecerem comida, roupas, nos ensinarem a falar etc. Mas poderíamos dizer que sua maior bondade é de sermos amados, independentemente do tipo de pessoa que somos.


Quando tememos por nossas vidas ou nos aproximamos da morte e alguém nos salva desse grande perigo, essa pessoa em particular vem a ser valorizada como tendo nos tratado com uma bondade muito especial. Tendo nossa vida sido salva uma vez, nós consideramos isso uma grande bondade. Mas o que dizer desses pais que nos criaram e de cujos cuidados dependemos inumeráveis vezes? Se não fosse por haverem cuidado de nós, não teríamos sido capazes de sobreviver. É graças a seus cuidados que temos hoje uma vida para viver. Nossos pais não nos cuidaram apenas por um dia, eles nos cuidaram dia após dia, ano após ano, mês após mês; cada um dos dias nós fomos protegidos por nossos pais, o que é de uma bondade extremamente vasta. Assim, quando outros seres sencientes se tornam nossos amigos mais próximos ou nossa mãe ou pai, eles são muito bons conosco, mas não apenas nessas situações. Devemos considerá-los como sendo extremamente bondosos mesmo quando não são nossa mãe ou pai. Se encararmos isso do ponto de vista de nossa vida humana atual, exceto por alguns amigos e parentes como nossa mãe e pai, todos os seres sencientes não são obviamente nossos parentes diretos, muito menos nossa mãe ou pai. Mesmo assim eu digo que todos esses seres são extremamente bondosos mesmo quando não são nossa mãe ou pai? Por quê isso?


Para responder a partir de uma perspectiva ampla, quando pensamos sobre todos os seres sencientes cujo número é insondável como o céu, devemos considerar a questão do ponto de vista de uma família em particular. Se um indivíduo tem felicidade e bem estar, é extremamente difícil que essa felicidade tenha sido criada apenas por uma pessoa, e não por mútua dependência de todos da família. Da mesma forma, tendo nascido nesse mundo, se todo o meio ambiente e sociedade desse mundo desfrutarem de felicidade e bem estar, então a felicidade e bem estar também vão surgir para as pessoas individuais. Mas se o ambiente se torna uma causa de hostilidade ou danos, surgem sofrimento e dificuldades.


Invariavelmente, a felicidade de um ser senciente depende da felicidade de outros seres sencientes. Logo que nascemos nesse mundo, toda a comida, roupas e conversa de que precisamos, o nome e reputação que queremos e de que precisamos, sozinhos não vamos ser capazes de obter nossa própria felicidade e bem estar sem depender de outros seres sencientes. Assim, desde que entramos nesse mundo, felicidade e bem estar podem surgir apenas baseados em outros, não podem ser plantados firmemente por apenas um indivíduo de forma independente. Precisamos nos apoiar em todos os outros seres.


Assim, apesar de todos os seres sencientes desse mundo não serem, dessa vez, nossos pais e mães, de uma forma ou de outra eles nos mostram a mesma bondade e se tornam a fonte de nossa felicidade e bem estar. Quando eles se tornam a condição para a nossa felicidade e bem estar, nos referimos a eles como sendo muito bons para nós. Então quando algum benefício vem a nós através de outros seres sencientes, é muito adequado considerar esses seres como sendo muito bons. Por outro lado, entretanto, muitos danos e dificuldades também podem vir a nós através de outros seres sencientes e então nos apegamos a um pensamento de um tipo familiar. Sentimos desprezo por esses outros seres sencientes, o que leva a raiva e agressão. Sentimos desprezo e pensamos que aquilo que está acontecendo não está certo. Esse tipo de pensamento surge, não é?


Por quê ele surge? Porque se está certo pensar nos outros como sendo muito bons quando eles nos beneficiam, então não há razão porque não deveríamos pensar que está certo considerá- los maus quando nos prejudicam. Falando de um modo geral, não é irracional pensar dessa forma, já que tantos prejuízos nos são causados por outros seres. Além disso, a maioria dos seres sencientes não domaram suas mentes e não pensam em termos de amor e compaixão por si mesmos e pelos outros.


Assim quando muitos problemas surgem para nós devido a isso, do ponto de vista dessas dificuldades pensamos que outros seres são ruins. Mas, por outro lado, essa maneira de pensar só vai nos trazer sofrimento. Não apenas vai nos trazer a infelicidade, não vai nos trazer nenhuma espécie de benefício. Além disso, já encontramos diferentes tipos de dificuldades e sofrimento, então não precisamos procurar acrescentar a eles de nenhuma forma. Não precisamos buscar a dor e sofrimento no mundo - eles caem nas nossas cabeças o tempo todo! Por um lado, seres humanos tem um juízo extraordinário: achamos que é muito importante nos esforçarmos para realizar uma felicidade perfeita que é diferente da dos outros seres. Que outra razão poderia haver para praticar os ensinamentos budistas? Tendo pensado sobre obter a felicidade, devemos focalizar nossa atenção sobre isso. Se pensarmos apenas em termos dos danos que podem ou não nos acontecer, existem muitos exemplos e razões que mostram que tal pensamento não é benéfico e que por causa dele muitas coisas negativas acontecem. Em vez disso, se pensarmos sobre como os outros seres nos trazem benefícios, podemos cultivar uma motivação que é útil tanto para nós quanto para esses seres.


Precisamos considerar qual dessas duas maneiras de pensar é o princípio que nos traz maior benefício. Acho que é muito importante escolhermos entre as opções de pensarmos em termos dos danos que vêm de outros seres ou pensarmos em termos dos benefícios que vêm deles. Se compararmos a opção de sermos auto-centrados e apenas perseguirmos nossos próprios desejos com a opção de procurarmos um benefício verdadeiro para nós e para os outros, no longo prazo é o segundo que dá bons resultados.


Imagine a experiência seguinte de um palestrante profissional que é um erudito ou um consultor dando orientação sobre matérias mundanas e é um conferencista experiente. Suponha que um dia ele está fazendo seus preparativos para dar uma palestra em um grande hotel. Muitos homens de negócios renomados, pessoas famosas e acadêmicos ilustres planejaram ir à palestra. Mas suponha que o gerente do hotel fosse ganancioso e quisesse mais dinheiro, então resolvesse aumentar o preço do aluguel para que houvesse a palestra no hotel. O palestrante provavelmente ficaria um tanto zangado com isso, não ficaria? Se ele ficasse zangado, mas pensasse bem sobre o que fazer, ele provavelmente daria uma resposta esperta para o gerente, tal como: "Nos dias atuais, todos estão focados na riqueza do mercado. Alguém como eu, que dá palestras em seu hotel favorece bastante seus negócios. Atualmente todos focam na importância de perseguir o dinheiro, mas hoje, se você vai fazer dessa forma, eu não vou dar minha palestra em seu hotel, mas em outro hotel. Você não vai mais poder convidar tantas pessoas para seu hotel e vai perder a clientela de muitos acadêmicos e pessoas famosas que usualmente vêm a seu hotel. Você realmente deveria pensar sobre o que é mais lucrativo".


Bem, se ele dissesse algo parecido com isso, o gerente, preocupado com seus lucros, poderia esquecer a idéia de aumentar o preço do aluguel e poderia até mesmo baixá-lo. Mas suponha que o palestrante falasse de uma maneira diferente, sendo muito direto e preocupado apenas com seus próprios interesses. Então, porque ambos estariam sendo egoístas, nenhum cederia para o outro e ambos perderiam. Em termos de pensar em seus próprios benefícios, assim como nos benefícios para os outros envolvidos, as pessoas deveriam focar em como realizar esses benefícios. Se forem capazes disso, uma solução que seja boa para os dois a longo prazo deve ser encontrada. Considere que o egoísmo não é o princípio para trazer lucros ou benefícios. Devemos pensar principalmente em termos do que pode trazer mais benefícios para nossos objetivos de longo prazo.


Explicado de uma maneira simples, pensar em termos dos danos que vêm a nós através dos outros seres sencientes gera raiva pelos outros e é baseado numa crença principal no egoísmo. Não devemos pensar: "Oh, muitas coisas horríveis foram feitas para mim" e ficarmos fixados nisso. Em vez disso, se alimentarmos o outro princípio, de beneficiar os outros, então através de nossa atitude altruísta os benefícios também virão a nós. Toda a felicidade e bem estar necessariamente vem a nós em dependência de outros. Aquilo que vai, volta, e se fizermos o bem uns para os outros, então o bem virá para nós. Isso é o que devemos chamar de real benefício e lucro. É muito importante colocarmos esse princípio em primeiro plano em nossas mentes, fazendo ser nossa prioridade esse tipo de lucro e considerando dessa forma nossos objetivos de longo prazo.


--Texto para o Grupo de Estudos de 15 de novembro de 2009

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