O benefício de sabermos o motivo para nossa prática

Como a maioria de nós sabemos, Avalokiteshvara (Tchenrezi em tibetano) é um daqueles que é chamado pela tradição budista de bodhisattva. Avalokiteshvara é também o nome de uma prática budista. Mas se fôssemos perguntar: "Qual é o real significado da prática da Avalokiteshvara?", a resposta seria: bondade amorosa e compaixão. Não existe prática de Avalokiteshvara separada da bondade amorosa e da compaixão.

 

Falando de uma forma pouco rigorosa, podemos dizer que qualquer pessoa no mundo que, motivado pela bondade amorosa e compaixão, se esforça para beneficiar os outros, assim como qualquer um que pratique a compaixão, é um praticante de Avalokiteshvara. Essa é certamente uma descrição adequada. Ela expressa a realidade interior do que é Avalokiteshvara.

 

A prática de Avalokiteshvara é especial por ser tão difundida. Sendo tão difundida, é um bom método pelo qual eu posso criar uma conexão dhármica com os outros. Hoje, para aprofundar nossa conexão dhármica de bondade amorosa e compaixão, eu ofereci uma transmissão de leitura de Avalokiteshvara para vocês. Tenho confiança que isso vai inculcar em nós uma conexão dhármica positiva.

 

Atualmente, mais e mais pessoas no mundo estão se interessando pela bondade amorosa e compaixão. Hoje a bondade amorosa e compaixão serão a base do ensinamento pelo qual nós vamos estabelecer uma conexão.

 

O treinamento da bondade amorosa e compaixão pode trazer benefícios a longo prazo para nossos caminhos espirituais, mas pode também trazer benefícios imediatos para nossas vidas diárias. Entretanto, a forma pela qual treinamos a bondade amorosa é de importância fundamental. Basicamente, pode-se dizer que existem dois estilos pelos quais podemos empreender o esforço de cultivar a bondade amorosa na compaixão. Em um dos estilos, tentamos treinar a bondade amorosa e compaixão sem termos clareza sobre o motivo para desenvolver essas qualidades. Em vez disso, temos fé que essa seria uma boa coisa a fazer e iniciamos estas práticas com a fé como motivação principal. No outro, procuramos pelas razões exatas pelas quais o cultivo da bondade amorosa e compaixão seria uma boa coisa a ser feita.

 

É esta segunda abordagem que é a mais benéfica. Para principiantes, especialmente, procurar as razões pelas quais devemos treinar a compaixão realmente desperta as qualidades mais fortes da mente. Para entendermos o motivo disso, vamos examinar o exemplo de como podemos chegar a gerar a raiva, uma qualidade mental completamente diferente da compaixão

 

Quando achamos que alguém é nosso inimigo, a mera identificação daquela pessoa como sendo um inimigo não será suficiente para produzir em nossas mentes uma raiva intensa ou ódio. Para produzir raiva e ódio intensos, nós precisamos nos lembrar das coisas que ele nos fez, e que nos levaram a classificá-lo como um inimigo. Temos que nos lembrar de todas as ações prejudiciais: talvez ele tenha nos golpeado com uma vara ou olhado para nós de forma ameaçadora. Seja qual tenha sido a situação, lembramos de todas as coisas negativas que a pessoa fez para nós. Trazemos à mente essa lembrança de novo e de novo. É essa rememoração contínua das razões pelas quais acreditamos que essa pessoa seja nosso inimigo que nos faz sentir, no final, intensa raiva e ódio.

 

O processo de gerar compaixão é, na verdade, muito parecido em termos do processo básico pelo qual o sentimento é gerado. Se simplesmente tentarmos partir dessa ideia de que a compaixão é boa e começarmos a trabalhar para gerar este sentimento com essa fé genérica, não vai surgir em nós um forte sentimento de compaixão. Por outro lado, se procurarmos esclarecer as razões que podemos ter para gerar a compaixão, e tomarmos essas razões como base de nossa prática, vamos certamente desenvolver um forte entusiasmo em nossas mentes para cultivar mais e mais a compaixão. Vamos ficar cheios de convicção, certeza e desejo de incrementar nossa compaixão.

 

É, então, importante que nossa meditação sobre a bondade amorosa e compaixão vá além de simplesmente cumprir uma instrução que recebemos, para praticar a meditação. É preferível que vejamos claramente as razões para meditarmos.

 

Nos textos budistas, somos encorajados a cultivar a compaixão pelo motivo de que todos os seres sencientes foram nossas mães. Somos estimulados a reconhecer que todos os seres sencientes foram nossas mães. Como pode ser isso verdade? Para entender que todos os seres foram, em alguma época, nossas mães, precisamos primeiro entender a argumentação que demonstra a existência de vidas passadas. Essa argumentação é baseada no processo causal pelo qual a consciência é produzida.

 

Como seres humanos, temos dois componentes principais para nossa existência: temos um corpo e uma mente. A continuidade de nossos corpos começou quando as substâncias sutis de nossos pais se uniram no útero. No entanto, não podemos dizer o mesmo em relação à mente, porque a mente não é uma substância física, como o corpo. A mente não é composta por nenhuma matéria física. Para que possa existir a mente ou consciência no presente, tem que haver existido uma causa para a consciência no passado. Algo imaterial como a mente não pode ser produzido por algo material, tais como as substâncias físicas sutis de nosso pai e mãe. Além disso, se examinarmos as semelhanças e diferenças entre irmãos gêmeos, veremos que muitos gêmeos são fisicamente idênticos mas, em relação às suas mentes, eles podem ser muito diferentes. Podem ter diferenças distintas em relação ao que gostam e desgostam e às suas disposições mentais. Apesar das substâncias físicas das quais seus corpos tiveram origem serem idênticas, dois gêmeos precisam necessariamente ter dois fluxos mentais distintos.

 

Por isso, a causa da mente tem que ser um momento precedente de mente. A causa de nosso momento presente de consciência é o momento precedente de nossa consciência. Se rastrearmos a sequência contínua de nossa consciência até o útero, poderemos ver que, apesar da existência do corpo ter tido um começo com o encontro das substâncias de nossos pais, a mente que está presente no útero tem que ter origem em uma causa de sua própria natureza para que possa haver sido produzida. Então, a consciência presente no útero tem que ter surgido a partir de um momento prévio de consciência - a consciência da vida anterior. É impossível que essa consciência no útero tenha sido produzida de maneira aleatória, sem nenhum motivo.

 

Quando rastreamos a sequência contínua de nossa mente, vemos que o processo de causalidade da mente é sem princípio. Não se pode identificar um momento no qual todos esses instantes de mente tiveram início. Sendo assim, nós temos passado por nascimentos incontáveis no samsara através de todos esses momentos de consciência, e não há um início para a nossa série de renascimentos.

 

Durante cada nascimento individual, tivemos um pai e uma mãe que produziram nossos corpos físicos e cuidaram de nós. Assim, se nossos nascimentos no samsara foram incontáveis, precisamos ter tido incontáveis pais e mães. Então, dentre todos os seres sencientes, não há nenhum que não tenha sido nossos pais. Isso é o que dizem os ensinamentos budistas.

 

Assim como não há nenhum ser senciente que não tenha sido, em alguma época, nossos pais, também não há nenhum ser senciente que não tenha sido nossos bons amigos. Quando usamos a contemplação da bondade passada dos seres sencientes como razão para desenvolvermos a compaixão, não existe uma regra de que precisamos necessariamente refletir sobre os seres sencientes terem sido nossas mães, ou tendo sido nossos pais e mães. Podemos refletir usando o relacionamento que para nós represente o maior grau de proximidade, amizade e amor.

Por exemplo, existiu um grande mestre espiritual no Tibete cuja mãe faleceu quando ele era muito novo. Ele foi criado por uma tia que veio a respeitar como sendo a maior fonte de bondade e amor em sua vida pessoal. Por este motivo, quanto ele se engajou na tradicional contemplação da bondade amorosa e co

 

mpaixão, usou o ponto de referência que fazia o maior sentido para ele, por sua experiência: contemplou que todos os seres sencientes foram, em alguma época do passado, sua bondosa e generosa tia. O resultado dessa contemplação é o mesmo resultado que nos esforçamos para obter contemplando todos os seres sencientes como mães: aquele mestre cultivou grande compaixão por todos os seres sencientes.

 

Podemos seguir os passos daquele mestre contemplando seja lá quem for que tenha sido a maior fonte de amizade e bondade para nós. Não é correto que tenhamos recebido esse tipo de bondade apenas nessa vida, recebemos bondade como essa em todas as nossas vidas, vinda de todos os seres sencientes. Se pudermos entender como a bondade que recebemos - seja qual for sua origem - está relacionada com todos os seres sencientes, isso é o bastante.

 

Não importa como chegarmos à conclusão de que todos os seres sencientes foram bons para nós e são por isso dignos de nossa bondade amorosa e compaixão, o importante é que pratiquemos primeiro esse tipo de reflexão. Dessa maneira, quando entrarmos na prática principal de gerar a compaixão, a prática vai ser claramente embasada nas razões corretas.

 

Por motivo de conveniência, apesar das ressalvas acima mencionadas, vou me referir ao estágio inicial do desenvolvimento da apreciação pelos seres sencientes como sendo a "meditação nos seres sencientes como nossas mães". Qual é a medida, ou sinal, pelo qual poderemos saber que praticamos uma reflexão penetrante sobre a bondade dos seres sencientes, nossas mães? Como saberemos que refletimos sobre esse tópico de maneira suficientemente completa? Podemos estar sentados em um estado mental mais ou menos neutro. Enquanto sentamos dessa forma, podemos ouvir um cachorro latindo do lado de fora. Se, sem artifícios, automaticamente pensarmos a respeito do cachorro: "Esta é minha mãe", atingimos o mais alto grau na contemplação de todos os seres sencientes como sendo nossas mães. Se ouvirmos um pássaro cantar do lado de fora em uma hora em que nem estivermos especificamente meditando na compaixão e naturalmente pensarmos a respeito do pássaro: "Esta é minha mãe", então nossa prática de conhecer todos os seres como sendo nossa mães atingiu a maturidade.

 

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