Os Quatro Selos do Dharma


LAMA LODRO LAMO

PALESTRA

"OS QUATRO SELOS DO DHARMA"

Realizada na

KARME THEGSUM TCHOLING

Rio de Janeiro, julho de 2017

LAMA KARMA TARTCHIN

Lama residente

KARMA TCHOZANG GYALPO

Tradutor

LAMA LODRO LAMO: Boa noite. Atendendo à solicitação do Lama Karma Tartchin, em nome da Karme Thegsum Tcholing do Rio de Janeiro, estou aqui hoje para discutir um assunto com vocês. O nosso assunto esta noite são os quatro selos do Dharma. Não sou propriamente uma especialista no assunto, mas creio que possa ajudar.

Os quatro selos; o que quer dizer isto? O selo é aquela estampa, aquela figura que você coloca em alguma coisa para dizer que está ok. É uma aprovação em relação a ela. Pode-se dizer que estes quatro selos são o Buddhadharma. E estes selos são apresentados para provar que o que você realmente está falando é o Buddhadharma. De forma semelhante, se você realmente acredita que estes ensinamentos dos quatro selos são uma prova do Buddhadharma, então você é um seguidor de Buddha.

Então, você pode dizer que estes quatro pontos, estes quatro selos são como o Buddhadharma em resumo, como se você condensasse a quintessência dos ensinamentos de Buddha. Quais são estes quatro selos? O primeiro selo diz que todas as coisas compostas são impermanentes, ou poderia dizer que todas as coisas condicionadas são impermanentes. O segundo selo fala sobre a contaminação das coisas, que elas estão contaminadas, algumas vezes sendo traduzido por 'manchadas'. Algumas linhagens dizem que todas as emoções, para colocar de uma maneira mais coloquial. Todas as coisas 'manchadas' são coisas contaminadas, trazem sofrimento, são dolorosas. Você pode se perguntar: o que são coisas contaminadas? O ar? O meio ambiente? Para colocar de uma maneira simples, podemos dizer dualidade. A dualidade traz sofrimento. O terceiro selo diz que todos os fenômenos são vazios por natureza. O quarto selo diz que nirvana é paz, nirvana está além de extremos.

Ok, então, para apresentar estes quatro selos simplesmente não é importante para que os entendamos, pois seria difícil apreender todos os significados. Acho importante entender o que eles querem dizer um por um, de maneira clara, o tanto quanto eu possa.

Então, o primeiro selo: todas as coisas compostas, ou coisas condicionadas são impermanentes. O que são coisas condicionadas ou compostas? Elas incluem tudo que possa existir em qualquer momento. E não têm que ser uma coisa. Por "coisa" podemos entender algo pequeno como uma única célula ou tão grande quanto qualquer coisa grande que possa existir, que você possa imaginar. Não tem que ser uma coisa. Isto porque coisas compostas também se referem a espaço e tempo. Então, todas estas coisas, todos os fenômenos, todas as coisas que existem, como espaço e tempo, são impermanentes. Então, você pode se perguntar: 'Ok, diga-me porque elas são impermanentes. Elas parecem bem permanentes para mim, têm uma certa duração.' A razão pela qual elas são impermanentes é pelo simples fato de que elas são compostas, são condicionadas. Nada poderia existir independentemente.

Tudo o que possa ter existido em qualquer tempo, incluindo espaço e tempo é devido a algo mais, que existiu em qualquer espaço e em qualquer tempo. Vocês podem pensar por si: 'Há qualquer coisa que possa ser existente sem outras coisas estarem presentes ao mesmo tempo? Nada. Mesmo o espaço: vocês podem chamar o espaço de 'espaço' se há outros objetos que façam o espaço se tornar a coisa 'espaço'. E o tempo também. Tempo é condicionado, como passado, presente e futuro. Não podemos dizer que o tempo presente é presente se não houver o passado e o futuro.

Então, toda e qualquer coisa que possamos experenciar em nossas vidas é condicionada. É condicionada porque depende de outras coisas estarem presentes para ela ser o que é. Por causa disto, é um fato que nada que exista é uma entidade independente. Este fato em si a faz impermanente. Devido às coisas não serem algo particular, ou uma entidade particular, são dependentes de outras coisas que existem. Então, outras coisas que existem dependem de outras coisas que existiram previamente. Logo, é uma cadeia de dependência. Se raciocinarmos desta forma, podemos chegar a uma conclusão muito fácil: nada pode ser permanente porque há uma cadeia infinita de dependência. Ok, uma vez que há uma cadeia infinita faz quaisquer fenômenos ou quaisquer coisas não são existentes por si. Não é possível ser permanente.

Contudo, não é como percebemos as coisas. Nós percebemos o tempo como impermanente porque o último segundo é definitivamente dependente deste segundo. Então, sabemos que o tempo é impermanente. Sabemos que estamos envelhecendo a cada segundo. Sabemos absolutamente que nossa vida é impermanente e que o tempo é impermanente. Percebemos que certas coisas são impermanentes. No entanto, nos agarramos a coisas que são impermanentes. Coisas que vemos como sólidas, a coisas que não percebemos que estão mudando. O tempo a que nos agarramos, são impermanentes. Precisamos entender que nossa percepção não está sempre correta. Nossa percepção é baseada em nossa percepção visual e outros sentidos o que, em muitos casos, são enganosos. São enganosos porque apenas podemos interpretar coisas baseadas na experiência e não podemos ver as coisas em sua própria natureza. Isto está além de nós, porque a natureza das coisas não está dentro de nossa capacidade de realmente compreender da maneira correta.

Então, aqui, o Buddha nos disse que, apesar de não percebermos as coisas como sendo impermanentes, a verdade é que tudo que possa existir é em si, em sua própria natureza, impermanente, porque depende de outras coisas. Ok, se você entende isto, você pode também fazer uma pergunta: o que isto tem a ver comigo e minha vida? Isto tem muito a ver com sua vida e como você possa vivê-la porque muito sofrimento é criado ou surge pelo fato de que nós nos agarramos às coisas, desejando que elas sejam permanentes. Por exemplo, se estamos felizes sobre certa condição ou situação, nós desejamos que ela continue para sempre para nós. E, se estamos querendo nos livrar de uma situação triste ou sofrimento, desejamos que este tipo de alívio continue para nós. Se somos ricos, tememos que um dia percamos esse dinheiro pelo qual trabalhamos duro para conseguir, então nos agarramos à ideia de permanência, que as coisas não deixem de ser assim.

Então, se você entende a natureza de como as coisas existem, ou seja, que não são e nunca serão permanentes e nem o são no momento em que estamos vivendo, sua mente ficaria mais livre para aceitar as coisas simplesmente como elas são. Logo, você pode viver sua vida de uma maneira muito mais livre. Você entende que as coisas surgem devido a causas e condições e as coisas desaparecem devido a causas e condições. Tudo em si é impermanente. Então, você não sofre tanto, como uma consequência de perda ou ganho: você fica feliz quando há ganhos e triste quando há perdas. Se você entender que tudo é potencialmente uma flutuação, uma condição flutuante todo o tempo e sua mente pode ir com este fluxo, sua vida pode ser bem mais fácil para você, porque não está fixado às coisas como sólidas e imutáveis.

Isto leva ao segundo selo, que é: todas as coisas são contaminadas, ou 'manchadas', e trazem sofrimento. Isto é, na verdade, um pouco difícil de entender ou explicar. Podemos dizer que, uma vez que as coisas em sua natureza, não existem em si, sendo dependentes de outras condições, não têm uma existência inerente real. A maioria das pessoas não vê e não entende isto. Então, elas se agarram à ideia dualística de tudo sendo solidamente existente. De fato, se você olhar para a mente em si, a mente que percebe as coisas como sendo verdadeiramente existentes, esta mente que percebe a si também não existe realmente. Uma vez que próprio funcionamento da mente também depender de muitas condições diferentes, por não haver uma mente em si. O problema central disto é nossa fixação de haver um "eu" em si.

Então, a partir desta base do "eu" e "eu mesmo", nós projetamos para ver todas as coisas, este "eu" e "outros", esta ideia dualística é o que nos traz sofrimento. Este é o ensinamento do Buddha.

Como expliquei no primeiro selo, por tudo o que já existiu depender de outras condições, esta coisa que existiu é uma mera aparência, não tem uma existência real intrínseca, por si. Isto inclui vocês, nós mesmos como parte disto. Este princípio de haver existência inerente ou intrínseca reside em nós mesmos. E, todo mundo que percebemos também. E tudo que possa ser percebido. Contudo, devido à ignorância desde os tempos sem princípio, nossa percepção é exatamente o contrário do que é a verdade. A verdade, como explicado, é que não há existência inerente em si, ou em outras coisas, ou em nada. Mas nossa percepção, por não vermos isto, está constantemente vendo as coisas da seguinte forma: "eu" como "eu" verdadeiramente existente, um "ela" como um "ela" verdadeiramente existente, como se tudo o mais estivesse verdadeiramente ali. Assim é como percebemos as coisas, o que é exatamente oposto ao que a verdade realmente é. Devido a esta percepção equivocada que todos nós temos, todos sofremos vida após vida, porque tomamos o "eu" como um sujeito e os "outros" como objeto. E queremos felicidade somente para nós mesmos, porque pensamos: "este sou eu" e queremos tudo de bom. Por querermos felicidade apenas para nós mesmos, isto nos cria sofrimento. A razão de criarmos sofrimento para nós mesmos é porque, para conseguir felicidade, às vezes precisamos fazer coisas que causam danos a outros. Através destas ações, criamos karma. E como todos sabemos, a lei do karma é: se fizermos boas coisas, o resultado ou fruição de boas atividades, de boas ações é a felicidade. E o resultado de más ações é sofrimento. Então, se fizermos más ações desejando ser felizes, o resultado será sofrimento. No desejo de ser feliz, às vezes o resultado é tristeza e sofrimento para nós mesmos.

O que isto tem a ver conosco? Como isto nos ajuda? Meramente entender como as coisas realmente são não nos ajuda muito. Precisamos na verdade contemplar a respeito e então meditar sobre elas. Então, talvez, ouvindo estas palavras você tenha um melhor entendimento, talvez você possa aceitar que, ok, as coisas não estão realmente lá, e as coisas não são permanentes como pensava ou desejava que fossem: posso aceitar isto. Como posso então pegar estes pontos e aplicá-los na minha vida? Por exemplo, provavelmente todos temos a experiência de ter sentido ciúmes de algo ou de alguém. A razão de estarmos enciumados é que tomamos nós mesmos como sendo realmente existentes. Temos algum grau de orgulho e queremos ser melhores que outras pessoas. Logo, se alguém é melhor que nós ou tem algo que não temos, podemos ficar naturalmente enciumados. Se você se sentir enciumado, você pode se lembrar dos ensinamentos do Buddha e dizer para si: "o Buddha disse que todas essas emoções, ciúmes e outras como o orgulho surgem porque tomamos a nós mesmos como sendo verdadeiramente existentes". Pensamos que há um "eu" verdadeiro ali.

Você pode se perguntar: "realmente existo? Não sei, mas sei que tenho um corpo". Pensamos que somos realmente duas coisas: o corpo e a mente. Você pensa: "tenho uma mente, então, deve haver um 'eu'". Mas, se você olhar seu corpo inteiro, qual parte de seu corpo é "você"? O seu braço é você? Ou sua perna, seu tronco é você? E se você disser que seu corpo inteiro é você, então, um momento atrás aquele "você" e neste momento este "você" são o mesmo "você"? As muitas células de seu corpo morreram deste momento até agora. Então, ao dizer que sua mente é você, aquela mente de um momento atrás e esta mente de agora já mudaram de muitas maneiras. Nosso corpo está mudando a cada momento.

Nunca é o mesmo corpo de antes, como sabemos cientificamente. Nossa mente continua com pensamentos e ideias assim, mas nunca é a mesma coisa de momento a momento. Qual mente você chama sua mente? Em todo caso, apesar de o fato de nossos corpos não serem realmente consistentes e imutáveis, de a mente não ser algo consistente e imutável, nos agarramos a isto, à aparência do corpo e da mente. Por nos fixarmos a isto, ficamos enciumados, nos sentimos orgulhosos, raivosos e coisas assim. Se você puder se relembrar de alguns ensinamentos do Buddha e disser a si mesmo: "estou apenas fixado em algo que realmente não existe em si, que a natureza central do 'eu' realmente não está lá, apenas me agarrando a algo que parece estar lá, mas não está, então, se eu realmente não existo, meus ciúmes, minha raiva, meu orgulho não têm significado". Quando estiver enciumado de alguém ou de algo, estou tentando proteger minha autoestima. Mas este "eu", quando investigamos, não está realmente lá. Então, estou protegendo nada. Seus esforços e emoções são apenas uma perda de tempo.

Assim é que podemos aplicar os ensinamentos em nossas vidas diárias e emoções, contemplando isto. Se seguirmos este ensinamento do Buddha, se formos por esta linha, veremos que realmente não há um "eu" para ser protegido ou ter emoções. Então você gradualmente se libertará destas emoções negativas e gradualmente ser uma pessoa mais feliz.

O terceiro selo é: todos os fenômenos são vazios. Isto também vem do primeiro selo, em que todas as coisas condicionadas são impermanentes. Como primeiramente expliquei, todas as coisas compostas são dependentes de outras coisas. Portanto, não existe nada por si. Não há nada que pode ser chamado de "eu" ou que é "aquilo" em si. Isto é o que chamamos na filosofia budista de olhar para os fenômenos, ou olhar para o "eu" de todas as coisas. Isto é uma forma de explicar. Mas, de acordo com outras filosofias, você também pode olhar para as coisas da seguinte forma: de acordo com uma antiga escola de filosofia, eles dizem que todas as coisas e todos os fenômenos são a mente, nada além da mente. Porque, sem a mente, as coisas não podem existir para você. Se você não puder perceber nada, como quando você está dormindo e não perceber, nada existe para você. Portanto, diz-se que fenômenos são a mente.

Ok, se você fechar seus olhos e pensar: você está ouvindo esta voz com a qual estou falando agora. Pergunte a si mesmo: "estou percebendo esta voz porque esta voz existe ou estou percebendo esta voz porque a mente existe?". Pense a respeito. Qual sua resposta?

ALUNA: Não sei, isto me criou mais dúvidas que respostas.

ALUNO: Acho que é a mente em si.

LAMA LODRO: A mente é que está percebendo minha voz?

ALUNO: Sim, se não existisse uma mente, não ouviria.

LAMA LODRO: Alguém mais tem uma resposta diferente?

ALUNA: Concordo com a opinião anterior.

LAMA LODRO: Todos concordam?

LAMA LODRO: Então, quase todos concordam, porque há uma mente que percebem. Vocês podem perceber minha voz. Não é que minha voz exista independentemente, certo? Se vocês não percebessem minha voz, ela não existiria para vocês. Todos concordam?

ALUNOS: Sim.

LAMA LODRO: Ok. Baseado nesta observação, você poderia dizer: "as coisas não existem, então. Sem a mente, não significam nada, não contam para mim". Certo? Ok, talvez você esteja feliz com isto, eu entendo. Talvez tudo seja apenas a mente. Mas o que é a mente? Se você procurar o que é a mente, a qual resposta você pode chegar? Sua mente está dentro, fora do corpo ou em algum lugar no meio? No espaço? Se está dentro do corpo, em que parte dele? No cérebro? Se está no seu cérebro, quando você morrer, sua mente desaparecerá. Porque, se seu corpo morre, seu cérebro morre. Logo, não há nada. Não há "você", nada, certo? É isto o que você pensa? Mas o Buddha ensinou que a mente, ou o que chamamos de fluxo da mente continua, mesmo depois que o corpo morre. E ela toma outra vida.

Ok, então há esta mente; esta coisa não existe nem dentro, nem fora do corpo, nem em lugar algum no meio, mas há esta coisa realmente não existente em lugar algum, mas há esta mente. Daí você pensa: "ok, talvez haja esta mente. Mas a mente não pode ser achada em lugar algum". Se qualquer um de vocês pensa que esta mente continua depois que o corpo morre, você ainda não pode achar onde a mente está. Onde está esta mente? Já que está produzindo pensamentos, incluindo os pensamentos que acham que a mente existe, então deve haver uma mente. Se você olhar a natureza da mente em si com sua mente, a mente olhando para a mente, você descobrirá que não há nada a ser encontrado.

Agora, quero que todos fechem os olhos. Use sua mente para olhar para a própria mente. Olhem por um momento e me digam o que encontraram.

Ok, alguém tem uma resposta?

ALUNA: Não encontrei nada.

LAMA LODRO: Alguém mais?

ALUNO: Encontrei alguns pensamentos.

LAMA LODRO: Ok... A mente que está olhando para os pensamentos pode não ser a mente em si, certo? Você está olhando para os pensamentos na mente. O que são os pensamentos? Onde estão os pensamentos?

ALUNA: Movimento?

LAMA LODRO: Movimentos de quê?

ALUNA: Movimentos da mente.

LAMA LODRO: Você acabou de dizer que não havia nada...

ALUNA: Sim, não há nada, mas nós pensamos.

LAMA LODRO: Não há nada, mas nós pensamos? Isto é contraditório. Nada não pode pensar... Alguém mais?

ALUNO: As lembranças que produzem. Expectativas. Planos. Não há nada, mas há movimento. Estas coisas fazem os movimentos.

LAMA LODRO: Entendo. Você diz que não há nada, mas nada não pode fazer alguma coisa. Sua teoria não pode ser estabelecida porque nada pode produzir nada.

ALUNA: Acho que as coisas surgem porque surgem.

ALUNO: Energia.

LAMA LODRO: Ok, isto é simplesmente assumir que a mente é nada, mas que este nada pode produzir algo. Isto é tudo? Vocês concordam com isso?

ALUNO: Quando você pensa em algo como a mente, ou como a minha mente, é algo que vai além de mim, algo como energia.

LAMA LODRO: Ok, vocês podem dizer que isto é uma função da mente, mas a questão que faço agora é: o que é a mente?

ALUNA: Percebo algumas características. A mente é ilimitada. Ela está lá e pode ir a qualquer parte. Se penso em um lugar, minha mente está lá.

LAMA LODRO: Ok, tudo o que vocês estão fazendo é descrever como a mente trabalha. Tudo está certo. Sabemos que a mente faz seu trabalho, pensando ou "indo" para lugares. Ok, tudo certo. Mas o que é esta mente? Esta é a questão. Isto é o que o Buddha ensinou. Não o que é a mente; a mente é vacuidade, não há nenhuma mente a ser encontrada em lugar algum. Contudo, mesmo que a mente não seja algo que possamos dizer que é deste formato, desta cor ou qualquer coisa que se possa dizer. Você não pode dizer isto. Não há meios de descrever o que a mente é. Mas parece haver algum tipo de função da mente que pode produzir pensamentos, emoções, etc., coisas assim. O fato de a mente ser vazia é muito interessante, porque acabamos de dizer que o fato de percebermos algo, tal como vocês perceberem minha voz, é porque vocês têm uma mente, certo? Agora estamos dizendo que a mente em si é vazia. Então, qual é a conclusão?

ALUNO: Tudo passa pela percepção... Se não escuto, se não enxergo, não sinto gosto, parece que não tem a mente...

ALUNA: É atenção consciente.

ALUNO: Parece que ela está na cabeça, não no meu dedo. Tudo passa pela cabeça, que tem os sentidos. Ou seja, os sentidos vão para o cérebro.

LAMA LODRO: Isto é um comentário?

ALUNO: Sim. Eu teria uma mente mesmo se não pudesse ouvir, ver? Não sei.

LAMA LODRO: Esta é uma boa pergunta. Você definitivamente tem uma mente. Só que a mente não está funcionando naquele momento. Mas o que estamos dizendo é: pensamos que o funcionamento é a mente. Mas esta mente está produzindo funcionamento: ouvir, perceber... Esta mente que assumimos que está realmente ali, quando olhamos para ela, realmente não sabemos onde ela está. Nem mesmo podemos dizer: esta é a mente. Podemos dizer que assim é como a mente trabalha. Não sabemos o que "mente" é, apontá-la. E isto é compreensível, porque não há tal coisa como uma mente verdadeiramente existente. Isto é o que Buddha ensinou. E por não haver mente verdadeiramente existente, a mente é o que assumimos que ela é. Em si, não há natureza própria. Exceto que parece não haver nada existente lá, mas algo surge desta vacuidade.

E isto nos leva a uma conclusão de nossa discussão, e precisamos ser muito cuidadosos aqui, sobre entender a vacuidade nos ensinamentos budistas. E é: ao mesmo tempo em que dizemos que a mente não existe realmente, ela tem a capacidade de produzir todas as coisas porque, como dissemos antes, todas as coisas só podem existir porque as percebemos. Significa que, enquanto dizemos que a natureza da mente é vazia, esta vacuidade não significa 'nada'. A palavra "vacuidade" nos ensinamentos budistas não significa que não exista. Não estamos dizendo que nada exista. Não estamos dizendo que os fenômenos, que são condicionados, não existem. Não estamos negando sua existência. Estamos simplesmente dizendo que, somente por algo existir em sua aparência, não tendo uma existência inerente, não está ali. Dizemos que sua natureza é vacuidade. Isto é o significado de "não existir". Então, o terceiro selo, que todos os fenômenos são vazios, deve ser entendido corretamente. Não estamos dizendo que os fenômenos não existem; estamos dizendo que fenômenos não existem inerentemente, não têm existência verdadeiramente substancial. Eles surgem de uma forma que podem ser percebidos pela mente existente de simulação que, em sua essência também, não é inerentemente existente.

Então, vocês podem se perguntar: o que é esta mente? É realmente existente? Como pode se manifestar em todas as formas, pensamentos e emoções? Como dissemos, a mente não existe verdadeiramente. Em sua natureza, é vacuidade, e vacuidade não quer dizer que não há mente. São duas coisas diferentes. O que é a mente? A mente não é nem existente, nem não existente. Está além da existência e não existência. Esta é a mente. Está claro? Ou mais confuso?

A razão para eu pedir a vocês que encontrem suas mentes e vocês não conseguirem o que chamamos "mente" é porque, como disse, ela está além da existência e não existência. Então, não é possível encontrá-la. Tudo o que podem encontrar é algo que existe ou algo que não existe e você pode dizer: "ok, encontrei algo que não existe". Mas, quando você olha dentro de sua mente, não pode encontrar uma resposta do tipo: "ok, é assim, não é assim". Você fica perdido, não fica?

ALUNO: Sinto-me frustrado.

LAMA LODRO: Sim, este é um bom começo. Porque isto impulsiona você a continuar a buscar o que a mente realmente é. É uma prática muito boa. Estamos tentando explicar os tópicos básicos dos ensinamentos do Buddha; não iremos a ensinamentos mais profundos, mas gostaria de tocar em algo que é particular nos ensinamentos do Buddha. Os ensinamentos muito enfatizados na linhagem Kagyu, a linhagem do Karmapa, são sobre o que é a mente. Os ensinamentos dizem que a mente é o Buddha. E porque nós, como seres sencientes comuns, não temos a capacidade momentânea de entender a mente do Buddha, tudo o que percebemos é a mente condicionada, a mente que é percebida no dia a dia como a mente pensante.

Esta mente de Buddha está dentro de cada ser senciente. A esta mente primordial chamamos mente de Buddha. E, por esta mente búdica estar além de nossa percepção neste momento, nossa conceituação, nós chamamos esta mente que percebe e que nós percebemos de nossa mente. Mas, na verdade, nossa mente, em sua própria natureza, é a perfeita mente de Buddha, mas não vemos isto. Por que não vemos a mente como é? O que vemos é a mente que realmente não é, que está além de existência e não-existência, que é em sua essência a mente de Buddha? A razão disto é que temos estado obscurecidos por nossa ignorância.

É por isto que precisamos não só estudar, contemplar e entender estes ensinamentos. Precisamos verdadeiramente nos engajar nas práticas do Dharma. Assim, podemos juntar mérito, purificar nosso karma e através destas práticas, nossos obscurecimentos podem gradualmente desaparecer, e nós poderemos finalmente ver nossa mente como realmente é. Quando os ensinamentos dizem que não estamos atingindo nada, não estamos obtendo algo novo, querem dizer que estamos simplesmente nos vendo da forma como realmente somos, desde o princípio. Isto quer dizer que o Buddha primordial, que está dentro de todos nós, no momento da budeidade é completamente revelado.

Isto nos traz ao quarto selo: nirvana é paz. 'Nirvana' aqui, creio que posso considerar como ter atingido a budeidade. A budeidade é paz completa porque, quando você percebe esta natureza da mente, que está além de qualquer coisa externa, existente ou não existente, de qualquer conceito de bom ou mau, de isto ou aquilo, que está além de qualquer coisa que possamos perceber. Isto é perfeita budeidade, perfeita mente de Buddha. É paz completa. Esta paz, por estar além de qualquer coisa que é relativa, além da realidade como mencionamos no segundo selo, quando sua mente transcendeu a dualidade, a mente está em paz completa.

Mas daí vocês podem me 'pegar' e dizer: "não... Você está sendo conflitante. Você realçou que a mente está além de existente e não existente, e agora diz que quando a mente transcende a dualidade é que há paz? Se não há mente real, o que você chama de mente, como pode então transcender a dualidade?" E vocês estão certos. Há sempre falhas quando você tenta descrever algo que está além de descrições. Provavelmente deveria ter sido dito que, já que não há mente, quando se transcende a dualidade é que há paz. De qualquer forma, isto pode ser demais...

Logo, voltando ao básico, espero que vocês, ao saírem da palestra nesta noite, comecem a pensar, por exemplo, em suas fixações fortes, na crença que as coisas são intrinsecamente existentes, e que a mente é 'minha' mente, 'isto sou eu'. Uma vez que vocês podem ter esta atitude, que nada é verdadeira e solidamente existente, que a mente não é tão sólida como pensamos, que está verdadeiramente lá. Então, vocês poderão começar a olhar para todas as coisas de uma maneira mais leve. É como ver as coisas como um sonho: parece real, mas você sabe que não é. Desta forma, as coisas se tornarão mais fáceis para você. Você não ficará preso a muitas ideias ou situações. Você poderá passar por elas, lidar com elas, passar pelas emoções negativas.

Há alguma questão até o momento?

ALUNO: Gostaria de fazer um comentário sobre a questão das emoções que nos trazem aflições. Parecem um ímã que nos atrai e nos deixam fixados. É difícil enxergar as coisas como são.

LAMA LODRO: É verdade. É devido à nossa ignorância e nossos hábitos kármicos, aos quais nos atrelamos e nos agarramos às nossas emoções. Mesmo que reconheçamos tal emoção particular, talvez danosas a nós mesmos, que trazem sofrimento, que é uma emoção negativa, nós a queremos. É algo do tipo: "esta é minha emoção, este sou eu, preciso ter esta emoção, porque não quero fazer de nenhum outro jeito". É nosso hábito. E, por encararmos nossas emoções diariamente, é uma boa atitude não ter medo de nossas emoções. É uma boa oportunidade de usar essas emoções e trazer de volta os ensinamentos que você acabou de ouvir. Os ensinamentos do Buddha nos dão uma oportunidade de novamente olhar para nossas emoções da maneira correta. Podemos pensar, por exemplo, no segundo selo: "todas as emoções trazem sofrimento", ou "todas as coisas são contaminadas", ou "coisas deludidas trazem sofrimento". Daí você entende: "ok, já que vejo as coisas dualisticamente, eu sofro, e me agarro às minhas emoções, que me fazem sofrer, o que não tem significado algum. Então, tenho que simplesmente deixá-las ir, me livrar delas". Ou você pode usar o terceiro selo e pensar que os ensinamentos dizem no terceiro selo que todos os fenômenos são vazios de natureza inerente. Então, "ok, não devo ser muito fixado. Os ensinamentos dizem isto. Realmente acho que faz sentido e vou mudar minha cabeça fixada em coisas serem reais ou não". Isto faz você se sentir melhor.

Nos ensinamentos essenciais da linhagem Karma Kagyu, que é o Mahamudra, você olha para a mente em si, o que é experienciar esta emoção particular. Você olha a mente e é como os exercícios que fizemos agora: olha a mente e não vê nada. Por que você olhando para a mente e não vê nada? Por que você não consegue ver nada que possa chamar de mente? Isto é se libertar daquela emoção particular que previamente chamamos de sofrimento. Esta é a abordagem do Mahamudra. Mas este é um ensinamento muito além do nosso, sobre os quarto selos. Seria um ensinamento adicional.

Alguém tem mais alguma questão?

ALUNO: Fiquei pensando, pensando, e acabei que concluindo que a mente está realmente dentro da cabeça. Se braços e pernas forem retirados, vou continuar tendo a mente. Já se tirar a cabeça... Mas não é esta a resposta, é? Se não tem nenhum sentido, olho, ouvido, nada, vou ficar como se estivesse dormindo... A mente estaria funcionando como um sonho...

LAMA LODRO: Sim, entendo sua razão, porque cientificamente dizemos que o cérebro produz funções e percepções. Não estamos falando de algo físico. Se você diz que a mente é o cérebro... Se você estiver dizendo que a mente é o cérebro, então ela tem uma forma, que é a forma do cérebro. É como você está olhando para isto? Se for, então faz sentido. Você pode dizer que o cérebro facilita o funcionamento da mente, mas o que é a mente?

Ok, penso que é hora de concluirmos.

LAMA TARTCHIN: Gostaria de dizer obrigado a Lama Lodro mais uma vez por este ensinamento, que parece tão simples, mas que é de uma complexidade tão grande.

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