Ganges Mahāmudrā de Tilopa: Sessão 1 e 2


9 de Janeiro, 2019, Pavilhão Monlam, Bodhgaya

Sessão 1: O Mahāmudrā não pode ser mostrado

Eu, Tilo, não tenho nada para te mostrar. O Mahāmudrā não pode ser mostrado.

Há mais de mil anos, nas margens do rio Ganges, o Mahasiddha Tilopa oferecia as instruções essenciais do Mahāmudrā para seu filho do coração Naropa. Naropa não só tinha sido o maior estudioso da Universidade de Nalanda, mas ele tinha suportado 12 anos de dificuldades inconcebíveis seguindo cada “louco” comando do seu guru. As instruções essenciais de 29 versos primordiais falando sobre a essência da não-meditação, fluiu espontaneamente, como o Ganges, da realização final do mestre supremamente iluminado. É dito que depois que Naropa ouviu esses versos, ele desmaiou e quando ele acordou, a iluminação de Tilopa tinha fundido com a sua mente. Ele alcançou a liberação inteiramente através da devoção, vendo o guru como um Buda, sem nenhum momento de prática de meditação. No século 11 o grande tradutor tibetano Marpa, para quem a linhagem foi passada, traduziu e editou os versos em Phullahari na presença de Naropa.

O Ganges Mahāmudrā, como veio a ser conhecido, acumulou uma quase mítica reputação ao longo dos séculos como uma clássica instrução de introdução direta 'sussurrada ao ouvido'. O guru tem que revelar a essência no momento certo no lugar certo para o aluno certo. A instrução essencial depende da realização experiencial e, portanto, raramente é dada. Sua Eminência 10º Kyabje Sangye Nyenpa Rinpoche consentiu em iluminar este texto raramente ensinado depois de ser requisitado três vezes por Sua Santidade Karmapa. Ele interrompeu os ensinamentos que ele estava dando no Butão para conduzir 25 horas até Bodhgaya, onde ele entregou um espontâneo comentário com grande entusiasmo e paixão para um público extasiado de mais de 7000 monges e leigos.

“Eu sinto que esta oportunidade de ensinar o Dharma em Bodhgaya a pedido de Sua Santidade Gyalwang Karmapa é muito afortunada e de grande mérito para mim. Eu senti a alegria enquanto meditava. O Karmapa me pediu para ensinar o Ganges Mahāmudrā; eu não escolhi por mim mesmo. No entanto, eu só posso dar um ensinamento curto. As palavras e o significado devem ser inequívocos. Para ser capaz de ensinar a instrução essencial do Mahāmudrā devemos descansar na luminosidade da natureza básica. Não é como estudar, não é esse tipo de ensino. Para mim, sentar e ensinar o Mahāmudrā é um sinal do quão degenerado são esses tempos. Além disso, tenho que me desculpar por estar sentado neste trono.” “Mesmo que eu não tenha recebido a realização do Mahāmudrā”, continuou Rinpoche, “eu tive muitas oportunidades para discutir as palavras. Não apenas a discussão das palavras, eu acredito que tenho as bênçãos da linhagem ininterrupta que recebi de Dilgo Khyentse Rinpoche, que recebeu do 16º Karmapa. Esta é uma linhagem da prática de mudra não de palavras”.

Neste primeiro ensinamento, Rinpoche enfatizou a linhagem prática, a importância da devoção ao guru e o significado do Mahāmudrā. Servir ao guru da mesma forma que Naropa era capaz de servir Tilopa, que Milarepa serviu Marpa, e que Gampopa serviu Milarepa, significa que estamos vendo o guru como o Buda real. “Nós temos que chegar a esse nível de sabedoria nós mesmos.”

As instruções essenciais são importantes, ele explicou. Elas mudam a maneira como pensamos. Instruções essenciais acontecem quando um guru como Tilopa atinge o estado de Mahāmudrā. Suas palavras Vajra vindas da realização experiencial, fluem sem parar. Essa sabedoria autoconsciente transcende o caminho das palavras.

“Sustentar a sua linhagem significa sustentar a prática do Mahāmudrā. Incorpore-a ao seu ser, desenvolva a realização. Ouvir, contemplar e meditar é a oferenda da prática. Oferenda material é a menor das oferendas.”

Sangye Rinpoche então deu uma introdução ao Mahāmudrā

A Mente Comum Inalterada é o que não reconhecemos. Quando nós reconhecemos que todos os pensamentos são uma exibição da mente, então nós reconhecemos a natureza da mente. Esse é o significado básico do Mahāmudrā.

Não há necessidade de alterar a mente naturalmente pura. Nada a remover, nada a adicionar, nada a se engajar, nada novo a ser criado, nada a ser eliminado. Todos esses conceitos são projeções da mente dualista. A talidade é o estado natural dos seres sencientes, a consciência base original, inalterada, fresca, auto-surgida. Talidade é a forma como as coisas existem. A natureza deixada sozinha, como ela é. Não há diferença entre os Buddhas e os seres sencientes; a semente é a mesma em todos. Reconhecer a natureza [da mente] como ela é. Quando o yogui pratica Mahāmudrā, o estado natural se torna manifesto.

Não há defeitos que são realmente existentes por sua própria natureza. Se eles realmente existissem seria impossível eliminar as máculas. As máculas não afetam a sua natureza. As instruções essenciais evidenciam isso de forma direta. Não há nada a remover. Realizar que eles [os defeitos] não existem pela sua própria natureza é liberação.

Não engaje mentalmente a mente inefável.

Repouse na natureza como ela é, em estabilidade como ela é. A base para praticar é cortar através da raiz de samsara e nirvana. As instruções essenciais são para trazer a prática para dentro nós mesmos. A base da mente nunca foi afetada pelas aflições. Não há samsara que precisa ser removido e não há nirvana que precisa ser alcançado. A natureza de como isso realmente é, é inefável, indescritível. Pensamentos dualistas são incapazes de realizar isso. A natureza [da mente] transcende a mente dualista. Não engage mentalmente a inefabilidade. A natureza da mente transcende pensamentos.

Nós precisamos meditar na Mente Comum Inalterada, não afetada por esperanças e medos, não inventada. Essa natureza é insuperável. Nós não sabemos como reconhecê-la. Nós somos apegados a algumas coisas e temos aversão a outras coisas. Quando nós falamos sobre a natureza da mente isso significa a inalterada natureza da mente. Não há necessidade de alterar a mente naturalmente pura. Ela nunca fora deludida. Mas não sabendo disso, nós ficamos confusos. Se nós reconhecemos isso, todos os pensamentos são como ondas. Se nós sabemos como sustentar a natureza da mente quando nós temos pensamentos, não há confusão. Essa natureza da mente é Mahāmudrā.

Nada a remover, nada a adicionar, sem fixação, a natureza é imóvel. A natureza da mente não é afetada por condições. Não é afetada por nada grosseiro ou sutil. A natureza interna nunca se move. Não é manchada por faltas. A natureza luminosa da mente é como o espaço. Luminosidade é a base, como o sol. Agora nós seguimos as nossas fixações nos objetos, mas a natureza luminosa permanece como é. A natureza básica é como as árvores nas montanhas, não importa o quão forte o vento sopre na montanha na qual elas estão crescendo, elas não são movidas. Similarmente, pensamentos criam samsara, mas não podem alterar a natureza da mente.

Deixar que as coisas sejam como elas são é ‘Cha’, a sabedoria da vacuidade. ‘Gya’ é liberação dos fenômenos samsaricos, do conceito.

A natureza clara e vazia da mente sela ou marca tudo. Nada é maior que o grande selo. A essência é vacuidade, a natureza é luminosidade e isso marca todos os fenômenos do samsara e do nirvana. Mahāmudrā é Prajñaparamita, a grande mãe que dá nascimento a todos os Buddhas. ‘Cha’ é a sabedoria da vacuidade. É pura por sua própria natureza. Não é a sabedoria convencional das escolas filosóficas, se algo existe ou não existe. Isso é criado pela mente dualista. Na instrução essencial é experienciado pela sabedoria direta do yogui repousando em estabilidade. O que a mente yoguica vê é a natureza última. Todas as concepções dualistas são pacificadas. Repouse em estabilidade e encontre essa natureza. As coisas existem apenas relativamente, não de forma última. A consciência mental que se move é ignorância. É a fundação para o karma e para o samsara. É o primeiro elo dos 12 elos da interdependência do samsara. Se nós pudermos liberar isso, nós estamos liberados. Quando nós não reconhecemos a mente interna que se move, isso é samsara, de acordo com Milarepa. Formação surge devido a ignorância. Se nós realizamos isso, então isso se torna sabedoria discriminativa auto-desperta. Repousando em estabilidade, todas as qualidades se manifestam. O Buddha não pode ensinar isso em palavras.

A primeira linha do ensinamento de Tilopa: “Eu me prosto à gloriosa Vajra Dakini”. Vajra se refere ao método. Dakini é prajña. Dakini significa andarilhas celestes, isto é, vacuidade, a base de todos os fenômenos. Não se refere ao feminino. Dakini é vacuidade, Vajra são os métodos, imutáveis e indestrutíveis.

Nestas duas palavras estão incluídas todo o caminho, a base e a fruição. O Ganges Mahāmudrā ensina como é isso.

O primeiro verso: O compromisso de dar a instrução essencial

Inteligente Naropa, que suporta dificuldades, Respeita o guru e atura sofrimento. Você que é afortunado, leve isso ao coração. O vaso ou discípulo precisa ter 4 qualidades.

1. Suportar [passar por] dificuldades em nome do Dharma. Coragem e força para descansar em estabilidade 2. Respeitar o guru vê-lo como o Buddha 3. Aturar sofrimento 4. Inteligência

Prajña é o atributo principal. Nós temos que reconhecer as aflições. Pelo poder de prajña nós podemos entender a natureza das coisas como elas são. Entendimento desenvolve fé. Se nós não souber disso, é como torturar a nós mesmos. Nós precisamos pacificar as nossas aflições, nossos pensamentos. Nós precisamos de prajña para desenvolver entusiasmo por suportar dificuldades, que leva ao respeito ao guru.

Sessão 2: Como Praticar

Na primeira parte da sessão da tarde, Sua Eminência 10º Kyabje Sangye Nyenpa Rinpoche recapitulou e acrescentou ao seu comentário da sessão da manhã. Ele começou com a saudação à Vajradakini, a base de toda realização - a fundação, o caminho e a fruição - a personificação da inconcebível sabedoria transcendente e símbolo da vacuidade. Rinpoche então enfatizou mais uma vez a importância do relacionamento guru-discípulo e as qualidades necessárias do estudante no caminho do Mahāmudrā. Inteligente Naropa, que suporta dificuldades, Respeita o guru e atura sofrimento. Você que é afortunado, leve isso ao coração.

Rinpoche explicou que ao ensinar a natureza profunda, para haver algum benefício, deve haver uma grande conexão entre professor e aluno, através da compaixão do professor e da devoção do aluno. Caso contrário, as bênçãos da linhagem seriam desperdiçadas. O estudante não deve ser alguém meramente interessado no Dharma, mas alguém que, tendo tido uma conexão com o Dharma em vidas anteriores, pode dar um comprometimento inflexível aos ensinamentos e ter uma visão de longo prazo da prática do Dharma. Eles precisariam da determinação para continuar a praticar em vidas futuras, suportando dificuldades e sofrimentos quando necessário.

Tendo entendido a impermanência e sabendo que a morte é certa, embora a hora da morte seja incerta, o estudante deve estar altamente concentrado na prática do Dharma, percebendo que seria tolice procrastinar. Além disso, eles deveriam ter desenvolvido uma profunda repulsa ao samsara, que fornece a motivação para liberar a si mesmos.

Com base na compreensão da impermanência, o estudante pode desenvolver devoção em seu ser pelo guru, que é a raiz da prática do Guru Yoga, a prática completa que traz as bênçãos de todas as três raízes. O que é essa devoção? Não é simplesmente uma demonstração externa de respeito para com o guru, mas sim um anseio pelo desejo de desenvolver as qualidades especiais do guru e o compromisso de praticar seus ensinamentos de maneira direta. Esta devoção é um compromisso a partir de agora até alcançarmos a iluminação. Como os mestres Kadampa dizem, nunca devemos nos separar do corpo do guru, da fala do guru ou da mente do guru. A devoção genuína não depende de circunstâncias como o prazer ou o desagrado do guru conosco.

Se um aluno puder praticar dessa maneira, as máculas adventícias que obscurecem a mente definitivamente se tornarão mais finas, assegurou Rinpoche a todos.

Além disso, o aluno deve ser capaz de aguentar as adversidades e suportar o sofrimento. O principal exemplo disso na tradição tibetana é Jetsun Milarepa, que serviu ao Senhor Marpa com firmeza. É a capacidade de usar tudo, aconteça o que acontecer conosco, como um meio no caminho para a iluminação, e por toda parte, praticando com firmeza e serviço ao guru. A raiz do sofrimento é o apego ao ego. Por aceitar e confrontar o sofrimento, ele pode tornar-se significativo, e podemos purificar os erros e juntar as acumulações.

Quando entendemos causa e efeito e as Quatro Nobres Verdades, quando desejamos nos refugiar do sofrimento do samsara, podemos solicitar os votos de refúgio do guru.

Na primeira estrofe, Tilopa chama seu aluno de "inteligente Naropa". Isto não é inteligência na forma como usamos habitualmente o termo. A palavra aqui significa prajña, a inteligência para discernir. Sem discernimento, a prática do Dharma não pode ser adequadamente eficaz. Através de prajña, seremos capazes de manifestar as qualidades visíveis (nesta existência) e invisíveis (em vidas futuras). Através de prajña somos capazes de entender o que é bom e o que é ruim e adentrar nos ensinamentos do Buddha. Somos capazes de avaliar o que precisamos desistir e o que precisamos praticar, e então, com convicção, podemos nos engajar em conduta ética e samadhi. Sem prajña nós estamos presos pelos nossos pensamentos, incapazes de escapar. Se nós temos prajña, auto-liberação do ódio, delusão, inveja e assim por diante tornam-se possíveis sem a necessidade de um antídoto externo. A real apresentação de mahāmudrā agora se inicia:

Mahāmudrā não pode ser mostrado. Assim como quem pode mostrar o espaço a quem? Da mesma forma, não há nada para mostrar na natureza, mahāmudrā.

O Mahāmudrā é inefável e inconcebível, ele transcende a linguagem. Não é nem um objeto de conceitualização ou é dualista, então não há nada para ser descrito ou demonstrado. Não há nada a ser mostrado. Similarmente, Prajñāpāramitā, a perfeição da sabedoria transcendente, também está além de todos os extremos e além da linguagem. Por cortar através das aparências externas, as projeções da nossa própria mente, nós precisamos repousar na natureza de como somos. Não há necessidade de olhar para as coisas externas para encontrar a natureza última que está dentro de nós. As palavras do Buddha e as escrituras são um auxílio à realização.

Através da meditação, nós ganhamos experiência. Como ondas no oceano, nossos pensamentos se dissolvem no dharmakāya e surgem do dharmakāya. Quando pensamentos dissolvem no dharmakāya, isso é conhecido como meditação não fabricada. Usualmente, quando as seis consciências se engajam com um objeto externo, devido ao nosso pensamento dualista, nós reagimos com atração ou desgosto por aquele objeto e assim começa a corrente de pensamentos ou ações que levam à acumulação de karma. Por realizar a visão da vacuidade, nós podemos parar essa reação, e eventualmente alcançar a conduta yoguica de “um só sabor”.

Quando meditamos, nós devemos relaxar e repousar na natureza inalterada. Nós não devemos bloquear os pensamentos, sejam bons ou maus, mas também não devemos correr atrás deles. Relaxe e repouse na natureza básica inalterada.

Portanto, em meditação, nós devemos repousar na ‘natureza básica inalterada’, o estado primordial não-fabricado da mente luminosa. Relaxar significa não bloquear pensamentos. Ao invés disso, nós usamos os pensamentos como um auxílio à nossa meditação e olhamos para a sua essência. Ao mesmo tempo, nós temos que repousar; deixar as coisas serem sem alterar nada, e deixa-las lá. Tendo visto a natureza de todos os fenômenos e realizado que eles são vazios, o meditador relaxa e repousa, e pensamentos são auto-liberados no Dharmakaya. Após a pausa para o chá, os ensinamentos do Rinpoche continuaram, focando em como praticar. Se as amarras forem soltas, não há dúvidas de que você será libertado.

A natureza da nossa mente é a sabedoria luminosa autoconsciente, mas nós não a reconhecemos. Em vez disso, por causa de nosso fracasso, nós temos amarrados à nós mesmos em delusão, agarrando-nos às coisas, apegando-nos ao ego e assim por diante. Embora afirmemos ser meditadores e praticantes, somos facilmente distraídos de nossa prática do Dharma. O que quer que aconteça, seja bom ou ruim, não deve nos distrair, mas deve ser trazido à nossa prática. Este é um ensinamento particular dos mestres Kadampa e da tradição mahāmudrā que vem de Naropa.

Gampopa ensinou a prática por uma vida inteira. Na Guru Yoga de Milarepa, nós recitamos: “Abençoe-me aqui mesmo neste assento”, mas Rinpoche admoestou: “Onde é esse assento?” Não temos tempo para sentar. Passamos o dia perambulando em vez de meditar. A última instrução essencial de Milarepa a Gampopa foi mostrar-lhe os calos nas nádegas, produto de intensa prática de meditação. Precisamos desenvolver essa coragem e determinação. Se dissermos que somos Kagyupa, nos comprometemos a nos tornar como aqueles grandes seres. Apenas falar sobre isso é inútil: tem que ser colocado em prática.

Nós precisamos incorporar o mahāmudrā em nosso próprio ser para que quando nós morrermos nós poderemos tomar a morte em si mesma como parte de nossa prática.

Também é importante proteger nossa conduta no corpo, fala e mente fora da sessão de meditação, para que não nos percamos. Temos que treinar no caminho até que não haja dúvidas, e isso só vem do treinamento contínuo.

Temos que treinar para não sermos distraídos na meditação, "nessa essência fresca do pensamento", como diz a Prece da Linhagem de Vajradhara, nosso objetivo deve ser tornar todas as vinte e quatro horas do dia em prática yoguica e cortar concepções dualistas errôneas.

Os pensamentos são a natureza do Dharma. Eles não podem ser parados, mas quando entendemos que os pensamentos são auto-liberados, nós seremos liberados. Não devemos nos distrair com as aparências. Djamgön Kongtrul Lodrö Thaye em seu Chöd: Tomando as Aparências como Caminho escreve: Eu me prostro às minhas mães seres dos infernos. Eu me prostro às minhas mães fantasmas famintos. Eu me prostro às minhas mães animais...

Isso pode soar muito estranho, mas um yogui entende que esses são meros termos; é olhar para a natureza que é essencial.

O texto continua:

Assim como quando você olha para o centro do espaço, a visão para, Da mesma forma, quando a mente olha para a mente Os pensamentos cessam e a iluminação insuperável é alcançada.

A questão, Rinpoche comentou, é como manter nossa prática, como sustentar a mente natural e como sustentar deixar as coisas apenas serem. A analogia aqui é olhar para o espaço, porque quando você olha para o espaço, não há nada para ver, nenhuma forma, nenhuma cor, e assim a visão para. Quando "a mente olha para a mente" refere-se à mente em um estado de equilíbrio, mantendo a mente comum inalterada. A mente comum é a natureza de todos os seres sencientes, inseparáveis da natureza búdica - não há nada para remover ou acrescentar, perder ou ganhar. Quando "pensamentos cessam" não significa que eles desaparecem, mas que eles são naturalmente liberados. Esses "pensamentos" são aqueles que particularmente agarramos sobre as coisas como verdadeiramente existentes ou inexistentes. Pensamentos em si mesmos não são uma obstrução; nossa fixação e apego a eles é que são. Quando a mente olha para a mente, os pensamentos serão pacificados e reduzidos na natureza do dharma. Pensamentos continuam a surgir, mas nós não somos mais apegados à eles, e eles não são mais uma obstrução. Eles se tornarão um auxílio à nossa prática. Da mesma forma, não há dificuldade quando temos posses, se não há apego a elas. Obstáculos e adversidades também podem ser auxílios para a prática. O importante é ser liberado internamente.

Na prática do mahāmudrā, é essencial não ver a nossa própria mente negativamente. A próxima estrofe diz:

Assim como nuvens de névoa se dissipam na extensão do céu, Não indo à lugar algum, não ficando em qualquer lugar, Assim é com os pensamentos surgindo em sua mente. Ver a sua própria mente purifica as ondas de pensamento.

No mahāmudrā, continuou Rinpoche, falamos sobre quietude, movimento e consciência plena de sua natureza. "Assim como nuvens de névoa se dissipam na extensão do céu" refere-se ao movimento: assim como as nuvens naturalmente se dissipam na extensão do céu, da mesma forma, quando ocorrem pensamentos, elas são liberadas na extensão do Dharma. A essência da mente co-emergente é o dharmakaya; as aparições incessantes são o jogo do dharmakaya.

Essa névoa "não indo a lugar nenhum, não ficando em qualquer lugar" é uma metáfora para os pensamentos que surgem em nossa mente, sejam eles virtuosos, não-virtuosos ou neutros. Se você ver a natureza da mente, não precisará aplicar um antídoto para eliminá-los: as ondas de pensamentos serão auto-purificadas e desaparecerão, como as ondas no oceano, na natureza da mente.

Uma doha de Saraha diz: A mente, o espaço, e o dharmata, esses três, são um em essência. Eles são inseparáveis, imutáveis, não afetados por condições. A sua separação é apenas uma projeção da mente e afirmar que eles são separados é um erro e é falso.

‘Ver a sua própria mente purifica as ondas de pensamento’. Como neve caindo em rochas quentes, quando nós percebemos que os pensamentos são meras exibições da natureza do dharma, eles são purificados imediatamente. Consequentemente, por desenvolver realização em nossos fluxos mentais, os cinco pensamentos aflitivos [os cinco kleshas ou aflições mentais: raiva, apego, ignorância, inveja e orgulho] são expulsos. É desnecessário usar um antídoto para transformá-los. Esse auto-liberação auto-surgida é um ponto muito importante em ambas as práticas de Mahāmudrā e Dzogchen, e torna possível praticar em quaisquer locais, em quaisquer circunstâncias. Assim, o yogui não tem necessidade de distinguir meditação e pós-meditação. Além disso, quando percebemos a natureza do eu, nós podemos superar o pensamento dualista que divide a experiência em duas partes opostas: eu e os outros, ir e vir, movimento e quietude, samsara e nirvana, e assim por diante.

[Nota: O ensinamento de Drubwang Sangye Nyenpa durou mais de três horas. Este relatório só pode cobrir uma parte da extraordinária amplitude e vastidão de seus ensinamentos. Não é uma transcrição.]

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