SENTIMENTOS

 

O Buddha girou a roda do vasto e profundo Dharma três vezes com o propósito de ensinar os seres humanos a domarem suas mentes conceituais. A prática do budismo deveria ser a prática de domar as nossas mentes. Primeiro, nós precisamos fazer a conexão entre o Dharma e as nossas mentes. Isso acontece por intermédio de uma diligência jubilosa, uma inteligência afiada e uma afeição profunda por todos os seres. Com a adição da bênção do lama, isso tudo ajuda o acúmulo de mérito.

 

O atributo especial do Dharma é sua habilidade de conquistar todos os pensamentos nocivos dentro de nossas mentes, que surgem devido à escuridão da ignorância. Quando nossa prática é unifocada, nossas mentes podem conectar-se com o Dharma e sua força pode entrar. Os benefícios disso são insuperáveis. Nesses dias, as pessoas estão vivenciando muitos sentimentos fortes, intensos e frequentemente difíceis e assim eu pensei que seria útil falar a respeito e de como o Dharma pode ajudar.

 

Como estamos nesse mundo, temos sentimentos. Geralmente eles surgem na dependência dos objetos externos que provocam experiências e ideias em nossas mentes. Tradicionalmente, é dito que todos os sentimentos podem ser incluídos nas três categorias de felicidade, sofrimento e neutralidade, que não é nenhum dos dois primeiros. Todos os seres humanos têm esses sentimentos e um bom argumento é dizer que outros seres vivos também os têm.

 

A razão que escolho para falar sobre sentimentos é que eles tendem a ser excessivos. Quando a felicidade vem, é enorme e transbordante. Quando algumas situações criam sofrimento, isso é imenso e profundamente doloroso. Nessa vida precisamos de felicidade, mas na medida certa. São nossas mentes que criam o equilíbrio de que precisamos. Se deixarmos nossos sentimentos irem ao extremo, várias falhas e problemas surgirão. Eu ouvi dizer (se é verdade ou não, eu não sei) de algumas pessoas que de fato morreram de felicidade desmedida. Eu não sou uma pessoa que teve esse tipo de experiência, logo não tenho muito a dizer sobre ela. Contudo, sei um pouco sobre sofrimento.

 

O sentimento de sofrer surgirá naturalmente em nossas mentes e podemos aprender a ajustá-lo para manter um certo equilíbrio. Se nossa mente estiver cheia de tristeza e miséria, isso é um erro, porque nossas mentes podem se estreitar e se tornar muito limitadas. Para algumas pessoas, o sofrer torna-se tão extremo que elas acabam com suas próprias vidas. Portanto, eu penso que se um sentimento se torna extremamente forte, isso é um erro. Desejar ter esse sentimento tão forte também seria um erro.

 

Já que a real natureza do samsara é o sofrimento, não há nenhum motivo para estarmos preocupados com esse sofrimento. Em vez disso, deveríamos focar e desenvolver aquilo que traz a felicidade. Em nosso mundo contemporâneo, nós frequentemente tomamos decisões baseadas em nossos sentimentos, que são impermanentes e podem mudar facilmente. Os sentimentos surgem da mente e seus pensamentos estão mudando o tempo todo. Por exemplo, alguns de nós poderiam conhecer um lama e ficar muito impressionados, pensando: “Eu tive realmente uma boa impressão” e, então, decidir adotá-lo como nosso mestre. Por outro lado, poderíamos conhecer outro lama e, não tendo uma boa impressão, pensar que essa pessoa provavelmente não é um bom mestre. Tomamos decisões olhando e avaliando nossa experiência de vários sentimentos. Em vez de analisar a situação, confiamos em nossos sentimentos quando se trata de tomarmos decisões; todavia sentimentos podem mudar em um respirar. Quando o caminho de nossas vidas toma vários rumos diferentes, nossa experiência pode não ser estável, excelente ou fácil. Os sentimentos são importantes; contudo, se os tornarmos centrais, teremos momentos difíceis. É muito melhor buscar um caminho puro e profundo que nos beneficiará nessa vida e entrar nesse caminho.

 

Sem estarmos presos à felicidade ou depressivos com o sofrimento, deveríamos buscar um caminho estável e constante. Se estamos sempre procurando nos sentir bem e no alto dessa situação nossas mentes estão perdidas na distração, pensando em como se sentir bem, então, o que será de nossa vida? Seremos desviados de nosso verdadeiro propósito e abertos para o mal.

 

Os sentimentos, que se estendem de todas as sombras da felicidade até os ecos da tristeza, virão para nossa mente. Não é possível eliminá-los por completo. Se o sofrimento aparece e nós o encaramos com paciência e perseverança, seremos capazes de permanecer no caminho que escolhemos. Se um sentimento de alegria surge e, nos enganando, nos agarramos a ele, para onde ele irá nos levar? É importante pensar a longo prazo.

 

Todos nós temos nosso próprio caminho de vida e, enquanto o trilhamos, encontramos vários tipos de problemas e sofrimentos. Não importa quantas dificuldades possam surgir, nós deveríamos olhar para trás, para o que realizamos, e manter em mente o caminho que desejamos trilhar. Isso nos ajudará a permanecer estável. Entretanto, por mais que possamos resistir, deveríamos desenvolver a tolerância para conseguirmos progredir ao longo do nosso caminho. Até que alcancemos o fim do nosso caminho e tenhamos realizado todas as nossas metas, não deveríamos dar atenção ao sofrimento nem à alegria; caso contrário, a meta que buscamos nunca estará dentro do nosso alcance.

 

Essa é minha maneira de pensar e não insisto em que cada um de vocês a siga. Nossos próprios desejos e aspirações são centrais. Se pudermos trilhar ao longo do caminho da felicidade e do deleite, será infinitamente melhor do que todas as riquezas do mundo; nossos desejos são importantes. Entretanto, temos que examiná-los bem: “Qual será o resultado disso no futuro? Aonde isso me levará?” Deveríamos também considerar bem as situações atualmente em nossa volta, nos perguntando “como é que posso trabalhar com isso habilidosamente?” Não seguindo nossos desejos ou impulsos cegamente, podemos refletir sobre eles enquanto trilhamos nosso caminho de vida. Os indivíduos são importantes e nossa vida particular é única. Ninguém mais pode ser como nós ou nos substituir. Se as vidas futuras existem ou não, elas não podem criar nossa vida presente. Nossa vida presente é preciosa e deveríamos usá-la bem e sabiamente.

 

 

Trecho extraído do livro "Música no Céu", de Michelle Martin. 

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