Os Quatro Poderes da Confissão e Purificação do Karma

Diz-se que nós precisamos praticar confissão (bshags pa) com os quatro poderes completos. Quando isto acontece, todos os resultados de nossas más ações (sdig pa) podem ser purificados. Qual é o modo pelo qual elas são purificadas? Através do poder do amparo (rten gyi stobs), podemos purificar todos os resultados dominantes (dbang gi ‘bres bu) de nossas más ações. Através do poder do remorso (rnam par sun ‘byin pa’i stobs) podemos purificar os resultados compatíveis causais (rgyu mthun gyi ‘bres bu) dos quais há dois tipos: experiência compatível causal e ações compatíveis causais.

 

O poder do remorso pode purificar as experiências compatíveis causais. Há resultados que são similares às causas. Através do poder de se desviar do erro (nyes pa las zlog pa’i stobs), que é o compromisso de se abster de praticar o mal, podemos purificar todos os resultados compatíveis causais das ações. Isto significa engajar-se em ações similares à causa no futuro. Pelo poder da ação que remedeia ou antídoto (gnyen po kun tu spyod pa’i stobs), podemos purificar todos os resultados totalmente amadurecidos (rnam smin gyi ‘bres bu) de nossas ações. Desta forma, quando fazemos uma confissão com todos os quatro poderes completos, ele pode purificar todos os tipos diferentes de resultados de nossas más ações.

 

Discutindo a conduta dos bodhisattvas, a descendência dos buddhas, há a prática chamada os quatro perfeitos ou completos abandonos (yang dag par spong ba bzhi). É dito que não há prática de bodhisattvas que não esteja incluída nesses quatro. Há também o modo pelo qual os quatro abandonos completos estão incluídos dentro dos quatro poderes.

 

Entre os quatro abandonos completos, o primeiro deles é impedir que as não virtudes que não surgiram ocorram (mi dge ba ma skyes pa mi bsked pa). Isto corresponde ao poder de retirar-se do erro ou não cometê-lo novamente. Isto nos impede de praticar as não virtudes que ainda não ocorreram. O segundo é abandonar as não virtudes que já surgiram (mi dge ba skyes pa spongs ba). Isto corresponde ao poder do remorso. Através disto, desistimos das não virtudes que já ocorreram.

 

A segunda parte destes quatro abandonos está conectada com a virtude. A primeira (terceiro dos quatro abandonos) é produzir as qualidades virtuosas que ainda não surgiram (dge ba ma skyes pa bskyed pa). Isto corresponde ao poder da ação de remediar. A segunda (quarto dos quatro abandonos) é incrementar as qualidades virtuosas que já surgiram (dge ba skyes pa spel ba). Isto corresponde ao poder do amparo. Por este poder, somos capazes de melhorar as qualidades virtuosas que já se desenvolveram. 

 

Deste modo, a prática dos quatro abandonos completos e os quatro poderes de confissão chegam ao mesmo ponto e têm o mesmo significado. Os quatro abandonos completos são parte dos trinta e sete fatores da iluminação (byang chub kyi phyogs kyi chos sum cu rtsa bdun). Todos estes trinta e sete fatores ou qualidades estão inclusos nos quatro abandonos completos. Por esta razão, estes quatro são extremamente importantes. E estes quatro abandonos completos estão totalmente contidos nos quatro poderes.

 

É bem possível que uma dúvida sobre o poder da confissão possa ocorrer. A razão para esta dúvida é que praticamos tantas e inumeráveis más ações no samsara sem começo até agora. Como então é possível que uma pequena confissão nesta vida pode purificar todas as nossas más ações desde o tempo sem começo? Podemos pensar que isto não é possível. Eu penso que se nós não tivermos confiança completa ou crença verdadeira no poder da confissão, então ela terá menos poder para purificar nossas más ações.

 

Dos três grandes mestres da escola Kadampa, aquele chamado Potowa(*1) escreveu um texto chamado O Compêndio Azul. E um geshe chamado Yang Gewa escreveu um comentário sobre ele. Neste comentário, estabelecem-se que más ações são falhas e que elas podem ser purificadas pela confissão, ambas ensinadas pelo Buddha. Se acreditarmos que más ações são falhas que são erradas, mas não acreditarmos que seja possível purificá-las, isto é bem estranho. Pois foi o Buddha quem disse que más ações são falhas. Ele também disse que, se aplicarmos um antídoto, podemos purificá-las. Não podemos acreditar em uma e não acreditar em outra, porque ambas foram ensinadas pelo Buddha. São as palavras do Buddha.

 

Há ainda um texto de Vasubhandu no qual ele descreve dez meios nos quais virtudes são superiores e mais fortes que não virtudes. Por esta razão, mesmo uma ação virtuosa menor é capaz de destruir uma montanha de más ações tão grandes quanto o Monte Meru. Penso que a razão para isto é que elas são diferentes de não virtudes, aqueles não virtuosos pensamentos de desejo, aversão e delusão. Estas são visões errôneas ou enganadas em termos do modo como as coisas são. Não são suportadas pela natureza verdadeira das coisas. Intenções virtuosas, por outro lado, são baseadas na verdadeira natureza das coisas. São suportadas pela verdade – como as coisas realmente são. Por esta razão, a virtude se torna mais poderosa que a não virtude. Esta é uma das muitas razões porque uma pequena virtude pode destruir uma grande quantidade de más ações.

 

Há também uma diferença entre as apresentações do Veículo Fundamental ou Hinayana e o Grande Veículo, o Mahayana. No Veículo Fundamental, é dito que há o karma, que é definitivamente experenciado. E até os resultados destas ações serem experenciados, as ações ou karma não desaparecerão. E então é dito haver ações que não podem ser purificadas através da confissão.

 

Contudo, no Mahayana, é dito que não é apenas o karma que é definitivamente experenciado capaz de ser purificado, mesmo as mais terríveis ações (mtshams med lnga) podem ser purificadas pelos quatro poderes. É também dito que o dharani-mantra de Akshobhya pode purificar a ação de rejeitar o Dharma. Isto é claramente ensinado no Sutra Dharani-Mantra de Akshobhya. Em resumo, se você é hábil nos métodos e tem inteligência e diligência suficientes, então pode purificar todas as más ações. Mas faltando habilidade em meios, inteligência e diligência, você não pode purificá-las. É por isto que se diz que mesmo uma pequena má ação de um tolo pode se tornar pesada. Gradualmente, ao longo do tempo, ela aumentará, chegando a um resultado pesado, tornando difícil a purificação.

 

Entre todas as escrituras dos bodhisattvas, há o Sutra em Três Seções e o Rei das Preces de Aspiração. O Sutra em Três Seções pode também ser chamado Confissão das Falhas (ltung bshags). Ele contém as práticas de prosternação aos trinta e cinco buddhas, confessando nossas más ações, dedicação e regozijo. Quando praticamos este Sutra em Três Seções, foi originalmente dito que este é para purificar aqueles que fizeram más ações graves. Quando os eruditos e mestres vieram da Índia para o Tibete, eles viram os tibetanos recitarem este sutra diariamente e pensaram que os tibetanos deviam ter cometido muitos e horríveis erros.

 

Em todo caso, às vezes podemos pensar, “Se eu faço algo errado não é problema, porque posso sempre confessar depois”. Mas há então o perigo de pensar que está OK cometer más ações. Acontece que uma má ação leva a outra e elas se acumulam uma sobre a outra. Então mais tarde não há modo de sair de baixo delas. Neste ponto é difícil purificá-las. Portanto, é importante confessar nossas más ações desde o começo. Não devemos nos tornar descuidados em não observar e considerá-las desimportantes. Ao contrário, é dito que devemos recitar o Sutra em Três Seções três vezes durante o dia e três vezes à noite. No mínimo, podemos recitar esta confissão uma vez de manhã e uma vez no começo da noite. Isto seria muito bom.

 

Por exemplo, más ações são como tuberculose, que era uma doença terrível. Hoje em dia, há tratamento médico para ela. Mas só porque há tratamento, não significa que devemos ignorá-la. Se fizermos isto, ela pode se tornar muito perigosa. A mera presença de remédios não ajuda – também precisamos tomá-los nas horas certas, comer boa comida e tomar conta de nós mesmos. Eu acho que isto é similar à confissão das más ações.

 

*1 Potowa Rinchen Sal (1027-1105) um dos Três Irmãos, discípulos maiores de Geshe Drontonpa.

Estas são notas de ensinamentos dados pelo 17º Gyalwang Karmapa Ogyen Trinle Dorje no Monastério Tergar no Assento Vajra [Bodhgaya], janeiro de 2016. Foram traduzidas oralmente pelo Lotsawa David Karma Choephel. Eu, Zopa Tarchin, editei e arranjei-as em uma guirlanda de palavras. Quaisquer erros são meus. Virtude! Virtude! Virtude!

 

 

 

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