Os Níveis Tântricos de Realização

Os seguidores tanto do sutra quanto do tantra, objetivam atingir o estado chamado de "nirvana do não-estabelecimento". Este termo indica a importância de não permanecer tanto na condição samsárica, quanto na bem-aventurança pacífica no nirvana. Esta perspectiva se distingue do visão budista inicial do nirvana, o qual é vista pelos praticantes Mahayana como quietismo e, muito separada do mundo; o outro extremo é estar imerso nas preocupações da condição samsárica, o qual, é permanecer em delusão. Os seguidores sútricos e tântricos da tradição Mahayana, querem evitar estes dois extremos. O seu entendimento do nirvana do não-estabelecimento é que isto significa estar no mundo, mas não ser do mundo.

 

Ainda que o objetivo do Sutra e do Tantra é o mesmo, há uma grande diferença nos métodos usados para alcançar esse objetivo. Os ensinamentos tântricos oferecem métodos que não estão disponíveis nos ensinamentos do sutra, que são organizados em níveis de desenvolvimento. O sistema tântrico, usa técnicas não encontradas nos ensinamentos sútricos tais como, visualização, recitação de mantras e o trabalho com as energias físicas do corpo. O sutrayana é estudado através de livros e em ensinamentos onde a pessoa se depara com conceitos tais como Natureza de Buddha e vacuidade. Um entendimento melhor disso, nos ajudaria também a entender o Tantra. As noções de propensões kármicas, dos cinco venenos e dos quatro níveis de consciência são todas encontradas na literatura do Sutra.

 

Mesmo a visualização de divindades, tem que ser compreendida do ponto de vista sútrico. Por exemplo, uma divindade pode ter seis pernas para poder representar as seis paramitas. Todos esses elementos são símbolos de certas qualidades espirituais que podem ser percebidas através de certas divindades. Assim, temos que entender o que são as seis paramitas, e encontramos estas paramitas descritas em detalhes nos Sutras.

 

Outro exemplo são os cinquenta e um crânios que algumas deidades usam ao redor do pescoço. Supostamente, esses crânios representam os cinquenta e um tipo de tagarelice mental subconsciente ou, o que normalmente é traduzido como "eventos mentais". Você vai, de fato, encontrar ensinamentos sútricos que listam todos os cinquenta e um eventos mentais, obviamente, você não precisa saber que crânio representa cada evento mental! As divindades têm que ser compreendidas simbolicamente, e esses símbolos podem ser melhor apreendidos conquanto se tendo um entendimento das categorias conceituais sútricas as quais eles se referem. Se não entendemos essas coisas de forma simbólica, poderíamos ficar muito próximos da prática da demonologia.

 

Os métodos tântricos tornam possível lidar diretamente com delusões e emoções conflituosas. De fato, as delusões que devem ser abandonadas e os diferentes tipos de qualidades espirituais que precisam ser cultivadas, são vistos como dois lados da mesma moeda ao invés de dois tipos diametralmente opostos de experiência. Por essa razão, o sistema tântrico é chamado também de tradição esotérica, não é porque existe qualquer coisa em particular que precise ser mantida em segredo, mas porque para praticar o tantrismo, se requer certos atributos do praticante. Por um lado, é necessário ter alguma habilidade para praticar o Tantra; caso contrário a pessoa não iria obter nenhum benefício, a despeito de sua prática. Os ensinamentos tântricos são mantidos secretos até um certo ponto, não porque seu conteúdo não deveria ser revelado, mas porque muitas pessoas não são capazes de compreendê-los.

 

Se o indivíduo possui as habilidades requeridas, é possível atingir o objetivo da iluminação em um curto período através do uso dos métodos tântricos. Isso não é o caso do método sútrico. Falando de outra maneira, a diferença entres os métodos sútricos e tântricos está no seu uso da realidade relativa. As recitações de mantras, visualizações de divindades e outras práticas, são todos meios de explorar a natureza da realidade relativa, pois elas capacitam o praticante a entrar em contato diretamente com a realidade relativa. Porém, a realidade absoluta que é percebida pelos métodos do Tantra, é a mesma realidade que é discutida nos ensinamentos sútricos.

 

O sistema Tântrico tem diferentes nomes tai como: Tantrayana, Vajrayana e Mantrayana. Tantra é chamado gyu em tibetano, significando "continuidade", pois os ensinamentos tântricos enfatizam a ideia de continuidade entre a natureza interna de uma pessoa na condição de samsara e, a natureza interna da mesma pessoa quando no estado de nirvana. Quando as pessoas se tornam iluminadas, elas não se descobrem como sendo uma entidade totalmente diferente, porque Natureza de Buddha sempre esteve lá desde o começo. O tantrismo enfatiza a importância da Natureza de Buddha. A palavra vajarayana ou o "veículo do vajra", de fato têm a mesma conotação. Vajra siginifica "indestrutibilidade", e assim o vajra é o símbolo da indestrutibilidade, o qual novamente se refere à qualidade da Natureza de Buddha. Por exemplo, a prática de Vajrasattva (a forma de purificação tântrica que usa a visualização da divindade Vajarasattva e a recitação do mantra) é a prática da Natureza de Buddha. Sattva significa "mente", assim, vajarasattava se refere à "mente indestrutível", que é a Natureza de Buddha ou a natureza da mente. O Vajarayana também enfatiza a importância deste conceito de Natureza de Budda.

 

Enquanto muitos ensinamentos sútricos retratam o samsara como sendo o oposto do nirvana, a ênfase tântrica na Natureza de Buddha traz junto os conceitos de samsara e nirvana. Enquanto os Sutras ensinam que tudo o que é samsárico deve ser abandonado e, tudo o que demonstra as qualidades do nirvana deve ser cultivado, no entendimento tântrico, a Natureza de Buddha está na base todas as experiências samsáricas e nirvânicas do indivíduo. E é por isso que os conceitos de indestrutibilidade e de continuidade são enfatizados no Tantra em relação à compreensão da Natureza de Buddha.

 

É importante entender a tradição dos sutras Mahayana, porque é impossível entender o Tantra sem primeiro ter compreendido os conceitos sútricos. Ainda que não haja diferença em termos do objetivo dos seguidores do Sutra e do Tantra, é dito que os ensinamentos tântricos são superiores aos ensinamentos sútricos em certos aspectos importantes.

 

A abordagem do Sutra para o Mahayana é gradual e suave, usando certos métodos por um período de tempo, para alcançar o objetivo. Porém, o Tantra é confrontador, mais perturbador, e com resultados mais rápidos precisamente devido a isso. Por estas razões, o Mahayana sútrico é chamado de " yana causal", ou o veículo da causa, e a forma tântrica do Mahayana é chamada de "yana resultante".

 

Do livro " A Essência do Budismo " de Traleg Kyanbgon Rinpoche

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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