Direcionar todas as culpas para si

22/10/2017

 

Como seres sencientes comuns, somos governados pelas nossas próprias necessidades egoístas. Nossos livros de História estão repletos de personalidades famosas que arruinaram-se como resultado direto da mentira, trapaça, assassinato e roubo em que engajaram-se  para satisfazer suas próprias necessidades e desejos visíveis, quando sua extrema luxúria, ganância, ciúmes e ódio falharam em lhes proporcionar a boa sorte que esperavam. Se examinarmos nossas próprias vidas, veremos que nossos impulsos egoístas têm, na realidade, atraído as dificuldades que nos cercam, uma indicação nítida da estupidez de nosso comportamento. Podemos ficar em um relacionamento abusivo ou demonstrar um desprezo descarado e indiferente por todo mundo, incluindo nós mesmo. Algumas pessoas chegam a colocar sua própria vida em risco na busca de seus desejos egoístas. Quanto mais nos tornamos auto-absorvidos, mais nos tornamos confusos e enredados. Essas delusões são de fato auto deceptivas, porque, em um certo nível, nos enganamos pensando que elas são boas para nós. Shantideva afirma claramente:

 

Ó minha mente, quantas incontáveis eras

Você passou trabalhando para si mesma?

E quão exaustivo foi,

Enquanto sua recompensa foi apenas miséria!

 

Embora nós não possuímos o tipo de influência que no fim das contas, faz com que pessoas mudem seus comportamentos ou atitudes, estar consciente de nossos impulsos egoístas pode ajudar a eliminar as fixações obsessivas, que faz tanto mal à nós e aos outros. Nosso egoísmo infindável promete satisfação, mas nunca nos dá um retorno verdadeiro. Investimos, tentamos muito, fazemos todas as coisas para as quais ele nos direciona, mas não há retorno.

 

A princípio, muitas pessoas interpretam este ensinamento de forma errônea pensando, "Agora eu tenho que me culpar por tudo!"  Porém, os ensinamentos do lodjong condenam apenas nossa mente deludida e egoísta, e não a totalidade de nosso ser. Culpar o ego não é a mesma coisa do que culpar todo o ser. Se isso fosse tudo o que somos, então uma vez que essa mente fosse transcendida, não seríamos capazes de funcionar. Mas nós temos também uma lucidez não nascida, nossa natureza de buda, e nós não nos aniquilamos quando nos afastamos das atitudes auto centradas. O budismo reconhece uma formação estrutural da auto identidade, com muitos tipos distintos de identificação baseada em diferentes níveis de consciência e níveis distintos de ser, mas não endossa um "eu" que existe separadamente. Quando culpamos a mente egoísta pelo nosso infortúnio, estamos apenas culpando aquele aspecto particular de nossa identidade. Precisamos compreender que é possível pensar independentemente do nosso eu. Não é essencial que o eu assuma o papel de comandante supremo. Como diz Dharmarakshita:

 

Uma vez que é assim que as coisas são, eu agarro o inimigo! Agarro o ladrão que me espreitou e ludibriou, o hipócrita que me enganou fazendo-se passar por mim. Aha! É a fixação no eu, sem nenhuma dúvida.

 

Se considerarmos a nós mesmo como uma unidade, podemos erroneamente sentir que é inútil tentar mudar. Quando entendemos a destrutividade do eu,  às vezes acreditamos sermos simplesmente criaturas miseráveis. Contudo, essa é uma visão incorreta e irá somente interferir em nosso treinamento mental e objetivos espirituais.  Somos miseráveis em apenas uma maneira, em nossa auto obsessão egoísta.  Quando alguma coisa indesejável acontece, ao invés de culpar alguém ou alguma outra coisa, deveríamos olhar em como podemos ter contribuído para o evento. Porque nossas percepções não estão sempre corretas ou podem não ser um reflexo genuíno do que aconteceu, devíamos sempre nos indagar, "Talvez isso não é como as coisas realmente são. Pode ser minha própria mente  egoísta e tendenciosa projetando algo sobre a situação."

 

Se examinarmos como constantemente levamos tudo para o lado pessoal, veremos que a fonte real de nosso infortúnio é essa falha em conduzir, educar e transformar nossos estados mentais. Sempre que algo dá errado, procuramos por alguém ou alguma coisa externa para culpar e ficamos totalmente ultrajados com o quer que decidimos ser responsável pelo nosso desconforto. Isso de fato não é solução para nossa crise, pois mesmo que achemos alguém ou alguma coisa para culpar, isso faz apenas inflamar nossa ansiedade, frustração e ressentimento. Podemos pensar que o ato de culpar os outros nos libera de uma responsabilidade injusta, mas na realidade isso apenas nos desempodera.  Teremos que passar nossa vida inteira tentando impedir que outras pessoas nos causem problemas, algo que realisticamente nunca poderá ser feito. Para curar uma doença, precisamos fazer o diagnóstico correto. A perspectiva do lodjong é o diagnóstico correto da nossa condição samsárica e, é o exato antídoto à diagnose incorreta, que é pensar que os outros são culpados.  Como Shantideva salienta, lidar com as nossas reações frente às coisas é de longe  a maneira mais prática de mitigar nosso sofrimento.

 

Cobrir a Terra com mantas de couro --

Aonde poderia ser encontrada tamanha quantidade de pele ?

Mas simplesmente envolver seu pé com um pedaço de couro,

É como se toda a Terra tivesse coberta! 

 

Trecho do livro "The Practice of Lojong" de Traleg Kyabgon - Editora Shambhala

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