Compreendendo Vacuidade e Interdependência

 

Como você relaciona-se com este terreno infinito de possibilidades sobre o qual sua vida é erigida? Como criar uma vida significativa dentro de quaisquer circunstâncias inconstantes que você se encontra?

 

O pensamento budista dedica uma grande atenção à estas questões. A visão de que a vida possui possibilidade infinita, é explorada usando os conceitos de "interdependência" e "vacuidade". Ao ouvir de antemão o termo "vacuidade", você pode pensar que sugere uma inexistência ou um vazio, mas na realidade, neste caso, "vacuidade" deveria nos lembrar de que nada existe em um vácuo. Tudo é integrado dentro de um contexto – um conjunto complexo de circunstâncias. Aqueles conceitos por si mesmo estão mudando infindavelmente.   Quando dizemos que as coisas são "vazias", queremos dizer que elas não possuem nenhuma existência independente fora daqueles contextos mutáveis. Por que tudo e todos são "vazios", nesse sentido, são capazes de infindáveis adaptações. Nós mesmos temos a flexibilidade básica de nos adaptarmos à qualquer coisa, e nos tornar qualquer coisa.

 

Por conta disso, não deveríamos confundir vacuidade com inexistência. Ao contrário, a vacuidade é repleta de potência. Compreendida corretamente, a vacuidade inspira otimismo ao invés de pessimismo, porque nos lembra da gama ilimitada de possibilidades do que podemos nos tornar e como podemos viver.

 

Interdependência e vacuidade nos mostram que não existem pontos iniciais fixos. Podemos começar do nada. O que quer que possuímos, o que quer que sejamos – esse é o lugar de onde podemos começar. Muitas pessoas tem a ideia de que  não possuem o que precisam para começar a se movimentar em direção aos seus sonhos. Elas sentem que não tem poder suficiente, o que não possuem dinheiro suficiente. Mas elas deveriam saber que qualquer ponto é o o ponto de começo certo. Esta é a perspectiva que a vacuidade abre. Podemos começar do zero.

 

De fato, a vacuidade pode ser comparada ao conceito e função do zero. Zero pode parecer como nada, mas todos sabemos, que tudo começa dele. Sem o zero, nossos computadores iriam colapsar. Sem o zero, não poderíamos começar a contar do um até o infinito. Da mesma maneira, da vacuidade, toda e qualquer coisa pode manifestar-se.

 

Tudo pode vir a existir porque não existe maneira fixa para as coisas existirem. Tudo depende das condições que se ajuntaram. Mas, este fato de que qualquer coisa é possível não implica que a vida é aleatória ou acidental. Podemos fazer qualquer coisa acontecer, mas apenas podemos fazê-lo ao juntar todas as condições necessárias. É aí que os conceitos de "vacuidade" e "interdependência" se encontram.

 

Cada pessoa, lugar, e coisa é inteiramente dependente de outras – outras pessoas e outras coisas – como uma condição necessária para sua existência. Por exemplo, todos estamos vivos agora por que gozamos das condições necessárias para nossa sobrevivência. Estamos vivos por causa das incontáveis refeições que comemos durante nossa vida. Porque o sol brilha sobre a terra e as nuvens carregam chuva, as plantações podem crescer. Alguém cuida das plantações e colhe, e então outra pessoa leva para o mercado, e ainda outra pessoa prepara uma refeição e então podemos comer. Cada vez esse processo é repetido, a interdependência de nossas vidas nos conecta a mais e mais pessoas, e com mais e mais raios de sol e gotas de chuva.

 

Em última análise, não existe nada, nem mesmo uma pessoa com a qual nos não estejamos conectados. o Buddha cunhou o termo "interdependência" para descrever este estado de profunda conectividade. Interdependência é a natureza da realidade. É a natureza da vida humana, de todas as coisas e de todas as situações. Estamos todos conectados, e todos servimos como condições, afetando um ao outro.

 

Entre todas as condições que nos afetam, de fato as escolhas que nós mesmos fazemos e os passos que tomamos estão entre as mais importantes condições que afetam o que surge de nossas ações. Se agimos construtivamente, o que surge é construtivo. Se agimos destrutivamente, o que resulta é destrutivo e nocivo. Tudo é possível, mas também tudo que fazemos tem importância, porque os efeitos de nossas ações atingem bem além de nós mesmos. Por essa razão, viver em um mundo de interdependência tem implicações muito específicas para nós. Significa que nossas ações afetam outros. Isso nos torna todos responsáveis uns pelos outros.

 

 

Vivendo esta Realidade

 

Percebo que esta apresentação pode parecer inicialmente abstrata, mas vacuidade e interdependência não são princípios abstratos. São muito práticos, e possuem relevância direta ao pensar em como você cria uma vida significativa.

 

Você pode ver a interdepêndencia no trabalho, ao olhar como sua própria vida é sustentada. É somente através de seus próprios esforços? Você fabrica todos os seus próprios recursos? Ou eles vêm dos outros? Quando você contempla essas questões, verá rapidamente que você pode existir somente por causa de outros. As roupas que você veste e a comida que come, todas vem de algum lugar. Considere os livros que você lê, os carros que dirige, os filmes que assiste, e as ferramentas que usa. Nenhum de nós faz com nossas próprias mão qualquer uma dessas coisas. Contamos com condições externas, incluindo o ar que respiramos. Nossa presença contínua aqui no mundo é uma oportunidade feita possível totalmente por outros.  

 

Interdependência significa que estamos continuamente interagindo com o mundo a nossa volta. Esta interação trabalha em ambas as vias – é uma troca mútua. Estamos recebendo, mas também doando. Da mesma forma que nossa presença neste planeta é possível devido a muitos fatores, por sua vez, nossa presença aqui afeta os outros – outros indivíduos, outras comunidades, e o planeta em si.

 

No decorrer do século passado, nós, humanos, desenvolvemos capacidades muito perigosas. Criamos máquinas dotadas de um poder tremendo. Com a tecnologia que é agora disponível, poderíamos cortar todas as árvores do planeta. Mas se o fizéssemos, não poderíamos esperar que a vida continuasse como era antes, exceto sem as árvores. Por causa da nossa interdependência fundamental, todos iram experimentar muito rapidamente as consequências de tais ações. Sem árvores, não haveria oxigênio suficiente em nossa atmosfera para sustentar a vida humana.

 

Você pode se perguntar o que isso tem a ver com as escolhas que fazemos e como vivemos nossas vidas. Isso é simples: todos precisamos levar a interdependência em consideração porque ela influencia nossa vida diretamente e profundamente. Para levar uma vida feliz, precisamos ter uma interesse ativo nas fontes de nossa felicidade.

 

Nosso ambiente e as pessoas com as quais o compartilhamos, são as principais fontes de nosso sustento e bem estar. Para garantir nossa própria felicidade, temos que respeitar e cuidar da felicidade dos outros. Podemos ver isso em algo tão simples quanto à maneira que tratamos a pessoa que nos prepara a comida. Quando a tratamos bem e cuidamos de suas necessidades, somente então podemos razoavelmente esperar que se empenharão em preparar algo saudável e saboroso para comermos.

 

Quando temos respeito pelos outros e cuidamos de seu florescimento, nós mesmos florescemos. Isso pode ser observado também nos negócios. Quando os clientes têm mais dinheiro para gastar, o negócio é melhor. Se desejamos florescer individualmente e juntos como uma sociedade, não é suficiente apenas reconhecermos a interdependência óbvia do mundo em que vivemos. Devemos considerar suas implicações e refletir nas condições para nosso próprio bem estar. De onde vêm nosso oxigênio, comida e bens materiais? Como eles são produzidos? Essas fontes são sustentáveis?

 

 

Relacionando à Realidade

 

Olhar para sua experiência sob a perspectiva da vacuidade e da interdependência, pode implicar uma mudança significativa em como você entende sua vida. Minha esperança é que essa mudança possa beneficiar você em um nível prático. Ao ganhar um novo entendimento sobre as forças que agem em sua vida, pode ser um primeiro passo em direção a ser relacionar positivamente com elas.

 

Meu propósito em levantar essas questões, certamente não é aterrorizá-lo ao confrontá-lo com a dura realidade. Por exemplo,  eu percebi que algumas pessoas ficam desconfortáveis quando dizem à elas que a mudança é uma parte fundamental da vida, ou que nada dura para sempre. Contudo, a impermanência é a apenas um fato básico  de nossa existência – não é nem bom nem mal por si só. Certamente, não há nada a ganhar ao negá-la. De fato, quando encaramos a impermanência com sabedoria, temos uma oportunidade de cultivar uma maneira mais positiva de se relacionar com aquela realidade. Se assim o fazemos, podemos de fato aprender a nos sentir tranquilos diante de uma mudança inesperada, e trabalhar confortavelmente com qualquer situação nova que possa vir a acontecer. Podemos nos tornar mais habilidosos em como nos relacionamos com a realidade da mudança.

 

O mesmo é verdade para a interdependência. Ver a vida sob esta perspectiva, pode nos ajudar a desenvolver habilidade para nos relacionar mais construtivamente com a realidade – mas, somente saber que somos interdependentes não garante que iremos nos sentir bem em sê-lo. Inicialmente, algumas pessoas podem achar desconfortável refletir que elas dependem de outros.

 

Elas podem pensar que isso significa que são desamparadas ou presas, como se fossem encaixotadas por essas dependências. Contudo, quando pensamos sobre ser interdependente, não precisamos sentir que é como estar preso em um emprego, trabalhando para um chefe que não escolhemos, mas temos que lidar com isso, goste ou não. Isso não é útil. Não devíamos nos sentir relutantes ou pressionados pela a realidade de nossa interdependência. Tal atitude nos impede de ter um senso de contentamento e bem-estar dentro de nossa própria vida. Não nos dá a base para relacionamentos positivos.

 

A interdependência é a nossa realidade, quer aceitemos ou não. Para viver a vida produtivamente inserido em tal realidade, é melhor reconhecê-la e trabalhar com a interdependência, sinceramente e sem resistência. É aí que o amor e compaixão entram . É o amor que leva a abarcar nossa conectividade com outros, e participar de boa vontade nas relações criadas pela nossa interdependência. O amor pode derreter nossas defesas e a triste sensação de separação. O calor da amizade e do amor, torna mais fácil para nós aceitar que nossa felicidade é intimamente ligada à felicidade dos outros. O mais amplamente somos capazes de amar outros, mais felizes e satisfeitos podemos nos sentir dentro das relações de interdependência que são parte natural de nossa vida. 

 

Trecho do livro "The Heart is Noble, Changing the World from the Inside Out", do Karmapa, Orgyen Trinle Dorje, 2013, Shambhala. 

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