A evolução das Oito Carruagens e sua transformação
nas Quatro Grandes Tradições.
Esta é uma versão simplificada de uma tremenda e complicada fertilização cruzada ocorrida durante séculos. A tradição Kagyu resultante é a Kagyu maior, incluindo suas quatro maiores e oito menores linhagens.
Todos os três aspectos dos ensinamentos de Buddha foram preservados no Tibet. Não existe na realidade um “budismo tibetano”, já que todo seu conteúdo é originário do budismo que florescia na Índia entre os séculos VIII e XII D.C. e foi transplantado para o Tibet durante este período, durante uma grande onda de atividade impulsionada por grandes mestres indianos e tibetanos da época, numa migração que se revelou afortunada, porque o budismo foi erradicado na sua terra nativa Índia nos séculos seguintes.
Apesar dos tibetanos terem feito um excelente trabalho de classificação e comentários sobre o budismo indiano, pouco adicionaram ao seu conteúdo original. O budismo tibetano não deveria ser encarado como um ramo exótico do budismo, como pensam alguns, mas sim como a nata do budismo, na sua forma mais completa, que se pode encontrar em qualquer parte do mundo. Entre seus ensinamentos multifacetados se encontra tudo o que pode ser encontrado separadamente nas escolas Theravada, Zen, etc., assim como muitos ensinamentos que só foram preservados no Tibet
Como o budismo chegou ao Tibet
O primeiro registro de budismo no Tibet foi a chegada, no ano de 433 D.C., de quatro objetos: dois sutras, o mantra om mani padme hung entalhado em uma pedra preciosa e uma estupa de ouro.
Diz a lenda que desceram do céu em um baú em meio a um arco-íris e músicas celestiais, pousando aos pés do rei Latotori na cobertura de seu palácio. O rei, com sessenta anos de idade, teria então tomado o aspecto de um jovem de dezesseis anos, e vivido por mais sessenta anos, simplesmente por efeito do respeito que sentiu por estes objetos sagrados desconhecidos.
Alguns tibetanos mais céticos encaram esta narrativa como uma maneira poética de explicar o súbito aparecimento destes textos no Tibet pré-budista. É, realmente, bem provável que nesta época o Tibet estivesse recebendo a influência disseminada do budismo na China, onde Kumarajiva estava traduzindo os textos budistas para a dinastia Ch’in. O Tibet ocidental e central também tinham algum contato com o budismo, que florescia no vizinho Khotan, através da Rota de Seda.
Apesar de sua milagrosa transformação, o rei Latotori manteve sua religião nativa, o Bön, uma forma de shamanismo, e o budismo não conseguiu se fixar no Tibet durante seu reinado. De qualquer forma, teria sido difícil para qualquer nova filosofia se disseminar por uma terra que não tinha ainda uma linguagem escrita.
O problema da linguagem foi resolvido no sétimo século, quando o império tibetano e o budismo tibetano estavam sendo disseminados através da atividade do rei Songtsen Gampo. Logo após ser entronado, ele mandou seu ministro de confiança, o brilhante Tönmi Sambhota, para a Índia com a missão de encontrar um sistema de escrita e gramática que se adaptasse à linguagem tibetana para que com ele se pudesse estabelecer um código moral e legal definidos para seu povo e também possibilitar seu acesso às escrituras budistas.
Tönmi retornou alguns anos depois com um alfabeto, provavelmente baseado na escrita Gupta do noroeste, uma gramática e muitos textos mahayanas e tantras.
Songtsen Gampo unificou as tribos tibetanas e tornou cosmopolita sua terra isolada, trazendo as ciências matemáticas e astrológicas da China, o Budismo da Índia, um sistema legal da Turquia e do Khotan e práticas comerciais do Nepal. Reconhecendo quão profundamente a religião nativa Bön estava enraizada no Tibet, fez construir muitos templos budistas em locais de poder cuidadosamente escolhidos e mandou ministros para a Índia e Nepal com a missão de procurar estátuas raras que haviam aparecido em suas visões. Fez também alianças através de casamentos com os vizinhos Nepal e China. As princesas que se tornaram suas noivas trouxeram com elas estátuas raras, principalmente sua noiva chinesa, que trouxe a famosa estátua Djowo, que havia originalmente sido levada da Índia para a China. Songtsen conseguiu estabelecer um império poderoso, mas não estabelecer o budismo com a religião nacional.
A primeira onda
Seu sucessor teve ainda mais dificuldades em introduzir o budismo, e foi forçado por seus poderosos ministros e conselheiros, adeptos do Bön, a expulsar seus convidados budistas. O próximo rei, Trisong Detsen, foi entronado no ano de 756 com treze anos de idade. Durante os próximos sete anos ele habilidosamente reduziu o poder de seus ministros Bönpo. Por volta de 760 ele trouxe da Índia o grande estudioso budista de sua época, Shantaraksita, para ensinar o budismo. Encontrando seu mestre, o rei lembrou de vidas anteriores em que haviam estado juntos, divulgando o dharma budista.
Apesar do trabalho de Shantaraksita ter tido algum sucesso, suas tentativas de construir monastérios e divulgar o dharma foram severamente obstruídas pela negatividade, com os sacerdotes Bön atribuindo as catástrofes naturais à chegada do budismo. Shantaraksita advertiu o rei que apenas o poderoso guru Padmasambhava poderia superar esta hostilidade, e então o rei mandou um convite para que ele viesse ao Tibet. Narrativas lendárias de sua chegada do Nepal contam que ele subjugou poderosos demônios e deuses locais, muitos deles altamente exóticos, um após o outro, vinculando-os ao budismo.
A tripla influência do patrocínio real de Trisong Shantaraksita, da presença espiritual de Padmasambhava e do vasto conhecimento do abade Shantaraksita permitiram que o budismo se firmasse no Tibet. O Budismo foi declarado a religião oficial e, mais importante, o grande complexo monástico de Samye foi construído e os primeiros monges foram ordenados. O talentoso estudioso Vairocana foi enviado para a Índia para procurar ensinamentos e mais tarde supervisionou a tradução de textos budistas em larga escala.
A segunda onda
Por quase um século o budismo floresceu. O império tibetano floresceu. Depois ambos desabaram durante o breve mas catastrófico reinado do rei psicótico Langdarma (838-841), que fechou e destruiu templos e baniu os monges. O caos se estabeleceu. Apesar disso, restaram da primeira onda algumas das tradições Nyingma e mosteiros foram restaurados gradualmente no clima de inquietação social e invasões que marcaram o nono e décimo séculos. Nos séculos XI e XII, houve uma grande renovação do budismo tibetano. Mestres tibetanos foram para a Índia para buscar ensinamentos, com Drogmi estabelecendo o que é hoje a tradição Sakya e Marpa estabelecendo a Kagyu. Mestres budistas foram convidados para o Tibet, o mais importante deles sendo Dipankara, que estabeleceu a tradição Khadampa que mais tarde deu origem à ordem Guelug. Ao mesmo tempo muitos estudiosos tibetanos e indianos foram laboriosamente traduzindo e revisando as escrituras para estabelecer um completo cânone budista no Tibet. As tradições que tiveram origem nessa segunda onda do budismo são conhecidas como Sarma (gsar.ma).
Oito carruagens e quatro linhagens
As “Oito Carruagens” foram as oito principais correntes originais da transmissão vajrayana que fluíram da Índia para o Tibet. Cada uma destas correntes foi originada por uma coleção de tantras ensinados e transmitidos pelos grandes mestres indianos e tibetanos do oitavo ao décimo séculos. Desde então, fatores históricos, geográficos e políticos cristalizaram o budismo tibetano em quatro linhagens principais: Nyingma, Kagyu, Sakya e Guelug. Todas elas incorporam os ensinamentos fundamentais do Buddha (hinayana). Igualmente, mas com ligeiras variações de interpretação ou estilo de apresentação, todas elas também adotam seus ensinamentos do caminho do bodhisattva (mahayana). Suas reais diferenças estão nas tradições vajrayana que abraçam.
1. Nyingma
Este nome significa ‘antiga’, já que foi esta a primeira tradição budista a se enraizar no Tibet. Estabelecida grandiosamente no oitavo século, através do patrocínio do rei Trisong Detsen, da sabedoria do maior estudioso desta época na Índia, Shantaraksita, e da força de seu mais poderoso guru, Padmasambhava, o Budismo se instalou de uma maneira dinâmica e grandiosa.
Padmasambhava ensinou muitos tantras a partir de seu rico conhecimento do vajrayana indiano, e escondeu muitos textos-tesouro (termas) para serem descobertos em épocas futuras. Estabeleceu três principais centros de prática, Samye, Yerpa e Tchuwori, e teve vinte e cinco discípulos extraordinários entre suas centenas de alunos talentosos. Os mestres Vimalamitra e Vairocana também ensinaram o tantra naqueles tempos inspiradores.
A gloriosa fase inicial desta tradição durou aproximadamente sessenta anos, até que o hostil, e provavelmente insano rei Langdarma a destruiu quase completamente. Apesar de mais tarde terem sido gradualmente restaurados os monastérios e a sangha, a linhagem Nyingma teve que competir por influência, inicialmente com a religião animista Bön e mais tarde com as novas linhagens (sarma) geradas pelo trabalho de Atisha, Marpa e outros renovadores do décimo-primeiro século. Foi durante este período que esta tradição passou a ser chamada de escola ‘antiga’ (rnying.ma).
A tradição Nyingma vê o budismo como um todo que se divide em quatro tendências distintas e se identifica como sendo o resultado de três linhagens de transmissão espiritual:
- a linhagem ‘remota’ canônica, transmitida por uma linhagem ininterrupta de humanos;
- a linhagem ‘próxima’ de tesouros espirituais escondidos e
- a linhagem ‘profunda’ da visão pura.
A primeira destas é a transmissão tradicional dos ensinamentos de guru a discípulo, através de iniciações, de ensinamentos orais e do exemplo do mestre, como encontrado em outras escolas. A especialidade tântrica da escola Nyingma focaliza, em seus estágios formais de treinamento, o Buddha primordial Samantabhadra, a forma do Guru Rinpoche e de Vajrakila alada irada, entre outras. Além destes, o auge sem forma do seu treinamento é conhecido como a Grande Perfeição. Como estes ensinamentos remontam ao Buddha eles são conhecidos como sendo de origem ‘remota’.
Os ensinamentos ‘próximos’ são aqueles escondidos, juntamente com objetos sagrados, por Padmasambhava e sua consorte, Yeshe Tsogyal, em rochas, cavernas, lagos, imagens, pilares de templo e outros locais extraordinários, para serem descobertos e oferecidos ao mundo quando a época estivesse madura. Estes são conhecidos como ‘tesouros’ (termas) e os mestres que os descobrem são conhecidos como ‘reveladores de tesouros’ (tertöns). A maioria deles é considerada como sendo reencarnação de algum dos vinte e cinco principais discípulos, que haviam sido iniciados por Padmasambhava no significado de cada ensinamento. Nem todas as termas são materiais, algumas simplesmente surgem na mente de um mestre.
O terceiro tipo de transmissão vem através da visão pura de um tertön, que realmente vê e recebe ensinamentos diretamente do Guru Padmasambhava.
A tradição Nyingma estimula uma tendência inata de ir com a maior rapidez possível ao que realmente interessa. Enquanto oferece, àqueles que são capazes de entendê-los, alguns dos mais profundos ensinamentos sobre a natureza da realidade, ela ainda mantém a majestade e magia de suas origens, e encontrou uma considerável aceitação no Ocidente.
Os nove níveis do budismo
- O budismo básico para liberar a mente (sravakayana).
- Uma forma especial do nível acima, seguida por eremitas solitários (pratyekabuddhayana).
- O caminho do bodhisatva (bodhisattvayana).
- As práticas matrayana baseadas em atos positivos e purificadores do kriya tantra.
- As práticas mantrayana baseadas em meios hábeis do carya tantra.
- As práticas vajrayana da yoga interior do yoga tantra.
- As práticas vajrayana do ‘maior’ (maha) ramo da yoga tantra superior.
- As práticas vajrayana do ‘mais alto’ (anu) ramo da yoga tantra superior.
- As práticas vajrayana do ramo ‘primordial’ (ati) da yoga tantra superior.
Alguns dos mais famosos monastérios Nyingma foram os de Katog, Dodje Drag, Pal-yul, Mindroling, Dzogtchen e Shetchen. Entre seus grandes mestres estão Longtchenpa (1308-1363), que fez a primeira compilação sistemática da doutrina, Ming-Ling Gyurdo (1646-1714), que preservou seus cânones, Djigme Lingpa (1729-17980), Paltul Rinpotche (1808-1887), Lama Mipham (1846-1912), Djamyang Kyentse (1820-1892) e Djamgon Kongtrul (1813-1899).
2. Kadampa
Uma tremenda onda de renovação e rejuvenescimento do budismo varreu o Tibet no décimo-primeiro século. Uma de suas mais importantes figuras foi Atisha Dipamkara, que ensinou por treze anos no Tibet central e ocidental. Seu ensinamento colocava grande ênfase em uma cuidadosa apresentação da filosofia do Caminho do Meio (madhyamaka), um conhecimento abrangente do budismo e uma vigorosa restauração da pura conduta monástica, que havia se deteriorado um tanto no Tibet por esta época. Nesta firme fundação foram plantados ensinamentos vajrayana, tais como os tantras do kalachakra e guhyasamaja.
Durante a estadia de Atisha no Tibet, Dromtönpa estudou a seus pés e se tornou, de seus seis principais alunos, o principal herdeiro espiritual. Dromtönpa teve, por sua vez, três discípulos principais. Entre eles, Potowa recebeu a transmissão completa dos “Seis Tratados” a respeito do caminho do bodhisatva. Tchen-Nha Tsultrim recebeu muitos ensinamentos sobre as Quatro Nobres Verdades. Lama Pu-Tchung recebeu ensinamentos detalhados sobre as “Dezesseis Quintessências” da prática vajrayana.
De modo geral, estes ensinamentos, passados através de geração após geração de mestres, eventualmente se dividiram em duas correntes distintas. Uma foi integrada na tradição Kagyu, através de Pawo Tsulag Trengwa (1440-1503), que as recebeu de Sakya Pandita. A outra foi para Tsongkhapa (1357-1419), de cujos discípulos ilustres surgiu a linhagem Guelug. Como esta última linhagem não é doutrinariamente diferente da Khadampa, ela não é tratada como um ‘veículo’ separado e é conhecida por alguns como Khadampa Posterior (a não ser confundida com a controversa seita surgida no fim do século XX, a Nova Khadampa).
A escola Guelug coloca grande ênfase na prática do tantra apoiada sobre uma base firme de renúncia, altruísmo e correto entendimento da visão de vacuidade de Nagarjuna e Chandrakirti. Para este fim, a disciplina monástica, o estudo e a lógica sob forma de debate religioso formal são muito valorizados. Não por acaso, esta escola é associada com Manjushri, bodhisatva da sabedoria. É também a tradição que deu origem às maiores universidades monásticas que o mundo já conheceu, a mais importante delas fundada no Tibet central pelos discípulos de Tsogkhapa.
Em 1416, Tashi Palden fundou o mosteiro de Drepung que, em seu apogeu, chegou a ter mais de dez mil monges e uma influência que chegava até a distante Mongólia. Em 1419, Sakya Yeshe fundou Sera, que cresceu a ponto de ter mais de cinco mil monges. Em 1447, outro discípulo, Gendun Drub, que mais tarde se tornou o primeiro Dalai Lama, fundou Tashilunpo em Shigatse. Este último mosteiro se tornou a sede das reencarnações do discípulo de Tsongkhapa chamado Khedrup Je, que se tornou conhecido como Pantchen Lama. O próprio Tsongkhapa fundou o monastério de Ganden em 1409, que cresceu até abrigar uns três mil monges, cujo abade-Ganden Tritchen- tradicionalmente preside a tradição Guelug, apesar de seu mais famoso personagem ser, sem dúvida, o Dalai Lama.
De todos os Dalai Lamas, o quinto foi o mais renomado. Foi ele que, em 1645, empreendeu a reconstrução do palácio de Potala, um dos primeiros arranha-céus do mundo. O palácio real original, com onze pavimentos, havia sido construído no Monte Marpori, em Lassa, em 637. Durante os nove séculos, entre sua destruição por efeito de um raio no oitavo século e o reinado do “ilustre quinto”, a capital tibetana havia sido localizada sucessivamente em Sakya, Tsetang, Rinpung e Shigatse. Este foi o resultado de várias facções religiosas disputando o apoio dos exércitos mongóis e estabelecendo a capital tibetana em seus quartéis-generais. O violento apoio dos mongóis Qosot não apenas estabeleceu Lassa como a capital, mas também proclamou o Dalai Lama como rei temporal além de líder espiritual, entregando a ele mais poder e um reino mais vasto do que o Tibet havia conhecido por muitos séculos.
Enquanto a tradição espiritual Guelug florescia em seus gigantescos monastérios no Tibet central, o destino dos Dalai Lamas seguintes foi menos brilhante. Os imperadores Manchu puseram fim à influência mongol e impuseram sua própria marca no Tibet, se assegurando que as encarnações do Dalai Lama morressem cedo ou nunca exercessem o poder real, que ficava na mão de seus regentes. A situação persistiu até o décimo-terceiro Dalai Lama (1876-1933), que exerceu verdadeira autoridade. O atual décimo-quarto Dalai Lama é, sem dúvida, o mais conhecido budista do mundo, e foi nomeado Nobel da Paz.
3. Marpa Kagyu
A Kagyu é uma das quatro principais escolas do Tibet, e uma que exerceu grande influência sobre o Tibet oriental, China, Mongólia e sobre os reinos do Himalaia, Butão, Ladak e Nepal. É por vezes chamada de Marpa Kagyu, em homenagem a Marpa, o tradutor (1012-1097), seu primeiro patriarca tibetano. Também é conhecida como Dagpo Kagyu pela maneira poderosa por que foi estabelecida como tradição monástica por Dagpo Rinpotche (Gampopa 1079-1153). Através dos discípulos deste último surgiram suas quatro linhagens principais e oito linhagens menores.
O nome Kagyu foi freqüentemente mal traduzido como ‘transmissão oral’. Na realidade, significa ‘linhagem de transmissão de (quatro) maestrias’ pela maneira por que, por quase um milênio, ela perpetuou uma maestria impecável nas mais profundas práticas budistas de yoga. Elas foram originalmente ensinadas por dois dos maiores mestres budistas indianos, Tilopa e Naropa, como a quintessência dos inúmeros tantras vajrayana praticados na época. Tilopa havia recebido a transmissão espiritual de mais de uma centena dos mais avançados gurus de seu tempo e, depois de atingir a iluminação, organizou todos estes ensinamentos sob uma perspectiva global, considerando as áreas em que se superpunham ou se diferenciavam. O resultado foi ensinar uma série de práticas que ajudavam metodicamente o discípulo a trazer à luz da verdade absoluta cada aspecto de sua existência. Somente depois que o discípulo tivesse dominado completamente este conhecimento, poderia transmiti-lo a outros, desta forma assegurando que o significado e finalidade originais fossem preservados através dos séculos. O principal discípulo de Tilopa, Naropa, ensinou-os como as Seis Yogas:
- Candali, ou Yoga do Calor, trazendo a realidade absoluta às funções biológicas e neurológicas do corpo, desta forma purificando o karma,
- Corpo Ilusório, trazendo a realidade absoluta à experiência da vida diária,
- Yoga dos Sonhos, trazendo a lucidez e controle à experiência do sonho,
- Clara Luz, o reconhecimento da lucidez inata da mente, sua vacuidade e completa felicidade,
- Estado Intermediário, trazendo lucidez e controle à experiência pós-morte e entre vidas e
- Transferência de Consciência, trazendo controle à consciência no momento em que ela deixa o corpo na hora da morte.
O componente da verdade absoluta, com sua natural lucidez e domínio espontâneo sobre fenômenos, é assegurado pelos ensinamentos do Mahamudra, que sintetiza todos os ensinamentos do Buddha. Estes ensinamentos revelam a natureza da mente humana e todas as suas possibilidades, das mais sublimes às mais grosseiras, detalhando como a verdade absoluta da vacuidade é inseparavelmente ligada com a rede relativa das manifestações através da compaixão inata surgida da vacuidade.
Marpa recebeu o Mahamudra e as Seis Yogas de seu guru Naropa e de Maitripa (também conhecido como Avadhutipa), detentor de uma linhagem especial transmitida por Nagarjuna e Saraha. Todos estes ensinamentos formam quatro áreas principais da maestria pela qual a linhagem Kagyu é conhecida. São elas:
- Mahamudra,
- Candali Yoga,
- Clara Luz – um termo geral para as últimas cinco das seis yogas mencionadas acima,
- Karma Mudra – a harmonia de todos os aspectos objetivos e subjetivos da consciência.
A totalidade dos ensinamentos que Marpa trouxe da Índia foi passada para o grande yogi Milarepa, que teve um discípulo semelhante ao sol, Gampopa, um discípulo semelhante à lua, Retchungpa e vinte e cinco outros semelhantes a estrelas. Gampopa também herdou os ensinamentos khadampa de Atisha. Fundindo estas duas correntes em uma, ele estabeleceu as bases da linhagem Kagyu como existe hoje. Todos os discípulos recebem instrução sobre os ensinamentos Khadampa, conhecidos como Mahamudra do sutra, e os mais dotados deles prosseguem recebendo o Mahamudra do Vajrayana, praticando as seis yogas baseadas em tantras do tipo anuttara yoga, usualmente os de Hevajra, Chakrasamvara e Vajra Varahi. A tradição Kagyu não usa as nove classificações de yana dos Nyingma, em vez disso classifica o quarto nível de tantra, o anuttara yoga tantra, em três seções: tantras-mãe, tantras-pai e tantras não-duais. O ilustre nono Karmapa esclareceu isso, escrevendo:
Na maneira pela qual expressam as coisas, existe alguma diferença entre os tantras-mãe e tantras-pai do anuttara yoga tantra. De maneira geral, se pode dizer que tantras-mãe, tais como Chakrasamvara, colocam mais ênfase no aspecto de sabedoria e vacuidade, o estágio absoluto, as seis yogas, etc.; enquanto os tantras-pai, em particular Guhyasamaja colocam mais ênfase em meios hábeis e no estágio de criação da meditação.
Apesar disso, o que está sendo manifestado é sempre não dual, e mesmo que, por razões práticas, os tantras mãe e pai enfatizem um ou outro aspecto, estes aspectos são faces de uma fusão não dual. Se não fosse assim, eles não poderiam levar o nome de anuttara yoga, a palavra yoga significando completa inseparabilidade.
O primeiro Karmapa foi o principal herdeiro espiritual de Gampopa. Em geral, os Karmapas são considerados como sendo, ao mesmo tempo, a presença de Avalokitesvara (a compaixão de todos os Buddhas) e emanações daquele que vai ser o sexto Buddha de nossa era: o Buddha Leão. É freqüentemente dito que os Karmapas são reencarnações do grande mahasidha Saraha. Dezessete gerações de Karmapas conduziram a tradição Kagyu com a luz de suas sabedorias. Alguns foram gurus de imperadores chineses, Khans mongóis e reis tibetanos e dos reinos do Himalaia. Todos estabeleceram mosteiros e levaram os ensinamentos de Buddha a dezenas de milhares de pessoas. O atual Karmapa, Ogyen Trinle Dodje, reside no mosteiro de Gyuto, no norte da Índia.
Outros lamas famosos da tradição Kagyu foram os Tai Situpas, considerados como emanações do bodhisatva que vai se tornar o quinto Buddha, Maitreya, e igualmente vistos como reencarnações de Marpa, o tradutor e do mahasidda Dombipa. Sua sede principal é no mosteiro de Palpung. Os Sharmapas tem sido outra importante linhagem de lamas. Em séculos mais recentes, os Gyaltsab e os Djamgon Kongtrul também tiveram papéis de destaque.
4. A linhagem Sakya
Tomou o nome de seu primeiro monastério, construído em Sakya, na parte oeste do Tibet central em 1703. Apesar disso, teve início no século VIII com ensinamentos de Padmasambhava (especialmente sobre o tantra de Vajrakila) que se perpetuaram por quatro séculos problemáticos, através da dinastia da família Khön. Khön Kontcho Gyalpo adicionou novos tantras a estes ensinamentos, tais como Hevajra e Chakrasamvara, recebidos de um grande mestre do renascimento ocorrido no décimo primeiro século, o tradutor Drogmi, e estabeleceu o mosteiro Sakya. Por volta da mesma época, linhagens do mahasidha Naropa foram integradas à linhagem.
A linhagem Sakya se distingue por manter um sábio equilíbrio entre estudo e meditação. Seus sutras são praticados somente após um completo treinamento nos fundamentos hinayana e mahayana, apresentados de uma maneira especial, associada com o Hevajra tantra e conhecida como “o caminho e seus resultados” (lam dre). Os ensinamentos mais profundos falam sobre a não diferenciação entre o mundano e a vacuidade, assim como da verdade absoluta ser uma total fusão de luminosidade e vacuidade.
Uma sucessão de grandes mestres, tais como Satchen Kunga Nyingpo (1092-1158) e Sakya Pandita (1182-1251) desenvolveram ainda mais esta tradição. O segundo foi provavelmente o mais famoso patriarca Sakya. A reputação de sua erudição se espalhou até as distantes Mongólia e China e ele foi convidado para a corte imperial. Sendo celibatário, sua dinastia passou para seu sobrinho Tchödjal Pagpa (1235-1280). O imperador mongol Kublai Khan entregou a Tchödjal o domínio sobre treze pequenos reinos, assim unindo a maior parte do planalto tibetano sob um líder espiritual e temporal, de forma semelhante ao que os chineses fizeram mais tarde com os Dalai Lamas. Uma rede de monastérios Sakya foi estabelecida através do Tibet central e oriental.
Este poder chegou ao fim no início do século XIV e a dinastia familiar que mantinha o domínio se dividiu em duas. Desde esta época a tradição foi dirigida de maneira alternada pelos líderes de cada uma das dinastias resultantes da divisão. HH Sakya Trizin é seu líder atual.
5. A linhagem Tchöd, ou ‘Pacificadora’
Com melodias belas e melancólicas, o bater rítmico de grandes tambores de mão e o harmonioso canto dos sinos feitos de sete diferentes metais, o ritual do Tchöd conquistou o coração e a imaginação de muitos ocidentais. Aqueles que o praticam descobrem que ele leva ao coração do ensinamento de Buddha: um completo abandonar de tudo o que é pessoal para se colocar ao serviço de todos os seres, sem distinções. Mas esta série de práticas (escreve-se gCod em tibetano, mas se pronuncia Tchöd) é apenas parte da linhagem Jidje (Pacificadora), de Dampa Sangyé. Muitos tibetanos praticaram sob sua orientação e estabeleceram pequenas linhagens de seus ensinamentos no Tibet, mas foi realmente através de suas viagens para esta terra que a riqueza coerente de seus ensinamentos se enraizou lá.
Suas instruções envolviam uma fusão do Mahamudra com um tantra conhecido como "Grande Rio de Consoantes e Vogais". Ensinou que a fundamentação correta era observar os três níveis de compromissos budistas (preceitos, voto de bodhisatva e compromissos tântricos). Nesta base firme, o caminho a seguir é aquele do estrito ascetismo, habitando em lugares desolados, como cemitérios. Lá se pratica cortar a própria raiz do sofrimento aniquilando os venenos mentais, tais como desejo e raiva, enquanto se mantém a atenção nos pontos essenciais do budismo por envolvimento com seus aspectos superficiais. Isto resulta em uma tríplice atividade que muito beneficia os seres. Matchig Labdrön, discípula de Dampa, uma mulher yogi, incrementou grandemente estes ensinamentos no Tibet. Em uma época, a linhagem Dampa Sangye quase despareceu. Foi restaurada pela vigorosa atividade de Ming-Ling Lotchen Tchödpal Zangpo e continua a existir em nossos dias.
Existem muitos diferentes tipos de prática de Tchöd, muitas com finalidades específicas tais como curar os doentes ou apagar a sombra da morte projetada pela proximidade e apego àqueles que estão morrendo. Todas envolvem ‘matar demônios’ mas deve-se entender que os demônios são os quatro Maras: os quatro principais problemas existenciais que causam o sofrimento, que são:
- ser composto de cinco agregados que juntamente formam o corpo e a mente (skandha mara),
- ter a mente poluída pelo desejo egoísta, hostilidade, ciúme e outros venenos mentais (klesha mara),
- ser apegado aos detalhes da própria existência e da existência em geral (mara filho de deva),
- ser incapaz de aceitar mudança (mara senhor da morte).
A prática de Tchöd incorpora todas as seis perfeições (paramitas), mas enfatiza duas em particular. O abandono total do apego físico através do ascetismo compassivo representa um aspecto especial da generosidade e a principal meditação é a própria expressão de sabedoria primordial (prajñaparamitta), cortando as delusões tagarelas do ego.
A linhagem Tchöd foi integrada à linhagem Kagyu na época do terceiro Karmapa (1284-1339), que tinha grande estima por sua prática. Desde então, foi perpetuada pela escola Kagyu, com diferentes estilos de Tchöd surgindo dos monastérios de Surmang, Ndo e Djabtche. Tchöd é parte da prática diária dos famosos retiros de meditação de três anos desta linhagem.
6. Tradição Djonanga
Esta tradição tem duas especialidades. Sobre os ensinamentos gerais do budismo, sustenta a visão de ‘vazio de outro’ (Jentong) da filosofia do Caminho do Meio. Seus ensinamentos tântricos focalizam em uma apresentação meticulosa e completa do Tantra Kalachakra (Roda do Tempo). Este tantra muito importante, mostrando todos os níveis do relacionamento entre o microcosmo humano e o universo macro cósmico, entrou no Tibet através de muitas portas e pelas mãos de muitos mestres. Ao todo, a atividade de ensinamento e tradução que eles levaram a cabo deu nascimento a dezessete diferentes linhagens Kalachakra. O mestre Kunpang Tugdje juntou estas dezessete em um ensinamento oficial e estabeleceu um vihara dedicado a isto no interior do monastério de Djomo, daí o nome desta tradição ser composto de Djo (de Djomo) e nang (dentro). A residência do mestre Dolpopa no vihara de Jomo ocasionou a divulgação desta visão filosófica e do tantra de Kalachakra. O mestre Taranatha também contribuiu muito para esta divulgação.
Infelizmente todos os monastérios de Djonang nas áreas centrais do planalto Tibetano, inclusive Tagten Puntsog Ling, a sede de Taranatha, foram destruídos por seguidores do quinto Dalai Lama, levados por zelo religioso equivocado. De qualquer forma, a linhagem persistiu até este século no Tibet oriental, com seus dois monastérios principais de Dzamtang Tchodje e Dzamtang Tsangpa. A visão Jentong da filosofia do Caminho do Meio também foi muito saudavelmente preservada no seio da tradição Kagyu.
7. Shangpa Kagyu
Esta linhagem surgiu do mahasiddha Khyungpo Naldjor de Shang, no Tibet centro-oriental. Ela propaga cinco tantras do gênero anuttara yoga, cada um sendo considerado a expressão mais alta de uma certa prática:
- o Hevajra tantra é o zênite do yoga chandali (calor),
- o tantra Chakrasamvara é o zênite do yoga de consorte (karma mudra),
- o tantra Guhyasamaja é o zênite do yoga de corpo ilusório e clara luz,
- o tantra Mahamaya é o zênite do yoga dos sonhos,
- Dodje Djigdje é o zênite da ação iluminada.
Estes tantras são transmitidos através dos ensinamentos de cinco antigos mestres indianos: Niguma, Sukhasiddhi, Dodje Denpa, Maitripa e Rahula. A tradição Shangpa Kagyu quase se extinguiu no século passado. Foi preservada e restaurada pela ação vigorosa de Kalu Rinpoche até o fim de sua vida.
8. As Três Tradições Vajra
Esta linhagem se originou do mahasiddha Ogyenpa, que se diz ter recebido seus ensinamentos diretamente do ser celestial Vajrayogini. Enfatiza a pureza primordial dos Três Vajras: do corpo, fala e mente. Eles estão presentes no corpo, fala e mente ilusórios dos seres. As ilusões são purificadas por uma tríplice aplicação: dos preceitos, meditação e ritual. O resultado é tornar manifestos os três corpos (kaya) de Buddha nesta mesma vida. Estes ensinamentos chegaram ao terceiro Karmapa e foram, desde aquela época, preservados na tradição Kagyu. Não mais existem como uma linhagem separada.
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