Karmapa_2007_the17_01Depois do falecimento do décimo sexto Gyalwa Karmapa em 1981, o conselho de regentes, composto por Shamar Rinpotche, Tai Situ Rinpotche, Djamgön Kongtrul Rinpotche e Gyaltsab Rinpotche, assumiu em conjunto a responsabilidade pelos assuntos espirituais da linhagem Karma Kagyu e foi incumbido de localizar a reencarnação do Karmapa. Pela primeira vez na história dos Karmapas, os encarregados de localizá-lo não eram mais residentes no Tibet, tendo fugido do país juntamente com, ou por sugestão do décimo sexto Karmapa em fins dos anos 50.

Nos anos seguintes a 1981, os regentes se preocuparam em descobrir as instruções do décimo sexto Karmapa, mas elas foram difíceis de encontrar. Finalmente, após muitos anos, os obstáculos se dissiparam o suficiente para que o Tai Situpa localizasse a carta de previsão do décimo sexto Karmapa (o Dakhe Shaltchem central, ou Último Testamento).

Em 14 de março de 1992 o conselho de regentes se reuniu em Rumtek para examinar esta carta. O Último Testamento do Karmapa declarava que sua reencarnação poderia ser localizada “para o norte, no leste da terra das neves”, e fornecia outras instruções claras sobre em que local no Tibet encontrar a sua décima sétima reencarnação. Os regentes decidiram que Djamgön Kongtrul Rinpotche deveria ir ao Tibet investigar e procurar pela reencarnação do Karmapa. Infelizmente, antes que pudesse ir ao Tibet, Djamgön Kongtrul Rinpotche faleceu, seis semanas após a reunião.Uma nova equipe de buscas foi formada, composta de representantes do Tai Situpa e Goshri Gyaltsabpa, uma delegação de Tsurphu e de funcionários do governo local. A equipe de buscas foi enviada para encontrar o novo Karmapa, de acordo com as instruções da carta de predição do décimo sexto Karmapa, que dizia que sua reencarnação seria encontrada



“onde o divino trovão brilha espontaneamente / [Em] um lindo lugar de nômades com sinal de uma vaca / O método é Döndrub e a sabedoria é Lolaga”.

“Divino trovão” em tibetano é “la thog”, e indicava a região de Lathog. “Vaca” é “ba” em tibetano, e se referia à vila de Bakor (aproximadamente “área da vaca”).
Como foi indicado, o Karmapa foi localizado pela equipe de buscas na comunidade chamada Bakor, na região Lathog do Tibet oriental, no oitavo dia do quinto mês tibetano no ano da vaca de madeira. Seu pai (“o método”) era Karma Döndrub Tashi, e a mãe (“a sabedoria”) Loga.

O Tai Situpa e Goshri Gyaltsab souberam, através de seus representantes no Tibet, das descobertas sobre o menino, realizadas pela equipe de buscas, e imediatamente comunicaram esta informação a Sua Santidade o Dalai Lama. O Tai Situpa e Goshri Gyaltsabpa, conforme combinado com Sua Santidade o Dalai Lama, instruíram a equipe de busca a trazer o Karmapa de volta para sua sede principal. Drupon Detchen Rinpotche, que foi incumbido pelo décimo sexto Karmapa de restaurar o monastério de Tsurphu, recebeu o Karmapa no monastério de Tolung Tsurphu no Tibet central. Muitos sinais maravilhosos surgiram na chegada do Karmapa em Tsurphu.

Mais tarde, em 1992, o Dalai Lama emitiu seu Bugthan Rinpotche, que declarava:

“O menino nascido de Karma Döndrub e Loga no ano da vaca de madeira (do calendário tibetano) corresponde à carta de predição (deixada pelo falecido Karmapa) e é portanto reconhecido como a reencarnação do décimo sexto Karmapa. Com orações para seu bem-estar e pelo sucesso de suas atividades. O Dalai Lama”.

O retorno do décimo sétimo Karmapa para Tsurphu também realizou outra parte do último testamento do décimo sexto Karmapa, sua previsão em 1944 que apesar do Tibet se transformar um dia em um “pântano escuro” que o forçaria a abandonar o Tibet, ele voltaria mesmo assim à seu lar ancestral. Quando o décimo sexto Karmapa, que havia deixado o Tibet em 1959, passou ao parinirvana em 1981 sem retornar, sua profecia estava ainda a ser cumprida. No entanto, na inconcebível tradição dos Karmapas, sua promessa foi cumprida onze anos mais tarde, quando o décimo sétimo Karmapa entrou pelos portões de seu monastério em Tsurphu em 1992. A “grande alegria” sentida por seus discípulos então começou o processo de reparar a “indizível tristeza” sentida quando seu predecessor foi forçado a abandonar seus discípulos "indefesos" para trás em 1959.

Em julho de 1992, o Tai Situpa e Goshri Gyaltsabpa chegaram ao Tibet e dirigiram, como abades, uma cerimônia tradicional de refúgio, realizada em frente a mais preciosa imagem de Buda do Tibet, no templo de Djokhang, em Lassa. Suas eminências Situ Rinpotche e Gyaltsab Rinpotche presentearam o Karmapa com uma variedade de itens abençoados enviados pelo Dalai Lama e outros mestres. Durante a cerimônia, o Karmapa recebeu o nome tradicional para a décima sétima reencarnação, revelada ao Grande Detentor de Tesouros Tchogyur Detchen Lingpa pelo Guru Rinpotche no século XIX:

Pal Khyabdag Ogyen Gyalwe Nyugu Drodül Trinle Dordje Tsal Tchokle Nampar Gyalwe De.

Em 27 de setembro de 1992, o Tai Situpa e Goshri Gyaltsabpa presidiram à entronização do décimo sétimo Karmapa em Tölung -Tsurphu. O Secretário-Geral de Sua Santidade, Tendzin Namgyal e representantes do Centro Darmachakra e do Colégio Monástico Karma Shri Nalanda em Rumtek estavam presentes à cerimônia. Antes da cerimônia começar, representantes do governo chinês presentearam Sua Santidade com um certificado oficial do governo de Beijing aceitando o reconhecimento de Sua Santidade como um lama reencarnado, o primeiro reconhecimento desse tipo no Tibet depois dos anos 50. Dezenas de milhares de devotos se reuniram para testemunhar o retorno de Sua Santidade o Karmapa.

Sua Eminência o Tai Situ Rinpotche presenteou o Karmapa Ogyen Trinle Dordje com o Bugtham Rinpotche, escrito por Sua Santidade o Dalai Lama, uma cópia do Dakhe Shaltchem e a previsão do oráculo Netchung. Na cerimônia tradicional chamada “Ngasol”, Sua Eminência o Tai Situpa consagrou o Karmapa, então com sete anos de idade, com os oito preciosos ingredientes, os oito símbolos auspiciosos e as sete possessões dos monarcas universais. Essa cerimônia de entronização terminou com o oferecimento de uma enorme mandala, por Gyaltsab Rinpotche, seguida do oferecimento de uma imagem de Buda, simbolizando o corpo, um sutra de longa vida, simbolizando a palavra, e uma stupa, simbolizando a mente.
Representantes de monastérios de todo o mundo, mais de 300 mestres reencarnados e representantes de centros de Dharma e governos de cinco continentes também fizeram oferecimentos.
Na manhã seguinte, dezenas de milhares de pessoas se organizaram em filas diante de Sua Santidade, para fazerem oferecimentos e receberem bênçãos pessoais.

Em Tsurphu, o Karmapa estudou as ciências budistas da mente, aprendeu rituais e praticou artes sagradas, como a dança. A cada dia recebia centenas de visitantes de todo o Tibet e de todo o mundo. Eventualmente começou a oferecer iniciações e a participar de vários rituais no monastério. A partir de dez anos de idade, Sua Santidade começou a reconhecer mestres reencarnados, inclusive eminentes mestres como Pawo Rinpotche,Djamgön Kongtrul Rinpotche e Dabzang Rinpotche. Foi em peregrinação a muitos lugares sagrados do Tibet, como a torre de Milarepa em Lodrag. Em uma viagem patrocinada pelo governo central, visitou muitos templos Mahayana chineses, prestou homenagem a relíquias do Buda em Beijing e se encontrou com autoridades do governo central em Beijing, inclusive o presidente Jiam Zimen.

Enquanto Sua Santidade estava em Tsurphu, o monastério teve grandes obras de reconstrução para restauração dos templos, santuários, stupas, uma shedra e residências que haviam sido destruídas através dos anos, cumprindo um dos principais deveres de um Karmapa. Com o passar dos anos, entretanto, Sua Santidade passou a sofrer uma crescente pressão das autoridades tibetanas e chinesas para agir de maneiras que limitavam sua autoridade religiosa como Karmapa. O Karmapa desejava propagar os ensinamentos de Buda em geral, e em particular receber as excelentes iniciações, transmissões e instruções da tradição Karma Kagyu. Ele só poderia receber estes ensinamentos dos principais discípulos do Karmapa anterior, tais como Situ Rinpotche e Gyaltsab Rinpotche. Além disso, Tchogyur Detchen Lingpa havia previsto que o Karmapa iria estudar com seu professor Tai Situpa e outros mestres. Era muito difícil para o Karmapa seguir de maneira crítica importantes tradições religiosas e praticar livremente suas atividades religiosas nestas circunstâncias.

Apesar de estar sob vigilância constante do governo chinês, que recusou permissão para que ele deixasse o país mesmo por curtos períodos de tempo, ele e um punhado de atendentes cuidadosamente planejaram um esquema arrojado para escapar do Tibet para a Índia. O Karmapa anunciou que estava entrando em um tradicional retiro fechado e não sairia de lá por alguns dias. Na noite de 28 de dezembro, o Karmapa e seu atendente vestiram roupas comuns, lentamente desceram de seu quarto e pularam para o telhado de um prédio vizinho, a sala do santuário do protetor Mahakala. De lá desceram para o chão, onde um jipe estava esperando com o Lama Tsultrim e um motorista. Partiram imediatamente. Lama Tsewang e outro motorista se juntaram ao grupo em um lugar combinado.Havia sido divulgado previamente que o Lama Tsultrim e seus companheiros estavam partindo em viagem. Como se preparando para isso naquele dia eles haviam entrado e saído do mosteiro várias vezes e, dessa forma, nada pareceu estranho quando o carro dirigido pelo Lama Tsultrim partiu. Eles decidiram se dirigir diretamente ao Tibet ocidental, já que poucos viajantes usavam esta estrada e os postos de controle não eram vigiados tão rigorosamente. Dirigindo dia e noite, paravam apenas para trocar de motorista. Escolhendo estradas secundárias através de montanhas e vales, evitaram postos de controle e dois acampamentos militares. Dirigindo por todo o caminho, chegaram à Mustang, no Nepal, na manhã de 30 de dezembro de 1999.

Continuando a jornada a pé e em montarias, cruzaram vários caminhos de montanha e finalmente chegaram a Manang. Esta parte da viagem foi extremamente difícil e cansativa devido às más condições dos caminhos, muitas vezes perigosos, e ao clima extremamente frio. Apesar do Karmapa estar cansado e não estar muito bem de saúde, estava completamente decidido a alcançar sua meta, contra todas as dificuldades.Chegando em Manang, um amigo próximo do Lama Tsewang Tashi ajudou o grupo a alugar um helicóptero. Pousaram em um lugar no Nepal chamado Nagarkot e daí prosseguiram de carro até Rauxal. De lá viajaram de trem até Lucknow e continuaram em carro alugado até Delhi, chegando afinal a Dharamsala na manhã de 5 de janeiro de 2000. O Karmapa foi imediatamente se encontrar com Sua Santidade o décimo-quarto Dalai Lama, a própria manifestação da compaixão, e foi recebido com grande manifestação de amor e afeto. A alegria do Karmapa não conhecia limites. Por sua grande compaixão e profunda solicitude, Sua Santidade o Dalai Lama continua a oferecer ao Karmapa seus preciosos ensinamentos, opiniões e conselhos.

A fuga do Karmapa e sua chegada em Dharamsala receberam extraordinária cobertura de todos os principais órgãos da imprensa de todo o mundo, inclusive a Associated Press, Agence-France Press, BBC, CNN, NBC, ABC, CBS, The Economist, Newsweek, Time, The New York Times, The Times of Índia, The Industan Times e a maioria dos órgãos da imprensa mundial.Suas Eminências Tai Situ Rinpotche e Gyaltsab Rinpotche e o Secretário Geral Tendzin Namgyal se juntaram ao Karmapa em Dharamsala logo após sua chegada. Muitos eminentes mestres Kagyu, lamas e a comunidade leiga e monástica de Rumtek chegaram a Dharamsala para desejar boas-vindas e celebrar alegremente a chegada do Karmapa. Os governos indiano e tibetano no exílio estenderam a Sua Santidade seus serviços diplomáticos e continuam a oferecer calorosa hospitalidade. O Karmapa recebeu oferecimento de residência temporária na Universidade Tântrica Gyuto em Siddhibari, a trinta minutos de carro de Dharamsala. O Karmapa recebeu a condição de refugiado do governo indiano em 2001.

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