dordje_tchangPara o entendimento da linhagem Kagyu e a atividade de um ser tal como o Karmapa, primeiramente temos que ter uma boa idéia do que é uma linhagem. Uma linhagem é a transmissão dos ensinamentos de Buddha acontecendo através do tempo, sem que a realização desses ensinamentos venha a ser corrompida ou diminuída. Para ser autêntica uma linhagem deve ser excelente – o que significa ser composta de indivíduos realizados – e deve ser ininterrupta ou contínua.

A razão por que linhagem é tão importante é que ela continua a realização que foi obtida através dos ensinamentos de Buddha. Isso significa que todas as qualidades de liberdade e realização de um Buddha são realizadas em cada geração e passadas para a próxima geração, como o conteúdo de um vaso sendo vertido dentro de outro vaso. São quatro as maiores linhagens de budismo que são transmitidas no Tibet. Elas são a Nyingma, Kagyu, Sakya e Guelug. Minling Tritchen é o regente da Nyingma. O regente da tradição Kagyu é o Gyalwang Karmapa. Sakya Trizin é o regente da Sakya e o principal dirigente da tradição Guelug é o Dalai Lama. Todas estas quatro escolas apresentam igualmente os ensinamentos autênticos do Buddha. As distinções entre elas são basicamente as diferenças em como foram fundadas, por quem e, mais particularmente, os métodos que cada uma escolheu enfatizar de como guiar os estudantes.

Com esse entendimento geral de linhagem, nós agora discutiremos em particular a linhagem Kagyu. O termo Kagyu é bastante significante. A sílaba "Ka", que significa literalmente ordem ou comando, se refere de fato para os ensinamentos dados pelo próprio Buddha. Assim ela se refere para as tradições fundamentais do Buddhadharma. "Gyu" significa uma linhagem ou um fluxo ininterrupto, continuidade ou sucessão.     

É claro que todas as linhagens começam com o Buddha que, como nós sabemos, nasceu na Índia e lá ensinou. Seus ensinamentos foram eventualmente levados para o Tibet e divulgados pelo mundo. Algum tempo depois do falecimento de Buddha surgiu na Índia um número de indivíduos altamente realizados que foram chamados de "os 84 mahasiddhas" e é durante o período de suas atividades na Índia que nossa linhagem surgiu. Na prece da linhagem que nós fazemos começa com "Grande Dodje Tchang, Telo, Naro, e assim por diante". A primeira figura mencionada na linhagem é Dodje Tchang (sânsc-Vajradhara) que é ninguém outro que o próprio Buddha.

Como é que Dodje Tchang é de fato o Buddha? Quando os seres se tornam Buddha e obtém completo despertar, todos os seus obscurecimentos prévios são removidos e assim sua sabedoria é onisciente. Esta realização, essa mente que alcançou despertar insuperável, é chamada Dharmakaya ou o corpo do Dharma, que é o que é um Buddha, em essência. Esse é o estado, ou liberdade de realização, daquele Buddha. Tal ser erradicou completamente tudo que é para ser abandonado e revelou e maximizou todas as qualidades. Desse modo o Dharmakaya não pode ser "experienciado" por nenhum outro que não seja o próprio Buddha. Porque o despertar transcende não somente o Samsara (existência confusa) mas também o Nirvana unilateral (liberação individual ou de um Arhat), então o Dharmakaya se manifesta em dois modos diferentes na percepção dos outros. Estas duas maneiras em que o Dharmakaya pode manifestar são chamadas de Rupakaya, ou corpo de forma. Um desses dois Rupakayas, que é o corpo de emanação ou Nirmanakaya, é o que é "experienciado" pelos seres comuns com percepção impura. O outro, o Rupakaya puro, o qual é o Sambhogakaya ou corpo de júbilo, é o que é "experienciado" pelos seres com percepção pura, que são os Bodhisattvas dos níveis superiores.
O Buddha histórico, o Buddha Shakyamuni, é um exemplo do Nirmanakaya supremo, e como todos os Nirmanakayas supremos, em um dado momento parece que ele faleceu, que passou para o Nirvana. Isso foi meramente a cessação de sua aparência como supremo Nirmanakaya, mas não o fim de sua atividade. Apesar de, do nosso ponto de vista, ele parecer ter falecido, isso não significa que ocorreu qualquer mudança em seu Dharmakaya. Desse modo, ele foi livre para depois surgir no Sambhogakaya. Assim, o Dharmakaya manifesta como aquilo que é conhecido como, no contexto do Vajrayana, o Dodje Tchang Sambhogakaya.
O Sambhogakaya ou corpo de júbilo completo é caracterizado por 5 fatores, os quais são algumas vezes chamados de 5 certezas ou 5 excelências. A 1ª excelência é o local. Onde quer que o Sambhogakaya esteja é sempre o puro reino mais alto de Akanishta. Existem muitos reinos puros, mas Akanishta é o reino mais alto ou reino puro absoluto. A 2ª excelência é o tempo – o que significa que o ensinamento do Sambhogakaya é contínuo e ininterrupto. Isso não quer dizer que o Sambhogakaya ensina algumas vezes e outras não. A 3ª excelência é o Dharma. O Sambhogakaya ensina sempre o veículo superior, o Mahayana. A 4ª excelência é o séquito ou público. Aqueles que recebem o ensinamento do Sambhogakaya são sempre Bodhisattvas que estão no fim do caminho do Bodhisattva no 10º nível. A 5ª excelência é o proprio mestre, o qual é o Dharmakaya Dodje Tchang surgindo na forma de Sambhogakaya.

Esta forma de Sambhogakaya do Buddha foi "experienciada" diretamente pelo Mahasiddha Tilopa que falou, "Eu encontrei o Buddha em Bengala", citando seu encontro com o Buddha Dodje Tchang. Foi deste modo que o Nirmanakaya Tilopa recebeu os ensinamentos diretamente do Dharmakaya Dodje Tchang, na forma do Sambhogakaya. Porem, ainda que o próprio Tilopa não necessitasse de qualquer guru humano, mas porque as pessoas seriam céticas da autenticidade de sua linhagem, ele precisou pelo menos parecer ter mestres humanos. Depois de receber o ensinamento de Dodje Tchang ele confiou em quatro mestres, os quais apresentaram-lhe o que foi conhecido como as 4 linhagens, e por ele associadas.

As 4 linhagens recebidas por Tilopa são nomeadas de acordo com o tema e parte da Índia onde ele as recebeu. Em cada linhagem vários nomes de gurus são dados. Na verdade, não é certo de qual deles foi que Tilopa recebeu tal linhagem, mas todos são gurus desta linhagem. A 1ª que ele recebeu foi a linhagem do leste, que é relacionada aos Tantras Pai e ao controle do Prana. Esta é a linhagem de Saraha, Nagarjuna, Aryadeva, Chandrakirti e Matangi. Neste caso é evidente que Tilopa recebeu de Matangi. A 2ª é a linhagem do sul, que veio de Luipa, Drengipa, Darikapada e Shukadari. Juntamente com a 3ª e 4ª linhagens ela é relacionada principalmente aos Tantras Mãe, que trabalham com Prajna e a forma de outros. A 3ª é a linhagem do oeste e é relacionada com as práticas Milam (o sonho) e Bardo (estado intermediário) , que vêm de Dhombipa, Vinapa, Lawapa e o rei Indrabhuti. E, por fim, a 4ª, a linhagem do norte que é relacionada com as práticas de Tummo (calor interno), transferência e ejeção de consciência que vem de Sukhasiddhi, Tanglopa, Shinglopa, Karnarepa, Jalandhara e Krishnacharya. Então, a linhagem que vem para nós de Tilopa combina todas elas. Adicionado a isso, Tilopa foi abençoado pelo próprio Dodje Tchang.

tilopaTilopa é considerado como uma encarnação humana da divindade Demtchog (Chakrasamvara) e o seu discípulo principal, o Mahapandita Naropa, para quem ele passou a linhagem é considerado como uma encarnação humana da divindade Dodje Sempa (Vajrasattva). Ambos, Tilopa e Naropa, eram indianos. Então, desse ponto em diante a linhagem move-se para o Tibet, levada pelo discípulo mais importante de Naropa, Marpa, que foi considerado como a encarnação humana da divindade Kye Dodje (Hevajra).

Marpa nasceu, cresceu e foi educado na cultura tibetana. Ele era altamente educado nas disciplinas lingüísticas que eram ensinadas na sua época. Antes de ir para a Índia, ele tornou-se erudito em Sânscrito e outras línguas indianas, de modo que poderia traduzir, tranqüilamente e corretamente, qualquer coisa das linguagens indianas para o tibetano. Após instruir-se em tudo isso, ele foi com grande dificuldade do Tibet para a Índia em três diferentes ocasiões. Enquanto lá, ele estudou com grande número de eruditos e mestres realizados. Entre estes, estava principalmente o Mahapandita Naropa e o príncipe Maitripa. Ele despendeu um total de 16 anos e 7 meses ouvindo e recebendo deles todos os ensinamentos igual ao conteúdo de um vaso sendo transferido para outro. Ele recebeu a transmissão completa de todos os 4 Tantras do Vajrayana, especialmente as 4 linhagens que foram herdadas por Tilopa. Ele não somente recebeu mas também praticou assiduamente até também, como Naropa e Tilopa, obter o resultado final de realização completa e torna-se um mahasiddha. Falando a respeito do que aprendeu e realizou, ele disse em uma de suas canções "Eu entendi tão completamente que mesmo se todos os Buddhas do passado, presente e futuro aparecessem diante de mim, eu não teria uma simples questão para perguntá-los."

Naropa profetizou que todavia a linhagem familiar de Marpa não continuaria, mas sua linhagem de Dharma duraria muito tempo e seria muito difundida. Naropa disse "Sua linhagem de Dharma será igual à correnteza de um rio vasto." Correspondendo a essa predição, Marpa retornou ao Tibet e começou a treinar seus discípulos. Como também foi predito, entre seus discípulos numerosos, 4 seriam considerados os mais significantes. Eles eram: Nhotchu de Shung, Metöm de Tsang, Tsöndön de Dul e Milarepa de Gungtang. Cada um deles recebeu uma linhagem em particular de Marpa. No caso de Nhotchu Dodje a linhagem foi de explicações em geral e especialmente a explicação do Tantra de Kye Dodje. No caso de Metöm Tsonpo, a linhagem foi a prática de Ösal (clara luz). Para Tsöndön foi a prática e explicação do Tantra Pai Sangwa Dupa (Guhyasamaja). No caso de Milarepa, foi a prática de Tummo (chandali – calor interno).

Dentre esses quatro, seu principal discípulo foi Djetsun Milarepa, o qual ficou famoso no mundo. A linhagem especial que ele recebeu de Marpa foi a da aplicação prática através da sua diligência na prática da meditação. Milarepa tornou-se um mahasiddha obtendo em uma vida e em um corpo o estado de Dodje Tchang, o estado de total despertar. Dessa maneira, ele plantou a bandeira da vitória de realização, através da diligência e prática. Como resultado, sua tradição, a tradição Kagyu, incluindo a Karma Kagyu, é considerada ter a maior aplicação prática na prática da diligência.

Milarepa teve inumeráveis discípulos, que também se tornaram mahasiddhas. Entre todos eles, dois são considerados mais significantes por continuar sua linhagem. Um deles foi o discípulo do qual foi dito ser igual à lua, cujo nome foi Retchungpa. Sua realização foi tal que na hora de seu falecimento ele foi para Tchang Lotchen, a terra pura do Bodhisattva Tchanna Dodje (Vajrapani), de quem ele é uma emanação. A linhagem de Retchungpa, que não é separada, mas sim um conjunto de ensinamentos mantidos dentro da linhagem Kagyu em geral, é conhecida como a linhagem oral secreta de Retchungpa ou Retchung Nying Gyu. Isso tem sido mantido através dos tempos. Entre seus detentores mais conhecidos estão várias emanações de Retchungpa, tal como Tsang Nyön Heruka que compôs as bem conhecidas biografias de Marpa e Milarepa.

marpaO outro disc ípulo principal de Milarepa, e realmente seu mais famoso discípulo, foi aquele que foi igual ao sol, o inigualável Gampopa. Sua vinda foi profetizada pelo Buddha em três Sutras bem conhecidos. Como o Buddha disse, Gampopa foi cercado por um séqüito de 500 discípulos que, como ele mesmo, foram Bodhisattvas, 500 discípulos que não foram Bodhisattvas e mais 800 que foram praticantes intensos de meditação. Dentre todos seus discípulos, mais conhecidos foram três do leste do Tibet ou Kham, que são mais conhecidos como os três Khampas, e deles vem os ramos da linhagem Kagyu. O nome genérico para a linhagem Kagyu, que inclui todas as subdivisões que vem de Gampopa, é a Dagpo Kagyu por causa do monastério de Gampopa que ficava na província de Dagpo.

A linhagem que vem de Gampopa, que geralmente é chamada de Kagyu, tem 12 subdivisões, cada uma das quais também chamadas de Kagyu. Elas são chamadas de as 4 divisões primárias e as 8 secundárias. A primeira das 12 é a linhagem do próprio monastério de Gampopa, a qual tem o nome do local do monastério e é chamada de Dagpo Kagyu. Ela foi passada por Gampopa para seu sobrinho Gomtsul Tsultrim Nyingpo, que foi o detentor após o falecimento do tio. A segunda divisão primária foi fundada por um discípulo do sobrinho de Gampopa chamado de Lama Shang. Esta é a Tsalpa Kagyu. A terceira das linhagens primárias foi fundada por um dos três Khampas, que era um discípulo direto do próprio Gampopa. Durante seu tempo este discípulo era conhecido pelo apelido de Üser, ou também como Khampa Üse. Ele agora é conhecido principalmente como Düsum Khyenpa porque ele foi o primeiro Gyalwang Karmapa. A linhagem que ele fundou é nomeada de Karma Kagyu, que é a nossa tradição. A quarta linhagem foi fundada por um discípulo de Gampopa, que não era um dos três Khampas, chamado Baramdharma Wangtchuk e esta linhagem ainda está ativa. Ela é a Baram Kagyu.

Voltando aos três Khampas, nós vimos que um deles foi o 1º Gyalwang Karmapa, fundador da Karma Kagyu. O 2º foi conhecido como Saltong Shogam. Ele não fundou uma linhagem no mundo humano, assim não há linhagem que detém seu nome. Seus ensinamentos naquela vida foram primordialmente entre os espíritos, mas ele continuou a reencarnar. Sua reencarnação, Traleg Kyabgön Rinpotche, é uma das principais reencarnações do monastério de Thrangu, que é um dos principais monastérios Karma Kagyu. O terceiro dos três Khampas era chamado Dodje Gyalpo, ou algumas vezes ele é conhecido como Phagmodrupa. Todas as oito secundárias divisões da linhagem Kagyu vem dele.

milarepaA primeira das oito linhagens secundárias é a Drikung Kagyu, a qual sobreviveu e é bem ativa não somente no Tibet e Índia, mas também no ocidente. A segunda é a Talung Kagyu, que é também ainda um pouco ativa. A terceira é a Tropu Kagyu, que é menos conhecida. A quarta é a Ling Re Kagyu, mas agora ela é mais conhecida sob o nome de Drugpa Kagyu, e é bem ativa. Ela é tão ativa que tem 4 subdivisões baseadas em geografia: oeste, leste, centro e sul. A Drugpa Kagyu do sul é a religião de estado do Bhutão. Na sua própria língua o Bhutão é chamado de "Drug", por causa da linhagem. Daí, a quinta, sexta, sétima e oitava linhagem são as MartsangKagyu, Yerpa Kagyu, Yampa Kagyu e Shugseb Kagyu.

A última destas linhagens mencionadas, Shugseb Kagyu, tem continuamente preservado sua sede no Tibet central, que é o convento de Shugseb. É uma linhagem em que os ensinamentos e práticas são conduzidos principalmente por mulheres ordenadas. Ainda que as outras linhagens menores não tenham desaparecido, elas não têm a mesma estabilidade como a Shugseb ou os quatro primeiros ramos mencionados.

Entre todas as estas 12 linhagens, aquela que é a mais difundida e a melhor conhecida, tanto no Tibet e certamente no ocidente, é a Karma Kagyu. Ela também é conhecida como Karma Kamtsang. Foi dito pelo Buddha que, enquanto os ensinamentos dos mil Buddhas deste afortunado kalpa perdurar, os ensinamentos do Gyalwnag Karmapa não cessarão.

gampopaEntretanto, a Karma Kagyu não é a única forma de linhagem Kagyu. Originalmente, havia duas linhagens distintas no Tibet que eram, e ainda são referidas comumente, como Kagyu. Elas são a Marpa Kagyu, a linhagem de Marpa, e a Shangpa Kagyu, cada uma delas tendo muitos ramos. Marpa Kagyu é a linhagem que foi explicada. É a dos ensinamentos de Naropa e Maitripa, que foram levados ao Tibet por Marpa e transmitidas através do tempo. A outra tradição Kagyu original, a Shangpa Kagyu, foi iniciada pelo desperto erudito e iogue Tchungpor Naldjor, que foi principalmente o discípulo da irmã de Naropa, cujo nome era Niguma. A Karma Kagyu é uma das quatro principais divisões dentro da linhagem Marpa Kagyu.