Em dezembro de 1978, uma mulher americana de 28 anos, Suzi Joy Albright (ordenada como Karma Wangmo) entrou em um retiro solitário de 12 anos numa pequena cabana que ela mesma ajudou a construir com suas mãos em terras do monastério Karma Triyana Dharmachakra, de Sua Santidade o 16° Gyalwa Karmapa, em Woodstock, Nova York. Ela já havia completado três retiros de ngöndro, ou práticas preliminares, e 200 dias de prática de retiro de Nyungney. Em uma entrevista publicada em Chö Yang 3, o atual Tai Situ Rinpoche se referiu a ela como "o melhor praticante".
Que uma mulher ocidental tivesse a coragem e determinação de realizar um retiro tão longo, raro mesmo entre praticantes tibetanos, necessariamente despertou muita curiosidade. Algumas informações vazadas pela equipe do monastério indicavam a intensidade da prática de Wangmo. Khenpo Karthar, o abade residente e mestre de retiro de Wangmo, a comparou a Milarepa; não importando a dificuldade das práticas que lhe fossem determinadas, ela nunca reclamava, respondia apenas com alegria. No entanto, quando no final de 1990 se aproximava a época marcada para o fim do retiro de Wangmo, muitas pessoas se perguntavam que tipo de pessoa iria sair de lá.
Wangmo é alta e de constituição sólida, com mãos e pés que seriam mais adequados a um trabalhador braçal, mas, apesar disso, passa uma imagem graciosa. Talvez sua mais marcante característica seja sua independência emocional. Seu desapego é tão completo que chega a ser desconcertante.
Quando eu observei, por exemplo, que poderia ser difícil para ela fazer suas práticas diárias em frente a estranhos durante a viagem de ônibus de três dias na qual ela embarcaria imediatamente depois desta entrevista, ela encerrou o assunto rapidamente com a observação: "Sim, mas um compromisso é um compromisso, e isso é tudo". A determinação de seu tom de voz foi uma lembrança do quanto é comum para a maioria de nós deixar considerações mundanas se sobreporem à prática do dharma.
Seu caminho foi altamente extraordinário, especialmente para um praticante ocidental. Você teve algum treinamento religioso, cristão ou não, durante sua infância?
Minha família não era ligada a nenhuma organização religiosa. No Arizona, onde eu cresci, o único contato que tive com a religião foi através da população mexicana e dos mórmons. A visão de crucifixos e de pessoas fazendo pregações de porta em porta não tinha atração para mim. Minha impressão da religião era de que era algo praticado por trabalhadores incultos, baseada na superstição. Não via nada de convidativo nela.
Você ao menos tinha uma tendência pessoal à espiritualidade, naquele tempo?
Lembro que na escola primária eu desenvolvi uma tendência à religiosidade, senti necessidade de rezar e tive uma sensação da existência de um poder superior, mas durou pouco tempo. Eu não sei o que causou isso.
Quando criança, você pensava bastante em ajudar os outros?
Não acho que pensasse nisso mais do que as outras pessoas. O que me interessava era sempre a mente, como ela funcionava e o que a fazia operar de maneira deficiente. Quando eventualmente fui para a Universidade do Estado de Arizona, me formei em psicologia, mas no primeiro ano abandonei a faculdade para viajar, com a intenção de passar um semestre fora. Acabei viajando por três anos.
Você foi para o oriente por já estar interessada no budismo?
Não, nessa época foi apenas por aventura. Eu amava viajar, tendo um coração de nômade, então dei a volta ao mundo através da Europa, América do Norte, Ásia, Pacífico Sul e assim por diante. Enquanto trabalhava na Austrália, uma amiga com quem eu tinha cruzado a Ásia voltou para o Nepal onde se envolveu com os budistas. Eu não tinha interesse em budismo, mas depois de terminar meu curso na Universidade do Estado do Arizona fui para o centro do Lama Thunten Yeshe em Kopan só para vê-la. Isso foi em 1974. Quando cheguei, me senti completamente desinteressada de tudo aquilo. Muitas pessoas lá pareciam doentias, mental e fisicamente. Lembro de perguntar para a minha amiga: "Isso é que é o budismo?", e pensar "Se isso é a meditação, quem precisa disso?". Mesmo assim, eu assisti a um curso com a duração de um mês, ensinado pelo Lama Zopa. Nessa época, minha atitude era estritamente a de uma espectadora, não estava de forma nenhuma envolvida como participante. Por isso, demorei a começar com as prostrações. Parecia apenas ser mais uma viagem em que essas pessoas estavam envolvidas. Mas quando o Lama Yeshe entrou, juro que ele estava luminoso. Você podia sentir imediatamente que essa pessoa sabia algo que a maioria das pessoas não sabe. Meu pai era um professor universitário, conheci muitas pessoas educadas, mas ninguém que fosse um sábio. O Lama Yeshe era tão sábio quanto se pode ser. Sua compaixão e sabedoria eram tão evidentes que você ficava realmente impressionado com a sua presença. Muitas pessoas podem falar sobre o dharma, mas eles não têm esse efeito sobre as pessoas. Sempre o encarei como um Buda. Se ele não fosse um Buda, não sei o que mais poderia ser. Foi depois que ele chegou que eu comecei a fazer prostrações.
Quando você decidiu tomar refúgio?
Lama Yeshe estava dando votos de refúgio e preceitos leigos no fim do curso de Kopan, mas eu não tinha intenção de assumir compromissos. No entanto, um dia eu estava levando seu mastim tibetano para dar uma caminhada, quando surgiu outro cachorro enorme que se encostou em mim, como se estivesse pedindo proteção. Nós três estávamos lá, contemplando um lindo vale com uma manada de búfalos d'água. Era como uma cena da Disney. Todos esses animais pareciam estar olhando para mim, me lembrando do precioso nascimento humano, de maneira que senti uma obrigação de tomar refúgio e um voto: não matar. Quando corri de volta e pedi para tomar refúgio, me disseram que eu tinha que tomar ao menos dois votos. Isso na mesma hora cortou meu impulso! Eu não tinha a intenção de atrapalhar meu estilo de vida a esse ponto. Até essa época eu tinha levado a vida de uma hedonista feliz. Crescendo nos anos sessenta você tinha todas as opções em termos de prazeres sensuais. Eu imediatamente descartei os votos de não tomar substâncias intoxicantes e não me engajar em má conduta sexual e, em vez disso, decidi tomar o voto de não roubar, coisa que eu nunca gostei particularmente de fazer. Mas foram os animais que inspiraram tudo isso. Eles sempre tiveram um grande impacto na minha motivação de fazer a prática - mais do que a maioria das pessoas. Eu detesto pensar no motivo por que tenho uma conexão tão próxima com os animais, talvez nós fôssemos ainda mais próximos em minhas últimas vidas! Quando, mais tarde, eu fiz Nyungne por sete meses em uma casa numa árvore não muito longe de Woodstock, eu tinha comigo um enorme gato persa. Ele era surdo, quando eu fazia a prática de Cherenzig ficava sentado no meu colo e eu podia tocar meu sino em cima da sua cabeça sem incomodá-lo.
Quando você chegou a tomar os votos de monja?
Tudo aconteceu muito rapidamente. Depois de frequentar o primeiro curso em Kopan em novembro de 1974, eu fiz um retiro de grupo de Lam Rim por vários meses, depois um retiro solitário de Vajrasattva em Dharamsala por três meses. De fato, desde essa época eu tenho ficado em retiro quase constantemente com apenas curtos intervalos entre eles. Em novembro de 1975 eu retornei a Kopan e recebi do Lama Yeshe os dez votos e as vestes monásticas, com o plano de ir para Dharamsala tomar ordenação na tradição gelugpa com o Dalai Lama. Mas por volta de março de 1976 o 16° Karmapa veio oferecer um ciclo de wangs Kagyu com um mês de duração. Eu participei disso com as bênçãos do Lama Yeshe e decidi ser ordenada pelo Karmapa na tradição Kagyu.
Então, em um ano, você mudou sua disposição de não querer tomar nem dois votos a ponto de chegar a ser ordenada. Foi difícil fazer uma transição tão radical em tempo tão curto?
Nós não sabemos de onde viemos antes dessa vida, mas tenho certeza de que muitos de nós têm conexões budistas muito fortes do passado. Obviamente, em outras vidas, eu era muito conectada com o dharma, então não houve realmente uma decisão consciente de minha parte. Situações e circunstâncias surgiram de forma que os retiros estavam lá e eu estava lá, e tudo se encaixou em relação a fazer esses retiros. Fui, então, impelida a seguir nessa direção, e não existiram obstáculos particulares. Eu não me senti particularmente merecedora de tudo isso, mas estava consciente de que devia fazer isso. O tempo que passei em retiro foi o único em que eu senti que estava fazendo o que devia fazer com minha vida. Isso até transcendia o contentamento, por ser tão natural. Quando existe o contentamento, há uma certa dose de separatividade envolvida, mas em relação à situação de retiro, era algo natural de ser feito. Talvez isso seja estranho, devido ao lugar onde eu estava, mas em certo sentido, ser obsessivo-compulsiva em relação aos prazeres sensoriais pode ser útil quando você está praticando. O que a levou em uma direção pode ser redirecionado. Além disso, sou do tipo radical. Não consigo me mover com moderação. Lembro do Lama Yeshe usar a frase: "Integre o dharma à sua vida". Em minha vida, isso seria como misturar água e alcatrão. Então eu teria que desistir de um ou de outro, ou teria que esquecer o dharma. E havia um lado de mim que teria preferido isso! Mas o dharma tira todo a graça do samsara. Você fica com a ignorância, mas sabendo o suficiente para se sentir miserável. Eu nunca quis ser uma monja, mas a ordenação parecia ser parte do processo. Milarepa disse: "Se você quer fazer alguma coisa de útil com sua vida, siga meus passos". Eu realmente acredito nisso. Então isso foi o que determinou meu caminho. Mas ainda não consigo me acostumar com ser uma monja. Eu vejo outras pessoas ordenadas, e penso sobre elas como sendo monjas, mas não me acostumo muito com isso. Eu nunca poderia viver em um ambiente monástico. Sou basicamente uma pessoa solitária, uma introvertida extrovertida.
Houveram vários eventos trágicos em sua família: o suicídio de seu pai e a morte de seu irmão no Vietnam. Esses eventos tiveram alguma influência na vida que você escolheu?
Eu não acho que foram um fator determinante. A ordenação foi algo que transcendeu essa vida particular. Mas deram um impacto maior aos ensinamentos. Isso acontece com todos quando a tragédia se abate perto de suas casas, as idéias de apego e morte se tornam claras. Você vê a futilidade dos relacionamentos, sejam eles muito próximos ou desagradáveis. Todos eles terminam. Nós gastamos uma energia tremenda com coisas de tão curta duração.
Você gostaria de compartilhar suas impressões sobre o 16° Gyalwa Karmapa, que se tornou seu lama raiz?
Situações boas aconteceram, mas é melhor não falar sobre elas porque se falarmos, perdem seu valor. Mas sempre foi fácil ficar perto dele, fisicamente ou de outras formas. Na verdade, eu não o via com tanta frequência, mas ele sempre aparecia no momento exato em que eu precisava de orientação. Por exemplo, ele veio à minha cabana de retiro na KTD quando eu estava deliberando sobre quanto tempo devia passar em retiro. Pensei, em cinco minutos com Sua Santidade eu posso deixar isso resolvido. E foi esse o tempo que ele demorou para me dar permissão para permanecer em retiro por doze anos.
Qual foi sua motivação para entrar em um retiro de doze anos?
Em dezembro de 1978 eu comecei com a intenção de fazer um retiro de três anos. Khenpo Karthar, o abade da KTD, tinha me dito: "Você constrói uma cabana, e eu vou lhe ensinar". Então trabalhei como ajudante de saúde em Woodstock enquanto fazia meu terceiro ngöndro, e o dinheiro que ganhei, mais as contribuições que recebi, tornaram possível para mim construir uma cabana com a ajuda de voluntários, gastando apenas algumas centenas de dólares. Sobre ter estendido a duração do retiro para doze anos, existe um ciclo de doze anos no calendário tibetano, e Milarepa meditou em retiro por doze anos. Achei que, tendo a oportunidade e a bondade da KTD em me apoiar, seria uma coisa maravilhosa de fazer. Em algum outro nível, tenho certeza que essa idéia já estava latente muito antes de ter aflorado em minha mente, porque Sua Santidade parecia ter a mesma coisa em mente.
Durante esse tempo, você experimentou algum dos obstáculos interiores ou exteriores que muito yogis normalmente encontram, quando em retiro?
Com toda a honestidade, não. Eu fui muito afortunada, porque nunca fiquei realmente doente, o que é raro em um período de doze anos. Fisicamente eu estava ótima, e mentalmente tudo foi tão bem quanto eu poderia esperar que fosse [isso com uma risada]. É claro que eu podia ouvir o monastério sendo construído desde o primeiro dia, mas o barulho não foi um problema, porque se tornou tão familiar. Também quero dizer que qualquer pessoa que tenha, como eu tive, Khenpo Karthar como mestre de retiro, é muito afortunada, e não precisa procurar mais nada. O homem é tão puro quanto se pode ser, e tão sábio quanto se pode querer que um professor seja.
Em linhas gerais, você me contou coisas que indicam que você tinha uma atitude mental incomum, mesmo antes de se envolver com o budismo - por exemplo, você sempre encarou a idéia de um período ilimitado de vida com aversão. Essa visão foi despertada em você por ter experimentado muito sofrimento pessoal?
A morte sempre me pareceu um grande alívio. A velhice não era obviamente uma situação atraente para mim, porque o corpo falha. E eu sempre tive uma relação com meu corpo que, quando ele me falha, isso é incrivelmente frustrante. Eu admiro pessoas que perderam as pernas ou são quadriplégicos e conseguem lidar com isso. Eu acharia isso excruciante. Por outro lado, permanecer jovem para sempre também seria tedioso, como o clima na Califórnia. Sem estações, sempre com o sol brilhando. Mas não foi o sofrimento que me fez sentir dessa forma. Não sou dessas pessoas que diz que a vida é miserável, porque ela certamente não é. A vida pode ser maravilhosa, as pessoas podem ser felizes, existe amor e esse tipo de coisas. Você não tem que sofrer, se não quiser. Se você se mover suficientemente rápido, você pode tirar prazer de suas orelhas! Mas isso se torna um estímulo constante; pessoas como essas se tornam zumbis. E, de qualquer forma, os momentos bons são tão curtos. Então, a coisa principal que me dava o que pensar era, qual o sentido da vida? Cada uma de suas fases é tão temporal, e de qualquer forma você não ia querer que elas durassem para sempre.
Você teve, em seus longos anos de experiência de retiro, algumas realizações sobre a vacuidade e 'um só sabor' que possa compartilhar?
A realização tem que ser algo experimentado. Todo o falatório desse mundo não vai ajudar alguém a entender do que se trata a vacuidade; só a meditação pode fazer isso. Pode ser mais um obstáculo do que uma ajuda o entendimento intelectual da realização. Muito já foi falado sobre a vacuidade, mas obviamente pouco foi experimentado, porque existem poucos seres realizados.
Depois de permanecer em retiro por tanto tempo, o que envolvia um compromisso de não ver ninguém, você emergiu em dezembro de 1990 e encontrou muitas pessoas presentes, algumas vindas de longe para participar da cerimônia que foi feita para você. Você pode descrever seus sentimentos sobre uma mudança tão radical de situação?
Durante o retiro, Khenpo Karthar tinha dito: "Faça como se você fosse um ladrão se escondendo". Então, por doze anos, fiquei ligada nisso. Lembro de uma vez ver minha imagem refletida no aquecedor e me esquivar, pensando ter visto alguém. Ocasionalmente, por acidente, eu via um pé ou um braço de alguém vindo para deixar comida na porta da cabana, mas isso era tudo. Existe um intensidade necessária para manter o tipo de solidão necessário às práticas de retiros. Então, de repente você sai e vê todas essas pessoas e elas vêem você! Era o absoluto contrário do modo como eu vinha vivendo, no entanto não era uma experiência completamente estranha. Você apenas se adapta às situações à medida em que elas surgem. Ter passado tanto tempo na solidão, no entanto, faz sua identidade se tornar muito diluída. Muitas pessoas que viviam na KTD quando eu saí não estavam lá quando eu entrei. Seu único contato comigo eram os pratos e roupas sujas que eu deixava na soleira de minha porta. Eu sabia que poderia cair morta e a única maneira que eles teriam para saber seriam os pratos, que não seriam colocados do lado de fora. Provavelmente muitas pessoas que estavam ajudando a alimentar aquela "coisa" estavam curiosos sobre o que é que sairia de lá.
Você me dá a impressão de ser a pessoa mais desapegada que já encontrei. Foi esse o motivo de você ter se adaptado facilmente às situações de retiro ou isso foi o resultado de longos anos de práticas solitárias?
Quando era criança eu tinha tantas atividades sociais quanto qualquer outra pessoa, mas sempre me senti confortável sozinha. O único desconforto que sentia era por achar que deveria me sentir desconfortável! Eu nunca fui particularmente carente nos relacionamentos. As pessoas eram mais apegados a mim do que eu a elas. Nunca me apeguei a ninguém a ponto de não poder deixá-lo - com muita facilidade. Considero o apego a pessoas como sendo pior do que o apego aos vícios, porque com aquele você está atrapalhando outras pessoas, fazendo com que elas se afundem. A prática do Dharma se torna difícil para elas se elas estão atadas por relacionamentos.
Quando estava em retiro, você se sentia em algum nível conectada ao mundo, ou você estava num espaço tão diferente a ponto de seu retorno tenha sido um choque?
Sempre senti que estar em retiro era resultado de um projeto de grupo. Ocasionalmente eu recebia cartas emocionantes de pessoas que diziam o quanto inspiradas elas ficavam por saber que eu estava fazendo a prática, e que isso as ajudava. Nunca tive um interesse pessoal por minha prática. Esperava que o retiro de doze anos que estava fazendo inspirasse outras pessoas a fazê-lo. Não importa que tenha sido eu, ou o quanto ele tenha sido feito mal feito. O importante é que estava sendo feito. Eu sabia que, por doze anos, nada podia interferir com ele, sentia que tinha que fazer isso. Era apenas uma pequena contribuição para o cosmos, pelo que ela pudesse valer. Mas não era algo que apenas eu estivesse fazendo, estávamos todos envolvidos. As pessoas que me apoiavam enquanto eu estava em retiro também estava criando um bom karma.
Mas, abordando o aspecto social, foi um choque ver como o crime, por exemplo, tinha aumentado desde quando você entrou?
Na verdade, eu estou impressionada com as qualidades que vejo em pessoas que nem mesmo são budistas. Elas têm uma tremenda quantidade de compaixão, em muitos casos mais do que muitas pessoas que têm sido budistas por muito tempo. Acho que, em muitos casos, não existem mais problemas hoje do que costumava haver antes, mas as pessoas estão mais conscientes deles. Sua Santidade, o Dalai Lama, fez uma boa observação (na recente iniciação de Kalachakra dada em Nova York), de que o fato de que as pessoas ficam tão chocadas com as notícias é uma indicação de quanto compassivas elas são. Fazemos tanto estardalhaço com essas manchetes sobre esses pesadelos atrozes porque as pessoas ficam perturbadas com eles. Por esse motivo, eles vendem jornais. Mas não existe um problema, não importa quanto distante da realidade seja, que não tenha seu próprio grupo de apoio. Todas as questões que têm possibilidade de surgir estão sendo abordadas.
Você optou por não ser chamada de Ani-la. Qual foi o seu motivo para isso?
Ani significa apenas monja. Entre os tibetanos isso não é depreciativo, mas, assim como muitas pessoas não querem ser chamadas de "garoto" ou "garota", não gosto de ser chamada de Ani. Encaro isso como sendo um tanto depreciativo, mas isso é só uma visão particular minha. De qualquer forma, nunca realmente me vi como uma monja. Wangmo é a versão abreviada do nome que recebi na ordenação. Não me ligo a títulos. Acho que é perfeitamente aceitável chamar alguém pelo nome em vez de usar um título. Isso é confortável para mim.
Como você vê o status da mulheres praticantes?
Acho que há mais mulheres praticando no ocidente do que no oriente, e que a situação delas é muito boa. Ninguém vai impedir ninguém de atingir a iluminação. Tudo o que precisamos é de termos a oportunidade receber os ensinamentos e que a nossa própria situação kármica seja favorável a ponto de termos a capacidade física e mental de praticar. Isso fica por conta do indivíduo, ninguém vai se iluminar por procuração. Se alguém quer aplicar o esforço necessário na esperança de beneficiar todos os seres sencientes e atingir a iluminação, ninguém vai impedi-lo. Alguns dos praticantes mais fortes que encontrei são mulheres, porque todos dizem para elas que elas não têm realmente que fazer isso. Então as mulheres resolvem fazê-lo são geralmente muito determinadas e diligentes.
Você tem alguma noção sobre seu papel futuro no dharma?
Lama Yeshe me disse em um momento especial: "Você vai ensinar. Pode contar com isso." Então eu espero que isso aconteça, apesar de não ser algo familiar para mim me colocar em frente de um grupo de pessoas para dar palestras. Nunca recebi o treinamento formal que se recebe em um ambiente monástico, onde você vai à escola por muitos anos, então realmente sei muito menos sobre a filosofia budista do que a maioria das pessoas que andam por aqui. Então, por que deveria ensinar? No entanto, me sinto obrigada a fazer alguma coisa. Quando se esteve nisso por doze anos, é preciso que se fique disponível de alguma forma. Antes de sair do retiro, perguntei para Khenpo Karthar se eu podia ficar em retiro pelo resto da minha vida. Ele disse: "Você pode, se quiser". Eu sabia que devia sair, apesar disso, porque minha mãe idosa queria me ver, e talvez algumas outras pessoas poderiam, por algum motivo, querer que eu estivesse por perto. Também porque basicamente gosto de apresentar seres sencientes ao dharma. Se uma mosca pousa em minha perna, acho que isso é auspicioso para nós duas e digo, vamos aproveitar ao máximo essa situação. Breve vai haver um retiro de três anos começando no novo centro de retiro da KTD, e parece que vou ajudar fazendo alguma tarefa.
Durante seus anos de retiro você tinha um cartaz na porta de sua cabana que dizia: Buda ou Fracasso. Você gostaria de comentar até onde você progrediu em direção a essa meta?
Esse ainda é o slogan! Não quero, de forma nenhuma, fingir que sou iluminada, mas, mesmo intelectualmente, você sabe qual é a meta e pode ver o progresso que faz. Posso ser uma boba, mas ao menos tenho suficiente bom senso para continuar praticando. Você nunca chega a um estado onde possa dizer: "Sou muito impura para praticar". Você nunca está doente demais para tomar remédio. Quando encontrei Kyabje Sakya Trizin, ele disse: "Você deve ser realizada, como fez um retiro de doze anos". Eu respondi: "Eu só continuo praticando".
Existe alguma coisa que você gostaria particularmente de dizer para as pessoas que possam ler isso e outros praticantes?
Apenas como uma fala inspiradora para todas as pessoas praticando no cosmos, que algumas vezes se sentem isoladas, especialmente as mulheres, que podem se sentir um pouco alienadas da hierarquia budista masculina: existe espaço para todos, e é importante que todos pratiquem e que ninguém seja apartado de ninguém. Existem pessoas que podem ter empatia por qualquer problema que você esteja experimentando. É útil nos mantermos em contato uns com os outros, e interagir quando necessário. Se você lembrar que sua motivação é beneficiar todos os seres sencientes, você não pode errar. Se você estiver praticando para si próprio, pode ficar entediado, ou decidir que não quer mais continuar com esse hobby. Enquanto você tiver clareza em seu coração, não importa quanto sua prática esteja sendo mal feita, você só continua praticando e tudo o mais eventualmente vai se encaixar.
As pessoas acharam você muito mudada depois que você saiu do retiro?
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