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Preliminares extraordinárias do Mahamudra

pelo 9° Khenchen Thrangu Rinpoche

As preliminares do Mahamudra incluem as preliminares comuns, que chamamos de ngöndro, e algumas preliminares extraordinárias.
Sem dúvida, vocês receberam instruções sobre as preliminares comuns, segundo as tradições de Kalu Rinpoche, Trungpa Rinpoche ou Sua Santidade o Karmapa. Então, não tenho realmente nada a acrescentar às instruções que vocês já receberam sobre essas práticas. Vou começar falando sobre as quatro preliminares especiais, que são chamadas de "as quatro condições".
Estas quatro preliminares especiais são exclusivas da prática do Mahamudra. Diferentemente do ngöndro, não são práticas separadas, que precisem ser feitas separadamente. Elas são quatro coisas que você precisa entender e manter em mente sobre o ambiente ou circunstâncias que cercam a prática de meditação. Se você entender essas quatro coisas, que são chamadas de "as quatro condições para a prática", você vai aprimorar sua prática do Mahamudra, tanto pelo aspecto shamata quanto pelo aspecto vipashyana.
A primeira das quatro condições é a aversão ao samsara. A aversão é chamada de condição causal, que precisa estar presente para que a meditação aconteça. Essencialmente, a aversão é a lembrança do fato de que, tendo nascido como seres humanos, precisamos fazer um uso correto da oportunidade que temos.
O ideal seria, é claro, poder abdicar totalmente das coisas dessa vida e desse mundo em nossas mentes, mas essa pode ser uma meta pouco realista. Podemos, contudo, pelo menos reduzir nossa fixação e obsessão com as coisas dessa vida reconhecendo que, mesmo mantendo as responsabilidades mundanas que temos que preservar, a prática do dharma é da maior importância. Através do reconhecimento da importância da prática do dharma e da relativamente menor importância das coisas dessa vida mundana, começa-se a praticar a aversão ao samsara.
Em geral, é claro, cultivamos a aversão através da meditação no que são as chamadas "quatro preliminares comuns". A raridade da obtenção das oportunidades e recursos da existência humana, a impermanência, os defeitos do samsara e o resultado das ações. Dentre esses quatro, é especialmente importante neste contexto a lembrança da impermanência. A lembrança da impermanência, que nos encoraja a empreender a prática, e a aversão que ela gera pelo samsara, constituem a condição causal, a primeira das quatro condições.
Se, desde o começo, você tiver facilidade para se lembrar da impermanência, é claro que isso é excelente. No entanto, quando as pessoas começam a meditar sobre a impermanência, muitas vezes acham que isso as deixa tão tristes que passam a encarar a impermanência como uma coisa desagradável de ser lembrada. Mesmo assim, a lembrança da impermanência e até mesmo a tristeza que ela inspira trazem grande benefício.
De acordo com o Buda, existem três benefícios principais da meditação na impermanência. O benefício inicial é que a impermanência, ou sua lembrança, é a condição que nos inspira a começar a praticar o dharma. É através de algum entendimento da impermanência que se tem a inspiração original de começar a prática, de entrar nos portais do dharma. Você poderia então perguntar: "Tendo entrado nos portais do dharma, pode-se então abandonar a lembrança da impermanência?" Não se pode porque, a seguir, a impermanência é o que encoraja a diligência.
Se não continuamos a nos lembrar da impermanência, então apesar da inspiração inicial, podemos desanimar ou perder o interesse pelo dharma. Por exemplo, frequentemente pessoas vêm a mim e dizem: "Eu gosto do dharma, mas não consigo persistir na prática. O que posso fazer para remediar isso?" Eu sempre respondo: "Medite sobre a impermanência!".

E, finalmente, a impermanência é chamada de "a companheira que leva à realização", o que quer dizer que a contínua lembrança da impermanência durante o caminho é o que nos motiva a continuar no caminho e a causa de obtermos o seu resultado. Na melhor das hipóteses, o resultado é o siddhi supremo, mas, pelo menos, através da prática vamos gerar um estado de contentamento com a forma pelo qual vivemos nossa vida por a termos empregado na prática do dharma. Por estes motivos, a lembrança da impermanência é absolutamente essencial e, por isso, chamada de condição causal para a prática da meditação. Por isso, continuem a pensar sobre a impermanência. Não negligenciem a contemplação da impermanência pensando que, por ser tão deprimente, seria melhor evitá-la.
A segunda das quatro condições é chamada "a condição principal". Condição principal diz respeito à confiança no guru. O termo guru, aqui, diz respeito a quatro diferentes aspectos de guru. O primeiro é o guru da linhagem, que é um indivíduo, ou pessoa. O motivo pelo qual precisamos confiar em uma pessoa que possa funcionar como professor, ou guru, que representa uma linhagem autêntica, é que, enquanto nas atividades mundanas existem, sem dúvida, algumas coisas que podemos aprender por nós mesmos, no caso dos samadhis do shamata e vipashyana, que estão além das convenções desse mundo, definitivamente precisamos da instrução autorizada de um indivíduo com experiência nessas questões.
Sendo assim, precisamos confiar em um professor pessoal ou guru raiz. Esse guru raiz precisa representar uma linhagem contínua de experiência prática passada de um indivíduo experimentado para outro. Em resumo, as instruções básicas da meditação não podem ser obtidas através da leitura de livros, ou descobertas por nós mesmos, ou passadas por professores não qualificados por uma linhagem autêntica.
Entretanto, quando confiamos em um guru raiz que representa uma linhagem, também chegamos a confiar no segundo guru, que são as instruções dos sugatas, ou ensinamentos do Buda (e outros seres realizados). Enquanto baseamos nossa prática nas instruções orais de nosso guru raiz, a incrementamos estudando os ensinamentos do Buda, os comentários sobre seus ensinamentos pelos grandes mahasiddhas, e os textos de instrução da linhagem de prática e realização.
Através da complementação das instruções orais de nosso guru feita desta maneira, nós as esclarecemos e reforçamos, nos apoiando nos ensinamentos escritos de outros budas e bodhisatvas. É então importante estudar ativamente os textos do dharma. Em relação a esses estudos, as pessoas frequentemente perguntam: "Quais dos inúmeros livros que existem nós devemos ler?". Você deveria estudar principalmente os textos que falam sobre a prática da meditação, especialmente aqueles que vêm de uma linhagem de experiência prática e transmissão contínua da experiência.
Fazendo isso, você irá esclarecer as instruções que recebeu previamente, para que as coisas que você não entendeu se tornem claras, e vai também se lembrar dos aspectos dos ensinamentos ou instruções de que tenha se esquecido. Então o segundo tipo de guru são as instruções dos sugatas.
Em relação a esse tipo de estudo, que é a confiança no segundo aspecto do guru, se estudamos por mera curiosidade, pelo desejo de saber mais e mais sobre o dharma, isso é, em geral, uma boa coisa, mas não é realmente o enfoque apropriado para o estudo de um meditador. Em geral, a maneira pela qual um praticante deve estudar é procurando instruções que possam remediar problemas específicos que estiver experimentando na meditação. Se nossa meditação é afetada pela falta de clareza, devemos procurar e estudar o que possa aumentar a clareza de nossa meditação. Se nossa meditação é afetada pela falta de estabilidade, devemos procurar e estudar o que possa aumentar a estabilidade de nossa meditação. Se sentimos que temos falta de fé e devoção, devemos procurar e estudar métodos que possam nos ajudar a gerar mais fé e devoção. Se sentimos que temos carência de aversão ao samsara, devemos procurar e estudar aquilo que possa gerar mais aversão. Você estudar para melhorar sua prática, não para adquirir conhecimento que possa repetir para os outros, ou usar para embasar seus debates com os outros. Em resumo, se você estuda para aprender mais sobre como praticar adequadamente, então vai ter com isso grandes benefícios. Essa é a confiança adequada no segundo aspecto do guru, que são as instruções dos sugatas.
O terceiro aspecto do guru é o guru do dharmata, ou verdade absoluta. Isso é o que se chega a realizar através da confiança nos dois primeiros aspectos do guru. Através das instruções orais de nosso guru pessoal e das informações que obtemos do guru, que são os ensinamentos dos budas e bodhisatvas, chegaremos a ser capazes de compreender a natureza das coisas, ou dharmata.
Essa natureza das coisas, que pode ser realizada e deve ser realizada, é o terceiro aspecto do guru. Em geral, ela pode ser chamada de dharmata, natureza de todas as coisas ou, no contexto específico do Mahamudra, natureza da própria mente. De qualquer forma, isso que deve ser realizado é o terceiro aspecto do guru, o guru absoluto do dharmata.
O quarto guru é o guru dos símbolos das aparências, ou das experiências, que é o surgimento daquilo que aparece para você como sinais ou indicações do dharma. Por aparências ou experiências nós queremos dizer, em primeiro lugar, aquelas coisas que aparecem para nós como objetos externos - as formas visíveis, sons, sabores e sensações táteis - todos os quais são, na verdade absoluta, vacuidade, mas que mesmo assim aparecem desimpedidamente como verdades relativas. Por aparências e experiências queremos também dizer os pensamentos que surgem em sua mente: pensamentos de prazer e desprazer, de sofrimento e alegria etc. Essa variedade desimpedida de pensamentos internos e aparências externas é o que é chamado de aparências, ou experiência. As aparências em si mesmas, por demonstrarem a natureza das coisas, são sempre um sinal ou uma indicação daquela natureza, sendo então chamadas de guru dos sinais das aparências.
É claro, se você se fixar nas aparências, essas aparências se tornarão uma condição que o jogará mais para dentro do samsara. Mas se você as encarar de uma forma diferente, sem fixação, então as próprias aparências se tornam o guru, porque a impermanência das aparências é uma lembrança da impermanência, e a vacuidade das aparências é uma indicação da vacuidade. As aparências e suas mudanças e sua variedade podem inspirar a devoção. Não é que as aparências em si mesmas e por si mesmas ensinem o dharma para você; elas o demonstram ou o incorporam. Então, se você entender as aparências, se você as reconhecer pelo que são, elas serão sempre símbolos do dharma, sinais da natureza ilusória das aparências, da natureza onírica das coisas, e assim por diante. O reconhecimento das aparências é, então, o quarto guru, o guru dos sinais das aparências.
A confiança nesses quatro aspectos do guru é a segunda condição, a condição principal.
A terceira condição é chamada "a condição focal", e diz respeito àquilo que você está focalizando, aquilo que você está tentando realizar através da sua prática de meditação. Diz respeito ao objeto das meditações shamata e vipashyana do Mahamudra. Aqui, no entanto, o objeto da meditação não é alguma coisa que seja produzida através de análise especulativa, ou de qualquer tipo de sistema filosófico; ele é completamente separado de qualquer tipo de engajamento em alguma atitude ou posicionamento intelectual. O objeto da meditação aqui é o reconhecimento direto da natureza das coisas exatamente como são, o que é muito superior e muito diferente da especulação sobre as características das coisas através da análise. Essa natureza das coisas é a condição focal, ou objeto das meditações Mahamudra de shamata e vipashyana.
No que diz respeito a essa condição focal, a natureza das coisas é apresentada diferentemente nos vários veículos ou aspectos do dharma. Por exemplo, no veículo comum ela é basicamente apresentada como a ausência de um eu, em particular a ausência de um eu nas pessoas, a falta de existência inerente das pessoas. O benefício dessa apresentação é óbvio. Como a raiz de todos os kleshas é a fixação em um eu pessoal, então a descoberta, através de rigorosa análise, de que não existe um eu pessoal produz alguma medida de liberação dessa fixação, por se reconhecer que essa fixação é baseada em um engano fundamental e, por isso, desnecessária.
Por essa razão, então, a ausência de existência inerente das pessoas é apresentada. Em outros contextos e outros veículos é apresentado que a natureza das coisas é a vacuidade de todas as coisas sem excessão e, através do entendimento dessa vacuidade, se consegue a gradual liberação da fixação, não apenas desse eu pessoal falsamente atribuído, mas também das coisas externas falsamente atribuídas. Aqui, entretanto, nessa tradição incomum ou especial de instruções práticas, nós enfocamos apenas a natureza da mente. Fazemos isso primeiramente porque a raiz de todo nosso prazer e dor não são as coisas externas por elas mesmas, mas a mente que gera essas atitudes ou experiências.
Assim, a determinação da natureza da mente, chegar a um entendimento definitivo sobre ela, é da maior importância. Enfocamos apenas a natureza da mente, em segundo lugar, porque a natureza da mente é muito fácil de se ver e pode ser vista diretamente por qualquer um. Não é necessário especular sobre ela, ou que ela seja compreendida através de análise. Não é necessário gerar expectativas sobre o que é a natureza da mente, baseadas em um engajamento em uma tradição específica, e não é necessário fabricar alguma espécie de entendimento da natureza da mente através de análise. A natureza da mente pode ser reconhecida diretamente.
Sendo assim, a condição focal no contexto do Mahamudra é o reconhecimento direto da natureza da mente, assim como ela é, sem nenhum tipo de compromisso com alguma visão elaborada intelectualmente.
A condição focal é essencialmente o objeto ou foco da própria meditação, aquilo em que nos concentramos ou focamos através dos métodos de shamata e vipashyana. Inicialmente, usamos a técnica de shamata para acalmar a mente até o ponto em que sua própria natureza possa ser facilmente vista ou compreendida. Então usamos os dois aspectos de vipashyana - ver a mente, e identificar, ou apontar, sua natureza - para gradualmente chegar a um reconhecimento definitivo dessa natureza.
A quarta condição é chamada de "condição imediata ou direta". Esta é o motivo, a causa imediata ou direta da meditação, ou condição para a meditação. É a ausência de fixação na meditação e no conteúdo da experiência meditativa, que significa se manter sem grande esperança ou ansiedade em relação ao progresso de nossa meditação, sobre a clareza de nosso estado meditativo etc. É empreender um esforço contínuo de forma estável na prática da meditação sem nenhuma esperança específica de conseguir um certo resultado. É permanecer sem o pensamento: "Eu estou meditando. Esse estado meditativo é obscuro. Preciso torná-lo claro. Oh, isso não é vazio. Preciso de alguma forma fazê-lo parecer vazio, porque espero que ele seja vazio", e assim por diante. Permanecer sem essa construção, sem esses tipos de esperança e ansiedade, esta é a quarta condição.
A atitude de esperar que nossa meditação seja boa e que tenhamos boas experiências tende a corromper nossa prática de meditação. Você precisa ter a atitude de que, se ocorrerem experiências meditativas de qualquer tipo, está tudo bem; se não ocorrerem, também está tudo bem. Se você não tiver esse tipo de atitude intransigente em relação às experiências que surgirem, então quando uma experiência particularmente agradável ou particularmente lúcida acontecer, você vai achar que isso é uma grande coisa. De fato, você vai depois exagerá-la ainda mais, em sua memória. Então, fixado nessa memória exagerada de uma experiência meditativa agradável ou lúcida, naturalmente em sua próxima sessão, vai ficar desapontado, porque aquilo em que você está fixado é, de fato, um exagero do que realmente aconteceu. Esse desapontamento vai ter repercussões que vão gradualmente corromper sua prática. Sendo assim, em sua prática, você precisa simplesmente repousar na natureza do que surgir, seja o que for; se sua experiência meditativa é agradável ou desagradável, lúcida ou entorpecida - não faz diferença. De qualquer maneira, simplesmente observe a natureza daquilo que surgir. Essa é a quarta condição, a condição imediata ou direta.
Essas quatro condições não são quatro práticas separadas de meditação. Não é que você vá começar uma sessão pensando: "Agora eu vou meditar sobre a condição focal" ou "Vou meditar sobre a condição principal", e assim por diante. As condições dizem respeito ao ambiente básico, ou as circunstâncias da prática de meditação em geral, que precisam ser entendidas e lembradas. Através de um entendimento e lembrança dessas quatro condições, se você tiver um empenho deficiente, vai desenvolver seu empenho; se sua meditação estiver sem lucidez, vai desenvolver lucidez; se ela não estiver estável, vai desenvolver estabilidade. Essas quatro condições são importantes tanto para alguém que estiver começando a prática de meditação quanto para alguém que já é experimentado nessa prática. Todos os praticantes precisam lembrar e se apoiar nessas quatro condições. No entanto, apesar dessas quatro condições deverem ser mantidas em mente, elas não são práticas separadas, cultivadas separadamente da prática principal.

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