A natureza de buda

Tai Situ RinpochePelo 12° Tai Situpa (Tai Situ Rinpoche)

A base do ensinamento do senhor Buda é a natureza de buda. É devido à natureza de buda que o Buda pôde ensinar. Cada ser senciente tem o potencial de melhorar e de se tornar iluminado. Podemos melhorar e superar quaisquer degradações que carregamos devido à natureza de buda, que é nossa natureza e essencial, pura e iluminada.

O Buda compartilhou suas descobertas a esse respeito não apenas para reconhecer a existência da natureza de buda em cada ser senciente mas também para guiar os indivíduos para despertarem este potencial inato e ilimitado até o ponto em que realizem completamente suas próprias naturezas de buda e se tornem também budas iluminados.

É importante reconhecer que a natureza de buda não é algo que imaginamos ou criamos a partir do nada. É algo que já existe em cada ser senciente, e o método gradual ensinado pelo Buda é planejado para despertar a natureza de buda sempre presente pelo método de ensinar exatamente como fazer isso aos indivíduos em diferentes níveis de desenvolvimento.

Apesar de todos nós termos a natureza de buda como nossa realidade última, em nossa realidade ordinária, que pode ser chamada de nosso mundo relativo, existem muitas diferenças entre os indivíduos. Por esta razão, o Buda ensinou por diferentes modos. Mais tarde seus ensinamentos foram classificados em quatro categorias principais, Vinaya, Abidharma, Sutras e Tantras. Cada categoria integra todos os ensinamentos, colocando ênfase especial em uma área, em particular. Os ensinamentos Vinaya tratam principalmente da disciplina e apresentam um código moral; o Abidharma trata principalmente da ciência, os detalhes de como o universo é criado e das leis que nele operam; os Sutras focalizam os ensinamentos sobre a compaixão; e os Tantras apresentam os métodos de transformação que podem levar à gradual realização e finalmente à iluminação. A finalidade destes ensinamentos é simplesmente de ajudar os indivíduos a despertar sua essência última, sua natureza de buda.

O senhor Buda introduziu o conceito de natureza de buda quando deu os ensinamentos do Mahayana, particularmente em textos como o Sutra do Lótus, Lankavatara-sutra, e Dasa Bhumi-sutra. Em seu primeiro ensinamento o Buda apresentou as Quatro Nobres Verdades. Essas verdades são: a vida é permeada pelo sofrimento; o sofrimento tem causas; existe um objetivo, porque as causas do sofrimento podem ser destruídas; e existe um caminho, porque existe um método para extirpar as causas do sofrimento. O Buda explicou que, através da disciplina, atenção e ações corretas nós desenvolvemos calma e clareza mental. O desenvolvimento final da calma e clareza mental é a nossa libertação de todas as coisas que obscurecem nossa clara e fresca natureza interior. Isto permite uma profunda e resistente paz interior. O que permanece depois que as degradações se vão é a natureza de buda, cuja essência é a paz. Mesmo nas Quatro Nobres Verdades, o primeiro ensinamento do Buda, ele expressou o princípio da natureza de buda.

Nos ensinamentos tântricos do Buda, a natureza de buda é a base, o caminho e a fruição. A natureza de buda é descrita como não sendo maculada de maneira definitiva por qualquer degradação. É exatamente como o espaço, que não pode ser maculado por nada. Mesmo o ser que está sofrendo no inferno tem a pura natureza de buda.

Um importante ensinamento Mahayana em que a natureza de buda é discutida em detalhe é o Mahayana-uttara-tantra, um dos ensinamentos do senhor Maitreya, que foi transmitido ao grande mestre Asanga. O senhor Maitreya é um grande bodisatva que não está em forma humana, mas é capaz de ensinar a seres humanos que sejam suficientemente avançados para alcançar o nível em que ele ensina. Asanga foi capaz de levar estes ensinamentos ao reino humano. Os ensinamentos de Maitreya são uma sólida introdução para o tema da natureza de buda.

O senhor Maitreya deu cinco ensinamentos a Asanga, dos quais o Mahayana-uttara-tantra foi o último. Ele enfatizou que seus ensinamentos não eram os de um buda, mas um comentário sobre os ensinamentos do Buda. Uttara-tantra tem dois significados. Ele é uttara por ser o mais alto dos cinco ensinamentos dados por Maitreya a seu discípulo Asanga, e é o quinto e último ensinamento.

A explicação do senhor Maitreya sobre a natureza de buda

No ensinamento dado a Asanga, o senhor Maitreya oferece informações abrangentes sobre a natureza de buda sob quatro títulos. É importante estudá-los e aprendê-los.

  • A natureza de buda de todos os seres sencientes
  • Qualidades da natureza de buda
  • Obstáculos que impedem os seres sencientes de reconhecer a natureza de buda, e os meios para superar estes obstáculos
  • Desvantagens de ignorar e benefícios de conhecer a natureza de buda.

Todos os seres sencientes têm a natureza de buda

Os seres sencientes tem a natureza de buda, saibam eles ou não. Podem ser totalmente ignorantes da natureza de buda, podem ter alguma percepção dela ou podem ser completamente despertos, mas em todos estes estágios de desenvolvimento os seres sencientes têm a natureza de buda.

Quando um ser senciente ignora a natureza de buda, sua essência está mesmo assim sempre presente, como uma semente fértil, pronta para germinar. Quando um ser senciente se desenvolve, a natureza de buda se manifesta como conhecimento, sabedoria, bons pensamentos e boas ações. Quando um ser senciente atinge a iluminação, a iluminação é ela mesma a natureza de buda. O indivíduo realiza completamente sua natureza de buda – isso é iluminação.

É no nível absoluto que cada ser senciente é um buda. Não existe diferença entre a natureza absoluta de um ser senciente ignorante e de um buda iluminado. A essência é absolutamente a mesma. A única diferença é que o ser senciente ignora isso, e um buda incorpora isso completamente. O ser senciente é relativamente não iluminado, e de forma inerente é um buda, enquanto um buda é iluminado tanto de forma relativa quanto absoluta. Um buda está, de fato, além do relativo e absoluto, que são designações dualísticas.

O senhor Maitreya explica que cada ser senciente tem o potencial para a iluminação. Não existe um ser senciente que não possa melhorar e, eventualmente, se tornar iluminado. É assim porque cada ser senciente tem a natureza de buda, não importa a que reino pertença. Cada ser senciente é absolutamente perfeito. Relativamente, por causa do que são chamadas, no Budismo, de degradações, os seres sencientes têm incontáveis imperfeições. Degradações são coisas como raiva, orgulho e apego. O objetivo da prática do Dharma é aplicar o método mais eficiente para superar estas imperfeições. Com o método correto, a pessoa pode gradualmente acordar e superar todas as degradações que impedem o reconhecimento da verdade interior e a realização da natureza de buda.

O senhor Maitreya disse que no que diz respeito ao potencial absoluto de um ser, não há diferença entre o ser que é um buda completamente iluminado e um ser totalmente ignorante. Uma afirmativa como essa pode gerar confusão se não houver um claro entendimento da natureza da verdade. A verdade tem dois aspectos: verdade relativa ou mutável e verdade absoluta, imutável. É no nível relativo que surgem as dificuldades. O nível absoluto é puro. É a natureza de buda. No nível relativo ainda não somos budas, mas no nível absoluto somos. No nível relativo encontramos todo tipo de problemas; no nível absoluto não existem problemas. Precisamos entender a real natureza da verdade através deste contraste.

É bom lembrar que existe uma conexão direta entre o absoluto e o relativo. O absoluto é o absoluto do relativo e o relativo é o relativo do absoluto. Não são coisas diferentes. Assim, quando o senhor Maitreya diz que, não importa o quanto ordinária ou negativa uma pessoa possa parecer ser, ela não tem limitações no que diz respeito à sua natureza mais profunda, ele está falando sobre os aspectos relativos e absolutos da verdade. Do ponto de vista absoluto, não existe diferença entre seres que estão sofrendo no samsara e um buda completamente iluminado e livre de todas as limitações. Eles são o mesmo. É bom contemplar esse paradoxo.

Qualidades da natureza de buda

O senhor Maitreya prossegue, explicando que a natureza de buda é ilimitada. Está além do tempo, além do tamanho, além da qualidade, além de qualquer tipo de limitação. De modo absoluto, não existem limitações, mas relativamente existem as limitações, quando um indivíduo se esforça no caminho para despertar.

O senhor Maitreya declara que a natureza de buda é plenamente pura. Ela não pode ser obscurecida, apesar da percepção relativa que temos dela como sendo obscurecida. Cada ser senciente está, a cada momento, pronto para ser iluminado. O único obstáculo é não reconhecer a pureza e a qualidade ilimitada da natureza de buda. Podemos ter uma noção de nossa qualidade ilimitada, mas não a reconhecemos totalmente, então nos tornamos fixados ao nosso eu relativo, o ego. A cada momento somos iluminados, mas não o reconhecemos. Dessa forma, em cada momento em que somos impedidos de reconhecer isso, não podemos ser totalmente iluminados. Essa espécie de dualismo cria todas as causas e condições dualísticas, que se manifestam como mau e bom, claro e escuro, positivo e negativo. É como um longo sonho.

Para despertar do sonho dualístico é necessário fazer certos esforços, que incluem o comportamento correto, acalmar a mente através da meditação e outras técnicas que desenvolvem a percepção e realização. A prática individual toma muitas formas. Pode ser meditação ou pode ser ação. O objetivo é aprimorar nossas percepções, experiências e a expressão de nossa natureza de buda. É fácil, mesmo assim, ser atraído por algo negativo e como resultado se tornar mais ignorante e deludido. O senhor Maitreya disse que até você atingir o nível de um bodisatva de primeiro nível, você pode progredir ou pode se tornar deludido. Depois de atingir o primeiro nível do estágio de bodisatva, você não pode mais se tornar deludido. Apesar da natureza de buda ser ilimitada, relativamente ela pode ser obscura.

Quatro princípios da purificação

O Mahayana-uttara-tantra diz que primeiro precisamos desenvolver um claro entendimento que nos permita respeitar e apreciar as coisas corretas, que nos beneficiam e beneficiam os outros. Quando obtivermos isso, o próximo passo é saber como praticar, isto é, como proceder no nosso desenvolvimento. Precisamos saber o que é certo, mas também precisamos saber o método correto de aplicar e expandir nosso entendimento de forma a não perdermos o rumo. O terceiro princípio é o desenvolvimento da bondade amorosa e compaixão. A bondade amorosa e compaixão vão permitir que nosso entendimento e discernimento sejam cada vez mais bem sucedidos. Se não tivermos bondade amorosa e compaixão, nosso progresso vai parar. Podemos até desenvolver orgulho e regredir. Desenvolvemos a bondade amorosa e compaixão para seguir adiante em vez de andar para trás.

Os estágios de desenvolvimento são descritos como estágios de purificação. Purificamos nossas degradações, então atingimos um estágio mais avançado de realização. O que existe para ser purificado? As degradações que obscurecem a realidade de nossa natureza de buda, que de forma absoluta já é pura, são o que precisa ser purificado. De modo absoluto, não existe nada a ser purificado. No modo relativo, precisamos purificar os obscurecimentos para atingir a pureza fundamental.

Os meios para a purificação são muitos, e o senhor Maitreya dá sugestões específicas. Para superar a ignorância, ele recomenda uma forte aspiração. Pode ser algo simples, tão simples quanto o desejo de fazer aquilo que é certo, ou o melhor que for possível fazer. Mesmo se não soubermos como proceder, tendo a aspiração vamos começar a descobrir a maneira de realizá-la. O resultado da aspiração é o gradual desenvolvimento da sabedoria, a sabedoria que permite ver claramente o que é certo, o que é apropriado e o que é essencial. Quando a sabedoria é desenvolvida, profunda compaixão e devoção vêm naturalmente a seguir. O senhor Maitreya prossegue dizendo que, por causa da profunda devoção e profunda compaixão que surgem como resultados da sabedoria que, por sua vez, é produto da aspiração, a realização vai acontecer.

Se um ser senciente não entende a verdade e por isso se afasta cada vez mais do entendimento correto, este ser senciente está também distante de reconhecer sua natureza de buda. No texto da Asanga são descritos métodos para criar as causas e condições para a purificação, e que aproximam o indivíduo da visão correta. Esses métodos são oferecidos pelo senhor Maitreya sob a forma de quatro princípios.

Depois do cultivo da bondade amorosa e compaixão, o senhor Maitreya descreveu um quarto meio de purificação. Ele recomendou a contemplação para transcender o medo e a ganância.

A fruição gradual

Depois de descrever a condição de purificação em quatro estágios, o senhor Maitreya descreve os diferentes níveis de fruição, ou os resultados da aplicação dos meios de purificação. Ele diz que a fruição significa simplesmente o despertar da essência fundamental, enfatizando o processo gradual de realização. O despertar da natureza de buda de uma pessoa, do início até a iluminação, demora muitas vidas. De acordo com o senhor Maitreya, cada etapa do despertar, cada momento, é uma fruição do momento anterior. Ele dá uma descrição elaborada deste processo.

Diz que primeiro temos que ser capazes de reconhecer que temos degradações, temos negatividade e cometemos enganos. Temos que ser capazes de aceitar isso em vez de imaginarmos iludidamente que não cometemos enganos, que nossas ações são perfeitas ou mesmo quase perfeitas. Temos que ser capazes de aceitar que somos, algumas vezes, neuróticos.

Depois de reconhecermos que temos degradações, podemos aplicar métodos para superá-las. Ao mesmo tempo, precisamos saber que, de modo absoluto, somos perfeitos, de modo absoluto não somos negativos, de modo absoluto não temos degradações. Esse entendimento vai nos ajudar a superar as degradações e negatividades.

Devemos descobrir o mesmo a respeito dos outros seres sencientes. Precisamos ser capazes de ver que estes seres sencientes estão sofrendo. Não somos apenas nós que estamos sofrendo, mas todos os seres sencientes. E precisamos ser capazes de fazer alguma coisa para ajudá-los sempre que for apropriado. Rezamos: “Possa eu fazer alguma coisa por eles”. Precisamos desejar ser capazes de ajudar outros seres sencientes. Isto tem que acontecer primeiro. Enquanto nos esforçamos para superar os sofrimentos dos outros, para ajudá-los, precisamos também reconhecer que todos estes seres sencientes têm a natureza de buda. De maneira absoluta, eles não são neuróticos ou estúpidos, mas perfeitos. Todo este sofrimento e neurose são apenas verdades relativas. Precisamos ver isto.

São estas as fruições que atingimos a cada etapa. Então seguimos gradualmente o caminho para nos tornarmos um bodisatva. O que é um bodisatva? Um bodisatva é um indivíduo que superou a forma ordinária de atividade, e cuja realização é tão avançada que suas ações são sempre puramente motivadas e positivas. Progredimos através dos níveis da realização de bodisatva, do primeiro ao décimo, até finalmente nos tornarmos completamente iluminados, um buda. Estes são as etapas do despertar de nossa natureza de buda.

As quatro rodas

O senhor Maitreya explica alguns métodos fundamentais para progredir no caminho para a realização. Estes métodos são conhecidos como as quatro rodas, porque uma roda pode nos levar de um lugar para outro. Estas quatro rodas em particular podem nos levar do samsara para a iluminação.

A primeira roda é a orientação. Deveríamos seguir uma orientação adequada. Se não tivermos uma orientação adequada, mesmo se nossa aspiração for sincera, teremos apenas nosso julgamento para nos apoiar e, devido a nossa ignorância, ansiedade e ego, esse julgamento pode muitas vezes ser inadequado. Assim, uma orientação correta e verdadeira é necessária.

O Budismo Tibetano sustenta estritamente que tudo que aprendemos ou ensinamos deve ser a continuação de uma linhagem de transmissão. Uma linhagem de transmissão, em termos budistas, pode ser explicada de uma maneira simples. O ensinamento do senhor Buda é um ensinamento baseado em realização. O ensinamento de Buda surgiu como uma manifestação espontânea de sua realização e é, desta forma, um ensinamento de iluminação, que vem de um corpo, fala e mente completamente iluminados. É uma expressão de compaixão e sabedoria. Este é o início da linhagem.

Buda ensinou espontaneamente a seus discípulos. Eles praticaram os métodos ensinados pelo Buda e, por sua vez, os ensinaram a seus discípulos. Cada ensinamento que repassamos no Budismo Tibetano é a continuação da prática do ensinamento original dado pelo Buda, que seus discípulos praticaram e repassaram para seus discípulos, e assim por diante. Esta é a linhagem de transmissão. É também a fonte da correta orientação.

O professor pratica os ensinamentos e os compartilha com quem vem receber seus ensinamentos. Isto é feito, apesar disso, de maneira cuidadosa. No passado, professores fizeram os discípulos passarem por muitos testes antes de repassarem os ensinamentos avançados para terem certeza que o treinamento iria ajudar, e não prejudicar o indivíduo. Um genuíno relacionamento professor-discípulo é algo a ser encarado com seriedade. É um compromisso para o professor e o estudante.

A segunda roda é vivermos nossas vidas de acordo com o princípio do Dharma budista. Quando praticamos o Dharma, é importante viver uma vida dinâmica. Não deveríamos praticar diligentemente por algumas horas e depois nos entregarmos à selvageria pelo resto do dia, esquecendo nossa calma e clareza mental na almofada de meditação. Quando meditamos, cantamos mantras ou fazemos qualquer tipo de prática, deveríamos tomar esta atividade com seriedade não apenas no período formal de prática, mas também fora dele. A prática deveria se estender a todas as atividades de nossa vida diária. Deveríamos viver tão próximo quanto possível dos ensinamentos. Podemos cometer enganos – o que é normal – mas devemos fazer o melhor que pudermos para levar a vida de acordo com os ensinamentos e permanecer tão centrados em nossas vidas cotidianas quanto ficamos ao praticarmos a meditação formal. No vajrayana, tudo se torna meditação. Tudo é fonte de realização. Só pode ser assim, entretanto, quando a mente se mantém sempre clara e calma.

A terceira roda é a conduta virtuosa. A meditação intensiva pode ser um profundo nível de virtude. O aspecto externo da virtude é praticar atos que ajudem os outros. É muito importante para os budistas fazer atividades úteis para outras pessoas. Não deveríamos apenas desenvolver a mente, precisamos também estar conscientes das necessidades dos outros e das maneiras como podemos ajudar a satisfazê-las. Algumas vezes uma pequena ação positiva da parte de um indivíduo pode ter um grande efeito positivo para outras pessoas. A conduta virtuosa pode ser qualquer coisa, salvar vidas de seres, ajudar diretamente aqueles que estão sofrendo ou apenas oferecer uma palavra amável na hora certa.

A quarta roda é aspiração profunda à iluminação. É muito importante manter esta aspiração, porque nos faz prosseguir através das piores dificuldades. Não existe nada de errado com a aspiração ambiciosa de se tornar iluminado. Ela deveria ser um sincero e profundo desejo não apenas de se atingir a iluminação para si próprio, mas de que outros seres sencientes também a atinjam. O senhor Maitreya diz a mesma coisa que encontramos nas principais orações budistas: “Possam todos os seres sencientes atingir a total liberação”. Quanto olhamos para nosso planeta, ou mesmo um único país, vemos quanto trabalho há para fazer. Pessoas nem conseguem conviver umas com as outras na mesma cidade. A perspectiva da iluminação parece distante e inimaginável. O que podemos com sinceridade querer dizer quando oramos para que todos os seres sencientes atinjam a iluminação? Como podemos pensar que isto seja mesmo possível? Mas é possível. É possível porque cada ser senciente tem a natureza de buda.

A realização da natureza de buda

A seguir, o senhor Maitreya explica que a realização e objetivo de nossa pura, perfeita e ilimitada natureza de buda é a iluminação. Todos os seres sencientes, tendo a natureza de buda, vão algum dia atingir a iluminação. Pode demorar um longo tempo para que alguns seres sencientes purifiquem suas degradações e reconheçam sua natureza de buda, mas outros podem se tornar iluminados mais rapidamente. É resultado de como o indivíduo procura o caminho para a realização e de que escolhas são feitas. Uma coisa é certa: todos os seres são capazes de fazer isso, porque sua essência é buda.

O senhor Maitreya prossegue dizendo que os seres ignorantes não percebem sua natureza de buda por causa do aspecto dualístico de suas mentes. A mente dualística de um ser senciente não reconhece a essência de sua natureza. Algum grau de natureza de buda é reconhecido na mente dualística de um bodisatva ou de um indivíduo desenvolvido. Quando uma pessoa se torna um buda, o aspecto dualístico da mente é totalmente purificado. A mente está além do dualismo. A pessoa completamente desperta se torna a incorporação da natureza de buda, transcendendo todas as limitações. Por este motivo, a atividade de um buda é ilimitada. A atividade de um bodisatva é limitada em comparação com a atividade de um buda, e a atividade de um ser senciente comum é extremamente limitada.

Qualidades e características da natureza de buda

O senhor Maitreya elabora sua descrição das características da natureza de buda. Ele diz que a natureza de buda é imutável. Não importa o quanto sejamos ignorantes, nossa natureza de buda permanece a mesma. Não importa o quanto sejamos iluminados, nossa natureza de buda permanece a mesma. É a natureza imutável. A iluminação é a incorporação completa da nossa natureza de buda em todos os níveis de nossa manifestação como seres sencientes. Todas as qualidades do Buda, como as dez grandes forças, e todas as maneiras como definimos e descrevemos as qualidades de um buda – todas essas são qualidades da natureza de buda.

Quando atingimos a iluminação, entendemos a completa dimensão destas qualidades. A atividade de um buda está além do dualismo. Em um sutra o senhor Buda disse: “Nunca ensinei nada”. O que isso quer dizer é que todos os ensinamentos passados pelo senhor Buda foram manifestações espontâneas. Não é simplesmente como uma pessoa falando com outra pessoa. Manifestação espontânea é como o brilho do sol, e leva com ela o real poder de ajudar o desenvolvimento individual. A luz do sol faz tantas coisas. Aquece a semente de modo que ela possa se desenvolver em um broto e se enraizar no solo. A luz do sol amadurece as frutas nas árvores. Ela ilumina. Aquece os oceanos, o vapor sobe e forma nuvens. Tudo isso é manifestação espontânea, sem planejamento, assim como é espontânea a atividade de um buda.

Por sua atividade não ser dualística, um buda pode ajudar outras pessoas. O Buda, que transcendeu a dualidade, é ilimitado, de forma que mesmo que todo o universo recite a prece de refúgio e peça bênçãos ao mesmo tempo, as bênçãos de Buda vão ser distribuídas igualmente, de acordo com a capacidade de cada indivíduo de recebê-las.

Superando os obscurecimentos

Quando o senhor Maitreya discute os obstáculos e como superá-los, ele fala em “obscurecimentos temporários”. Não existe algo como um obscurecimento permanente. Obscurecimentos são sempre temporários. O senhor Maitreya disse que existem incontáveis obscurecimentos, mas definiu nove principais: apego, raiva, ignorância e seis tipos de obstáculos que dizem respeito aos bodisatvas entre o primeiro e o décimo níveis.

O primeiro obstáculo que impede um indivíduo de reconhecer a natureza de buda é o apego. O apego é um obscurecimento muito poderoso, e reforça poderosamente o pensamento dualístico. O apego significa simplesmente que estamos apegados ao ciclo de existência, ou samsara. O senhor Maitreya disse que, através de métodos de transformação, precisamos encontrar uma maneira de estabelecer um equilíbrio, de forma que inicialmente nosso apego se torne um apego razoável, em vez de um apego exagerado. Então lentamente superamos este apego e nos tornamos, não desapegados, mas puramente não apegados. A libertação do apego precisa ser desenvolvida.

Uma das maneiras de superar o apego, de acordo com o texto, é o claro e preciso entendimento da natureza relativa de tudo. O senhor Maitreya diz que uma verdade sobre toda a existência é a impermanência. Onde quer que possamos ir neste mundo, vamos sempre encontrar ruínas de palácios, templos, casas e outras estruturas que um dia foram novas, e usadas diariamente, talvez por séculos. Pessoas em uma época trabalharam duro para construir estes lugares e gastaram muito dinheiro neles, mas agora estas construções não são mais do que monumentos históricos interessantes, ou talvez nem isso.

Quando desenvolvemos o correto entendimento, podemos ainda estar envolvidos em atividades samsáricas, tais como construir casas, carreiras ou relacionamentos, mas não vamos nos apegar a elas excessiva e neuroticamente. Vamos entender que estas coisas não são permanentes. Não têm valor absoluto, mas apenas relativo, porque existem de maneira interdependente e estão sempre mudando. Este é um primeiro passo importante e nos ajuda a evitar sermos facilmente dominados por pensamentos e ações negativas.

Se não tivermos um entendimento claro, vamos ficar com inveja se alguém construir uma casa maior que a nossa. Isso pode parecer ridículo, mas acontece. A congregação de um templo vai tentar deter o desenvolvimento de outro templo dizendo: “Meu Buda é melhor do que o seu Buda”. Todas estas coisas podem acontecer por causa do apego, combinado com outros fatores negativos.

Em seguida o senhor Maitreya ensinou sobre a raiva e agressão. Disse que a raiva é poderosa, embora não tão constante como o apego. Ela vem e vai. O apego é contínuo, especialmente no reino humano, que é descrito como o reino do desejo ou o reino do apego. A raiva é normalmente causada por alguma perturbação que obstrui a realização de nossos desejos. Quando somos apegados a alguma coisa, e algo interfere com nossa posse dela, então ficamos com raiva, e algumas vezes nos tornamos até mesmo agressivos em nossos esforços de conseguir o que queremos. Um dos principais métodos para superar a raiva é desenvolver entendimento do sofrimento e degradações das outras pessoas, e desenvolver a compaixão por elas.

A ignorância é uma das raízes do obscurecimento, assim como o desejo, raiva e agressão. A ignorância é o resultado de não enxergar profundamente as coisas como realmente são, mas ver apenas a superfície. Na maior parte do tempo nem mesmo vemos a superfície corretamente. Em algumas das instruções de prática Vajrayana, grandes mestres escreveram que a maioria dos seres humanos não entende absolutamente os outros. Funciona como um desentendimento total. Mesmo bons praticantes, que fizeram muitos estudos e são altamente disciplinados, podem ser afetados por circunstâncias externas, das quais podem se desenvolver o apego ou a raiva. Pode não ser óbvio, mas o potencial está lá em um nível inconsciente, pronto para surgir sob um estímulo apropriado. Até que se atinja o primeiro nível de bodisatva, a ignorância está presente.

O quarto obscurecimento, o karma, é o resultado da combinação de apego, agressão e ignorância. Karma, que é uma palavra em sânscrito, tem uso tão corrente que aparece em dicionários de inglês. Mesmo assim, não são muitas as pessoas que sabem precisamente o que ele significa, e as pessoas freqüentemente o confundem. Se seus negócios ou seus casamentos estão indo mal, as pessoas podem perguntar. “Será o meu mau karma?”. De acordo com os ensinamentos do Buda, karma significa causas e condições. É claro, são causas e condições que criam fracassos nos negócios ou casamento e outras dificuldades, dessa forma as pessoas assumem “É o karma”. O problema com isso é que uma idéia se fixa na mente que, se a causa é o karma, estamos perdidos; é um destino que não pode ser mudado. Essa idéia é errada, é completamente falsa. O mau karma pode ser melhorado e se tornar bom karma, e o bom karma pode ser destruído e se tornar mau karma. Falaremos mais sobre o karma mais tarde. O karma não existe como uma entidade. Karma é uma palavra que descreve as causas e condições relativas que criam nossas vidas.

O senhor Maitreya chamou o quinto obscurecimento de “estados dualísticos inconscientes da mente” (palcha em tibetano). Esses são estados que estão adormecidos na mente, mas podem se manifestar sob certas circunstâncias e estímulos. É como um monstro adormecido, se for negativo, ou um anjo adormecido, se positivo. É quase como um instinto. É um hábito inconsciente que carregamos conosco de vida para vida.

O próximo obstáculo evita o reconhecimento da natureza da buda, isto é, atingir o primeiro nível de bodisatva. Tornamos-nos um bodisatva de primeiro nível quando entendemos nossa natureza de buda e a verdadeira essência de tudo pela primeira vez. Todas os métodos de práticas de um bodisatva são direcionados a superar os obscurecimentos que impedem o indivíduo de reconhecer sua natureza de buda. O estado atingido ao se reconhecer a natureza de buda é a realização do primeiro nível de bodisatva.

Os obscurecimentos subseqüentes descritos por Maitreya se referem aos cada vez mais altos níveis de realização do bodisatva. São obstáculos dualistas cada vez mais sutis que são superados pelas práticas de bodisatva nestes estágios. Este é um nível onde mesmo os mais altos níveis de sabedoria e entendimento intelectual se tornam obstáculos que necessitam ser purificados. No caso do sétimo obscurecimento, por exemplo, é a própria realização da natureza de buda pelo bodisatva que precisa ser superada.

Quando falamos sobre os níveis de realização do bodisatva, é óbvio que só podemos especular teoricamente. Para entender exatamente o que é um bodisatva de primeiro nível, é necessário se tornar um. Se uma pessoa ordinária se confrontasse com um buda e um bodisatva de primeiro nível juntos, distingui-los não seria tão fácil. Seria fácil confundi-los, porque, a partir do nosso nível dualístico não existe maneira de discernir a diferença. Nos seus níveis, entretanto, um bodisatva de primeiro nível e um buda são bem diferentes, mas as diferenças estão em nível muito sutil para que nossas mentes ordinárias as reconheçam.

Uma pessoa comum tem estados meditativos e não-meditativos. Mas, para uma pessoa comum, o estado não-meditativo de um bodisatva de primeiro nível é como a realização, porque um bodisatva de primeiro ou maior nível, transcendeu a diferença entre estados meditativos e não-meditativos. Seria mais correto falar de um estado pós-meditativo, porque o estado meditativo permeia as atividades de um bodisatva, mesmo quando ele não está engajado em prática de meditação formal. Nesse nível de desenvolvimento não existe nada que não seja entendido ou reconhecido. A realização de um bodisatva não é intelectual, é realização direta. O bodisatva supera a diferença entre estados meditativos e não-meditativos, de forma que ambos se tornam iguais. É claro que para um bodisatva de segundo nível, a realização de um bodisatva de primeiro nível é limitada. Um bodisatva de níveis mais altos de realização pode perceber falhas nos estados mentais de bodisatvas de níveis mais baixos. Isto é natural. Até a iluminação completa, sempre há como melhorar.

Apenas aqueles que estão se aproximando da iluminação completa podem entender a natureza destes obstáculos, mas as descrições são dadas mesmo assim nos textos.

Conhecendo a natureza de buda

A última parte do ensinamento do senhor Maitreya sobre a natureza de buda descreve as desvantagens de não se conhecer a natureza de buda e as vantagens de conhecê-la, sendo cinco de cada uma.

As desvantagens da ignorância da natureza de buda são expostas primeiro, e a primeira delas é a auto-desvalorização. Sem conhecimento de nosso potencial, somos levados a perceber nossos enganos e defeitos como sendo permanentes e parte de nossa natureza essencial, o que é um dos maiores enganos que podemos cometer. Qualquer medida de sabedoria ou realização que tivermos a fortuna de desenvolver pode ser vista como uma forma de auto-engano em vez do que realmente é, um despertar de parte do nosso potencial absoluto. Se desconhecermos a natureza de buda, facilmente podemos nos convencer que somos imprestáveis e desconfiar de nossas boas qualidades. Esta é uma visão errônea.

A segunda desvantagem de não conhecer nossa natureza de buda é o ego. Quando não conhecemos nossa natureza de buda, o ego facilmente se desenvolve. Quando desenvolvemos boas qualidades como resultado de nossos esforços positivos, podemos pensar que as criamos a partir do nada, e dessa forma inflaremos nossos egos. Não entendemos que temos a natureza de buda da mesma forma que os outros seres sencientes, e que uma boa qualidade é um pouco desta natureza de buda se manifestando em nós, mas que, de maneira absoluta, não somos superiores a ninguém. Se não vemos que os outros têm o mesmo potencial que nós, podemos facilmente desenvolver orgulho de nossas pequenas realizações.

O senhor Maitreya descreve a terceira e quarta desvantagens como “afirmar e negar”. O fanatismo é um exemplo de afirmar e negar. A falta de percepção da natureza de buda leva à adoção de perspectivas estreitas e limitadas que levam as pessoas a afirmar suas visões limitadas como sendo as únicas e a negar a verdades de outras visões. Por exemplo, se olharmos imagens e rituais budistas, podemos fazer isso sem jamais ver sua essência, sua finalidade subjacente. Ficamos enredados nas formas exteriores. Sem entendimento, negamos a essência e afirmamos a imagem externa. Se formos incapazes de distinguir a entre a imagem externa e a essência interna e de fazer a conexão entre aquilo que é importante e a parafernália que o rodeia, isto será uma grande desvantagem. Se não levar ao fanatismo, que pode ser prejudicial aos outros, pode ser causa de se perder muito tempo e energia devido a perder teimosamente o foco.

O auto-apego é a quinta desvantagem descrita pelo senhor Maitreya. Quando se ignora a natureza de buda, existe uma tendência a se apegar à boa fortuna ou às qualidades que se tenha desenvolvido e uma relutância em partilhar essas coisas com os outros. Isto significa que quaisquer coisas positivas que se desenvolvam em nossas vidas não vão beneficiar os outros. Vamos ficar presos ao que tivermos obtido, e eventualmente vamos decair em vez de melhorar.

Das cinco vantagens de se conhecer a natureza de buda, a primeira é a alegria. Não importa o quanto miseráveis somos, por quanto sofrimento temos que passar, as condições em que nos encontramos, sempre teremos alegria porque sabemos que nossa essência absoluta é perfeita. Por sabermos que estamos nos desenvolvendo em direção à realização final da natureza de buda, nos sentiremos absolutamente seguros e felizes. Em alguns textos de instruções tântricas, essa é considerada uma atitude muito importante. Uma máxima traduzida do tibetano diz: “Mesmo se tivermos que sofrer, sofreremos com felicidade”. Sofrer com felicidade significa compreender que o sofrimento é externo e impermanente. Nossa natureza de buda não pode sofrer nunca, então sofrer com felicidade é possível. Mesmo se não pudermos evitar o sofrimento, teremos um espaço onde poderemos ser felizes nas mais difíceis situações.

A segunda vantagem de se conhecer a natureza de buda descrita pelo senhor Maitreya é o respeito. Somos capazes de respeitar a todos os seres sencientes e todos os seres humanos, porque eles têm a natureza de buda. Somos capazes de respeitar o ambiente e a natureza também, porque são manifestações da natureza de buda através de nossas próprias experiências sensoriais interdependentes.

A inteligência é a terceira vantagem. Quando conhecemos a natureza de buda, conhecemos a verdade relativa. Conhecer e entender a verdade relativa e saber como utilizá-la é inteligência.

Quando conhecemos a natureza de buda, conhecemos a verdade absoluta. Conhecer e entender a verdade absoluta é sabedoria. A sabedoria nos guia a fazer as escolhas que aceleram nossa jornada para a iluminação. A sabedoria é a quarta vantagem.

A quinta vantagem que vem de conhecer a natureza de buda é a bondade amorosa e a compaixão. Sabemos que todos os seres sencientes podem melhorar porque são perfeitos, de forma absoluta, e seus esforços para progredir – assim como nossos esforços para ajudá-los – vão ser eventualmente bem sucedidos. Todos os seres sencientes têm a natureza de buda. Isso é um incentivo para nós porque, a menos que exista um potencial para melhorar, não poderemos ajudar a nós mesmos nem a mais ninguém, seria inútil tentar. Temos compaixão porque somos intensamente conscientes do sofrimento que todos os seres sencientes precisam experimentar. Por causa da natureza de buda, podemos empreender ações amorosas e compassivas para ajudar. Quando dizemos a prece budista “Possam todos os seres estar livres do sofrimento e das causas do sofrimento”, nossa prece é realista, porque sabemos que todos têm a natureza de buda.

A natureza de buda é o princípio mais prático, útil e verdadeiramente essencial do budismo Vajrayana. Dizemos em nossas preces budistas que desejamos liberar todos os seres sencientes. Esta é uma atitude muito ambiciosa. Podemos realmente liberar todos os seres sencientes? Sim, podemos. Podemos atingir a iluminação? Claro. O que nos faz pensar que isso é possível? A natureza de buda. É a sólida fundação que nos faz prosseguir. Somos todos inerentemente iluminados. Apenas temos que acordar o buda adormecido.

Comentários  

 
0 #1 thony di tullio 30-06-2011 08:27
A riqueza do Budismo é fantastico...gostaria de receber noticias de voces....boletins.
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