GALERIA Textos A importância da determinação de beneficiar os outros

A importância da determinação de beneficiar os outros

por Sua Santidade, o 17° Gyalwang Karmapa

Entre os que estão reunidos aqui hoje, pode haver a possibilidade de ficarmos exaustos pelo sofrimento em nossas vidas individuais e pelos muitos pensamentos de insatisfação. No entanto, geralmente somos auto-suficientes, encontramos felicidade suficiente para nós e, mesmo que possam existir certos problemas, não passamos por dificuldades extremas. Temos vivido uma situação comparativamente boa. Assim, no presente, encontramos felicidade e não temos grandes dificuldades. É claro que queremos continuar desfrutando dessa felicidade no futuro, não queremos ser separados dela e sim mantê-la sempre conosco. Também esperamos evitar até mesmo mesmo um pouco de sofrimento. Esta esperança está continuamente em nossas mentes e sentimos que precisamos estabilizar essa situação.

A julgar por nossas experiências de vida, algumas vezes quando vemos pessoas que passam por sofrimentos e dificuldades, sejam pessoas conhecidas ou não, repentinamente sentimos compaixão. Não recebemos de ninguém a instrução para nos sentir dessa forma, esse sentimento surge espontaneamente. Esse sentimento não surge apenas em relação a outros humanos, mesmo quando vemos animais sofrendo, surge naturalmente a compaixão por eles. Acho que é correto dizer que todos nós temos essa compaixão.

Sendo assim, acho que esse tipo de sentimento nos traz uma clara mensagem. Dessa mensagem especial, aprendemos que, para que possamos viver em paz e felicidade, precisamos nos apoiar nos outros seres. Imaginemos alguém que tem uma boa vida com condições harmoniosas e não precisa se apoiar em outros para sua felicidade. Tal pessoa pode viver em excelentes condições, mas quando vê outros seres sofrendo, irá subitamente entender que sua vida não pode ser satisfatória meramente como resultado de estar em um ambiente e circustâncias agradáveis. Ela poderá sentir uma constante sensação de insatisfação se não conseguir liberar esses outros seres do sofrimento.

Deixem-me contar uma história para ilustrar esse ponto. Você podem ter ouvido falar de Sarnath, o lugar onde o Buda deu seu primeiro ensinamento para seus discípulos. Devido a esse fato, é um lugar sagrado para todos os budistas. No entanto, ele é considerado tão especial não apenas por ser o local dos primeiros ensinamentos do Buda, mas também em virtude de uma história extraordinária, que também aconteceu neste mesmo lugar agradável quanto o Buda estava praticando no caminho, em uma vida anterior, antes de sua iluminação. Nesse tempo, a antiga Sarnath era governada por um rei chamado Kashi Narash, que gostava muito de carne de gazela. Seus atendentes matavam muitas gazelas e ofereciam a carne para a cozinha real. Durante esse tempo, quando o Buda seguia o caminho do bodhisatva, ele tomou nascimento como o rei das gazelas. Devido à preferência do rei por carne de gazelas, muitas delas eram abatidas todos os dias e, gradualmente, centenas e milhares delas iam perdendo suas vidas.

O rei das gazelas tinha muita compaixão por elas, então um dia ele foi ver o rei. Como era um bodhisatva, tinha uma extraordinária qualidade, que era a fruição do mérito que tinha acumulado em suas muitas vidas anteriores. Para benefício das outra gazelas, ele foi capaz de conversar com o rei em linguagem humana. Ele perguntou: "Sua majestade, de quantas gazelas você precisa por dia?" O rei respondeu: "Eu preciso da carne de uma gazela inteira por dia para minhas refeições". O rei das gazelas disse: "Você não precisa caçar centenas de gazelas por dia para sua refeição. Se me der permissão, eu vou mandar uma gazela todos os dias para você comer". O rei entendeu a situação e concordou com a sugestão do rei das gazelas. Depois disso, o rei das gazelas começou a mandar uma gazela todo dia para as refeições do rei e, dessa forma, não havia necessidade de muitas gazelas perderem suas vidas todos os dia. Dessa forma, todas as gazelas iam, uma após outra, para o rei.

Um dia a escolhida foi uma gazela grávida, mas em vez de ir para o rei ela ficou em um canto chorando. O rei das gazelas a viu chorando e se surpreendeu, porque quando havia chegado a vez das outras gazelas irem para o rei, todas haviam ido alegremente, em respeito à ordem do rei das gazelas e por saberem que as vidas de muitas outras gazelas seriam poupadas. O rei das gazelas perguntou à gazela grávida: "O que fez você chorar, quando chegou sua vez de ir para o rei?" Ela respondeu: "Eu não estou chorando por medo de perder a vida; estou preocupada com o jovem que está em meu útero". Sinto tristeza pelo meu filho, porque não é hora dele morrer. Existem muitas coisas para serem vistas no mundo. Meu filho vai morrer sem nunca ter visto a grama verde que tanto apreciamos comer. Meu filho não poderá nem andar pela terra com minha família. É por isso que estou triste, pensando em tudo isso".

Quando ela lhe disse isso, o grande bodhisatva rei das gazelas sentiu grande compaixão e disse para ela: "Você não precisa ir hoje". Entretanto, ele não mandou mais ninguém naquele dia, mas decidiu ir ele mesmo no lugar da gazela grávida. Quando ele chegou à cozinha real, o chefe dos cozinheiros do rei não pensou que ele estava lá para oferecer sua própria carne. Ele achou que o rei das gazelas devia ter alguma coisa a conversar com o rei e então o enviou para os aposentos dele. O rei das gazelas se aproximou do rei e lhe disse o motivo de sua vinda. O rei disse: "Você deveria ter enviado outra gazela no lugar da gazela grávida. Por que você veio?" O rei das gazelas respondeu: "Hoje não é a vez deles virem para morrer. Eles têm pelo menos mais 24 horas para viverem suas vidas no mundo, e alguns têm meses ou anos. Eu não fui capaz de mandá-los. Achei que seria injusto fazer isso, e é por esse motivo que vim aqui pessoalmente".

Depois que entendeu a situação, o rei pensou: "Os ensinamentos das escrituras dizem que matar humanos é uma falta mais grave que matar animais. Contudo, apenas para encher nossos estômagos e dar prazer a nossos paladares de manhã e ao meio-dia, despreocupadamente matamos e desfrutamos das vidas de animais. Sou provavelmente o pior exemplo de causar danos aos animais". Ele achou que o rei das gazelas era um símbolo de amor, e inspirado por ele, desistiu de prejudicar as gazelas e comer suas carnes. Criou então um parque de gazelas para elas pudessem desfrutar de suas vidas sem correrem riscos. Então ainda hoje podemos ver o parque das gazelas como um memorial em Sarnath. Já estive lá várias vezes.

Então essa breve história mostra que o mero fato de termos o que precisamos de coisas materiais para vivermos não é o suficiente para completar nossas vidas. Precisamos de um coração forte para enfrentar os problemas e sofrimentos dos outros. Isso é muito importante e necessário pelas muitas razões mencionadas nessa história. A motivação de tomar para si o sofrimento dos outros não é difícil, e não se torna causa de problemas. Ao contrário, precisamos reforçar nossas motivações de encarar quaisquer problemas que apareçam. Precisamos de uma abertura mental que acomode o bom e o mau. Por exemplo, quando são atingidos por algum tipo de doença, a maior parte dos pacientes são curados por sua própria determinação e poder mental, mais do que pela medicina.

No Tibet, se pegamos um resfriado, em vez de adotarmos uma má atitude e ficarmos deprimidos, dizemos que se comermos bem e não tivermos medo, vamos melhorar e a gripe irá embora. Não sei se isso realmente faz a gripe ir embora ou não, mas o desconforto da doença é um pouco aliviado. Não precisamos ter tanto medo. Se entrarmos em pânico ao pensarmos que pegamos a gripe, isso vai se tornar uma causa para a doença piorar mais e mais. Como costumamos dizer, a condição de estarmos com gripe vai se tornar a causa para o surgimento de todas as doenças.

Entretanto, se não tivermos o poder mental de encarar todas as dificuldades desse mundo, vai se tornar difícil que desfrutemos de felicidade. Devemos por isso reforçar nosso poder mental para o benefício de todos os outros seres. Temos que confiar em nossa motivação de beneficiar outros seres, sem ficar questionando se ela vai ser mesmo benéfica para alguns seres ou talvez não. Se aplicarmos a profunda motivação para o benefício dos outros, o maior benefício será para nós mesmos. Acho que é muito importante termos isso em mente.

Texto para o Grupo de Estudos de 25 de outubro de 2009.

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