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A felicidade depende de objetos externos?

por Sua Santidade, o 17° Gyalwang Karmapa

Nós, que estamos reunidos aqui, somos todos praticantes budistas, mas nenhum de nós superou nosso objetivo básico e inato de procurar atingir a felicidade e evitar o sofrimento. Então, falando do ponto de vista de um praticante budista, não deveríamos ter as mesmas motivações das pessoas em geral. Acho que seria muito excelente se praticássemos o dharma nessa vida e conseguíssemos alguma fruição profunda, porque temos esta oportunidade de praticar o dharma, que outros não têm.

Tendo obtido essa oportunidade, acho que deveriamos também obter uma fruição especial, diferente da das outras pessoas, e que deveríamos fazer esforços para fazê-la acontecer. É muito importante entender nesse contexto que precisamos fazer esforços que vão além do que fazem as outras pessoas. Da mesma forma, precisamos saber que tipo de atitude mental e motivação devemos cultivar e manter. O principal é que é nossa responsabilidade praticar dessa forma.

Em geral, as pessoas comuns se concentram nos objetos externos para conseguir a felicidade. Os ocidentais, em particular, têm um senso muito forte de apego ao ego que é baseado em objetos externos. É claro que pode haver alguma medida de obtenção de felicidade temporária e benefícios na vida de alguém através de sua associação primariamente com coisas externas.

Quando falamos do ponto de vista dos praticantes budistas em geral, eles parecem ser pessoas felizes. É claro que isso não quer dizer que eles passem todo seu tempo rindo e sorrindo, existem também muitas dificuldades enquanto se praticam os ensinamentos do Buda. Entretanto, mesmo se os praticantes budistas encontram problemas externos, é possível para felicidade interna se manter inabalada pelas condições externas. Acredito que essa seja a principal vantagem de ser um praticante do dharma.

O que chamamos de felicidade e alegria são condições apenas temporárias, nossa felicidade e a alegria que ela nos traz são basicamente sensações passageiras. Não podemos fazê-las durar ou mantê-las, no presente nem em qualquer outro tempo. Quando conseguimos alguma felicidade ou alegria no presente, sentimos que ela é tão vívida e real. Se alguém está alegre, podemos até ver isso a partir do exterior por sua aparência. Entretanto, apenas vendo sua aparência exterior, é difícil saber se eles são realmente felizes.

É difícil dizer se alguém está verdadeiramente feliz em seu interior por desfrutar de boas circunstâncias ou infeliz por não ter tais coisas à sua volta. Da mesma forma, é difícil dizer se alguém é ou não feliz baseado apenas em suas expressões físicas. É claro que não podemos julgar isso por meros sinais externos.

Sendo assim, a única pessoa de quem nossa felicidade não está oculta somos nós próprios - esse é um assunto interno e muito particular nosso. Nossa felicidade interior não é algo que seja completamente dependente daquilo que nos cerca, nem é inteiramente dependente de nosso corpo físico ou objetos externos. Então, é muito importante que essa felicidade interior seja atingida pelos ocidentais, em particular, porque sua situação é a de viver em ambientes muito atarefados, experimentar muita pressão e comoção em suas energias psico-físicas e sempre terem que se esforçar muito em seus trabalhos diários. Por tudo isso, eles ficam exaustos. Por isso, precisam de alguma felicidade interna.

Se tivermos a verdadeira felicidade e paz que não podem ser expressas externamente por nosso corpo físico, tal felicidade e paz mental nunca serão abaladas ou perturbadas, mas permanecerão estáveis, não importa o quanto ocupado ou agitado o ambiente possa ser, não importa o quanto nossas energias psico-físicas possam estar em confusão, e não importa quanto cansados ou exaustos nossos corpos estejam. Acho que podemos dizer que não temos outra opção a não ser ter esse tipo de felicidade interior.

Acho que é muito importante para todos que vivem nesse século XXI, e não apenas para os religiosos, buscar a paz interior e a felicidade, em vez de gastarmos a maior parte do tempo fazendo pesquisas sobre coisas externas.

Para obter tal paz interior e felicidade, não é fundamentalmente necessário ter fé nos ensinamentos budistas e seguir o caminho espiritual budista. O que precisamos é de uma mente focalizada e estável e uma capacidade de estabelecer e manter uma atenção adequada no interior desta mente. Você pode encontrar muitas maneiras de atingir paz mental e felicidade em outros caminhos espirituais, além do budismo. Se você confia no budismo e o está praticando, não preciso dizer mais sobre isso. Entretanto, falando para aqueles que não estão interessados no budismo em si mesmo, você pode atingir a felicidade interior através de outros caminhos e meios adequados. Assim, você precisa apenas contemplar sobre isso e depois fazer algum esforço.

Então, como podemos encontrar verdadeiramente a paz interior e a felicidade? Vamos ser capazes de encontrá-las se trabalharmos de uma maneira acertada sobre aquilo que é adequado para consegui-la e rejeitarmos o que for desfavorável para elas. Isso é correto para qualquer outra atividade em que possamos nos envolver - sempre vamos precisar abandonar o que é inadequado e adotar o que for favorável a essa atividade.

Para expressar de uma maneira simples, sempre é ensinado, não apenas no budismo, mas em qualquer outra tradição espiritual, que os principais fatores que tornam nossas mentes inquietas e agitadas e nos fazem desviar da felicidade para outro estado são os venenos mentais. Podemos também perceber isso por nossa própria experiência individual. Esses venenos são o desejo, a raiva, a delusão etc., que são as máculas ou defeitos de nossa mente. Se falarmos diretamente sobre esses venenos do desejo, raiva e delusão, não podemos deixar de reconhecê-los como algo verdadeiramente evidente quando eles se tornam ativos ou surgem em nosso fluxo mental de maneira muito vívida ou grosseira. Assim, quando falamos sobre desejo, raiva e delusão surgirem ou não surgirem em nossas mentes, geralmente queremos nos referir às suas formas muito óbvias e claramente manifestas estarem presentes ou não.

Quando essas aflições mentais surgem vividamente, sabemos que elas trazem muito sofrimento e infelicidade e são condições que perturbam nossa paz interior e felicidade. Então, é importante aplicar os antídotos para estes venenos mentais que trabalham contra nós, e esta é a maneira de gradualmente abandoná-los. Entretanto, algumas vezes é difícil experimentar a paz interior e felicidade meramente como resultado da ausência de desejo, raiva e delusão. Quando habitualmente não damos origem a nenhum desejo, raiva ou delusão manifestos, nossa mente está em estado de equanimidade ou, falando de maneira mais informal, "não está nem aí"Remains "cool". . No entanto, nesse caso é um pouco difícil ter a experiência de paz e felicidade reais - simplesmente não estamos ficando com raiva e assim por diante, o que, por si só, não é o suficiente para dar origem a uma mente feliz.

Por essa razão, é muito importante não apenas evitarmos as condições adversas, como as citadas acima, mas também nos engajarmos naquilo que é favorável a incrementar nossa paz interior e felicidade. Isso quer dizer que devemos cultivar a bondade amorosa e a compaixão. Se cultivarmos esses fatores favoráveis adequadamente e, assim, fizermos esforços tanto para abandonar o que é prejudicial quanto para realizar o que é benéfico, vamos ser capazes de atingir de uma maneira fundamental os objetivos de paz interior e felicidade.

A maioria de nós que estamos reunidos aqui hoje podem não ter os três venenos de desejo, raiva e delusão surgindo ativamente em suas mentes, mas ainda assim podemos estar sofrendo por ser afligidos por uma sensação de insatisfação, alguma aspiração à felicidade ou uma sensação de estar faltando alguma coisa no interior de nossas mentes. Assim, novamente, a mera ausência das condições adversas representadas pelos venenos mentais não é inteiramente suficiente para nos sentirmos verdadeiramente felizes. Se formos capazes de desenvolver nossas mentes por meio de criar condições favoráveis para a felicidade interior, tais como amor e compaixão, vamos ser então capazes de atingir tal felicidade. É de importância crucial entender isso.

Como disse antes, não tive oportunidade de dar uma palestra por algum tempo e, como resultado, fiquei um tanto prolixo. Não sou capaz de falar muito bem, mas disse só o que veio à minha cabeça. No entanto, essa foi apenas uma curta palestra, e se vocês quiserem algo mais extensivo, acredito que o melhor tipo de conversa será se formos capazes de conversar conosco mesmo baseados em nossa próprias mentes.

Texto para o Grupo de Estudos de 18 de outubro de 2009.

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