Educação e boa conduta, uma necessidade para todos
por Sua Santidade, o 17° Gyalwang Karmapa
O caminho do estudo
Geralmente se diz que todos devem estudar diligentemente para conseguir uma boa educação. Muitas são as razões pelas quais é necessário fazer isso. A principal razão é apontada no sutra Sutralankara de Maitreya.
Tendo realizado o treinamento nas cinco ciências,
Se obtém a realização.
Não há como obter a realização
A não ser treinando nas cinco ciênciasAs cinco ciências tradicionais indo-tibetanas são a gramática, a lógica, a habilidade artesanal, a cura e os ensinamentos budistas.
De maneira similar, o grande Sakya Pandita disse:
Se não se estudar e se atingir a onisciência,
Como poderia haver verdade na causa e efeito?
Causa e efeito são infalíveis -
Essa é a qualidade única da onisciência.
Da mesma forma, todas as escrituras dos antigos gurus e as palavras do Buda falam das várias razões para que nos esforcemos no treinamento escolástico e da necessidade de aprender e contemplar. De qualquer forma, além do treinamento e estudo não há maneira espontânea de atingir a iluminação e adquirir conhecimento. Sendo assim, devemos estudar tão diligentemente quanto for necessário.
Após termos estabelecido por estes argumentos a necessidade do estudo, devemos manter em mente que somos todos seres sencientes e que nenhum de nós quer sofrer. Apesar do fato de que indivíduos podem experimentar sofrimentos maiores ou menores, do ponto de vista da sabedoria onisciente, numa análise final, a causa do sofrimento é dependente da ignorância, ou falta de entendimento. Se você precisa gerar um antídoto para essa ignorância ou falta de entendimento, você precisa gerar seu oposto, a consciência-sabedoria. Tendo dado origem à consciência-sabedoria entendemos que todos os fenômenos surgem ou não de acordo com certas causas. A causa dessa consciência-sabedoria é o prévio treinamento em permanecer na consciência daquilo que deve ser conhecido. Como consequência de tal treinamento, se dá origem à consciência-sabedoria. A crença de que esta consciência-sabedoria surge sem uma causa e sem condições é sustentada por niilistas, alheios à tradição budista. O budismo sustenta que aquilo que é chamado de consciência-sabedoria nunca seria originado dessa forma. Sendo assim, devido à necessidade do estudo, cada indivíduo precisa fazer seu próprio esforço concentrado para isso.
Para citar outro motivo para a educação, nosso mestre, o Buda Shakyamuni, passou três eons incontáveis se esforçando no estudo de tudo que há para ser conhecido. Essa motivação em particular é bem conhecida entre todas as histórias de suas sucessivas vidas. Em sua última vida ele era o príncipe Sidharta. Mesmo sendo filho de um rei, ele estudou todas as ciências tradicionais conhecidas em seu tempo na nobre terra da Índia. Tendo feito isso, ele compreendeu tudo e se tornou um Buda. Se tivesse sido um ignorante, não sabendo nada, teria sido impossível que as condições para a sua iluminação tivessem surgido. Em resumo, foi através do estudo que ele conseguiu esse nível de entendimento e obteve o estado de onisciência.
Da mesma forma, como somos todos seguidores da tradição Kagyu, é muito importante para nós olhar com reverência para os exemplos das vidas de nossos patriarcas Kagyu. Observando as vidas dos patriarcas Kagyu, só podemos concluir que eles realizaram a perfeição, tanto do estudo quanto da prática. Não houve nem um único deles que tenha entrado em retiro nas montanhas não tendo nenhum entendimento. Por exemplo, o Mahasiddha Tilopa foi um autêntico erudito, assim como o Mahapandita Naropa. Antes, na Índia, existiram os famosos eruditos conhecidos como "os Seis Ornamentos e os Dois Supremos
Os Seis Ornamentos eram Nagarjuna, Aryadeva, Asanga, Vasubhandu, Dignaga e Dharmakirti. Os Dois Supremos eram Shakyaprabha e Gunaprabha. . Mais tarde, nas terras nevadas do Tibet, durante o tempo da difusão tardia da doutrina, os perfeitos ensinamentos do Buda foram traduzidos. Nesse tempo, na Índia, existiram seis eruditos perfeitos conhecidos como os pânditas dos seis portões e Naropa foi um deles.
Em uma das canções de Marpa Lotsawa, que foi quem trouxe os ensinamentos Kagyu para o Tibet, é dito que ele passou dois terços de sua vida na Índia. Ele passou, dessa forma, quase quarenta anos na Índia. Durante esse tempo, estudou, contemplou e meditou. Entre o estudo, contemplação e meditação, a história da sua vida menciona que ele principalmente estudou e contemplou. Então também foi um erudito.
Algumas pessoas pensam que o soberano dos Yogis, Milarepa, não era particularmente instruído, e mesmo assim atingiu a iluminação em uma só vida. Além de praticar a meditação, os grandes textos não mencionam que ele estudou e contemplou. Se olharmos para isso de maneira superficial, a biografia de Milarepa parece uma invencionice. Se analisarmos a questão cuidadosamente, Milarepa não teria sido capaz de atingir a iluminação em uma só vida sem estudo e contemplação.
Na história dos ensinamentos chamados "Vasta Iluminação", de Pema Karpo e Drugpa Kagyu, vemos que Milarepa a princípio praticou feitiçaria e matou muitas pessoas. Depois disso, sentiu remorso de seus atos perversos, e demorou aproximandamente 15 anos até que encontrasse Marpa Lotsawa. Durante esse tempo, o venerável Milarepa voltou sua mente para longe do samsara e foi um indivíduo com um desejo muito poderoso de praticar o dharma autêntico. Sendo assim, podemos dizer com total certeza que ele não passou esse tempo ocioso. Durante esse curto período, podemos dizer que Milarepa tem que ter necessariamente praticado devido ao claro registro histórico e à evidência paralela de sua erudição. Dessa forma, Milarepa primeiro estudou e contemplou e depois cortou através das dúvidas e idéias errôneas. Finalmente ele praticou meditação e a sabedoria surgiu nele. Foi assim que aconteceu. Quando você examina a biografia de Milarepa, ela diz que ele recebeu o vaso completo de instruções orais de Marpa. A narrativa não diz meramente que, tendo encontrado Marpa Lotsawa, Milarepa passava todo o tempo apenas construindo muitos prédios. Certamente seu estudo e contemplação eram vastos. Desta forma, Milarepa estabeleceu a tradição que combina um só rio os ensinamentos da tradição Kadampa e o Mahamudra.
O incomparável condutor da linhagem Dagpo Kagyu foi o grande Gampopa. Durante seu tempo, a melhor tradição escolástica era a dos Kadampas. Gampopa estudou seriamente por muitos anos com vários mestres kadampas e se tornou um perfeito mestre dessa tradição.
Entre seus muitos estudantes, o principal discípulo, que demonstrou a mais vasta atividade iluminada, foi Padgre Dorje Gyalpo. Se você examinar a história de sua vida, ele estudou todos os textos kadampas e se tornou um sábio erudito. Não apenas isso, ele se tornou um perfeito mestre acadêmico da ilustre tradição Sakya. Assim, não é preciso dizer que era um grande erudito.
Quanto ao primeiro Karmapa, Dusum Khyenpa, ele foi um mestre em cognição válida, Madhyamaka e todos os ensinamentos de Maitreya. Em resumo, ele se aperfeiçoou no treinamento como um grande erudito em todas as ciência, e depois se tornou um grande siddha.
Da mesma forma, Jigten Sumgon, fundador da da escola Drigung Kagyu, e muitos outros patriarcas Kagyu primeiro se tornaram sábios eruditos e mais tarde se tornaram siddhas. Nenhum de nossos patriarcas entrou em cavernas escuras nas montanhas como ignorantes que nada sabiam. Dessa forma, todos eles foram tanto instruídos quanto realizados. Sendo assim, também precisamos estudar e ganhar entendimento - isso é importante.
Algumas pessoas podem ter pensamentos críticos nesse momento. Como o Karmapa estuda? Sendo o Karmapa ele tem boa comida e um bom lugar para dormir, então provavelmente vive de maneira muito confortável. Pode-se pensar isso, mas nem sempre tenho a possibilidade de estudar intensivamente. Como as situações mudam, minha agenda diária também varia. Entretanto, na maior parte do tempo que tenho para estudar, posso quase dizer que estudo 24 horas por dia. Algumas vezes, quando muitas pessoas vêm visitar, eu posso estudar apenas superficialmente. Mesmo assim, eu penso que devo estudar bem e continuamente, tanto quanto eu puder.
Em resumo, pensando sobre as razões, pensando sobre as escrituras, pensando sobre as histórias das vidas de nossos patriarcas, e pensando sobre o nosso entendimento, vemos como é muito importante estudar e nos educar.
O que, então, devemos estudar? Nos dias atuais, os mais abundantes ensinamentos dos sutras e tantras completamente perfeitos do Buda estão preservados na linguagem tibetana e em nenhuma outra. Assim, é da maior importância que estudemos a linguagem tibetana. Novamente, a coluna dorsal da linguagem se apóia nas ciências tradicionais mencionadas anteriormente. Assim, o estudo das ciências tradicionais é muito importante. Em particular, para os praticantes, o foco principal da linguagem e das ciências tibetanas é o dharma budista.
Os motivos pelos quais é certamente muito importante para nós estudarmos o dharma budista são as que se seguem: no longo prazo, durante toda nossa vida e a curto prazo, durante as 24 horas do dia, gostaríamos de nos sentir confortáveis e de evitar sentirmos nervosismo e irritação. Para conseguir isso, precisamos ser capazes de lidar com todos os nossos sentimentos, independentemente de estarem acontecendo coisas boas ou ruins. Se não estudarmos os ensinamentos do Buda, vai ser muito difícil realizar isso. Da mesma forma, queremos ter uma boa vida e dar a ela uma boa direção, e queremos ser felizes e desfrutar de bem estar. Se você acha necessário conseguir uma vida como essa, provavelmente não existe outro caminho senão estudar os ensinamentos de Buda.
Da mesma forma, nas vidas futuras, para conseguir a felicidade e o estado definitivo de iluminação que é a fonte de toda a abundância, não vai ser benéfico ter apenas conhecimentos do tipo corriqueiro. Nos dias atuais todo mundo considera a ciência como sendo genuinamente verdadeira, mas apenas o conhecimento científico também não vai nos ajudar.
Na classificação dos ensinamentos budistas, existem os ensinamentos do próprio Buda e os comentários. Os ensinamentos do próprio Buda que foram traduzidos para o tibetano consistem em aproximadamente cem volumes, enquanto os comentários somam duzentos volumes. É difícil conseguir estudar todos eles, mas não estudá-los e deixá-los de lado é errado. Assim, é muito importante para cada indivíduo estudar de acordo com sua capacidade intelectual e com o tempo que tem disponível.
O Buda deu 84 mil ensinamentos de acordo com os diferentes temperamentos e interesses de seus discípulos. Se você for capaz de entender todos eles, isso seria maravilhoso. Entretanto, seu intelecto e capacidades podem ser mais fracos, as condições podem não ser favoráveis ou você pode não ter o tempo suficiente. Então, de acordo com sua disposição intelectual, você deve treinar tanto quanto puder, começando por abandonar as dez não-virtudes e realizar as dez virtudes e depois concluindo com o treinamento no insuperável mantra secreto. Mesmo que você não entenda mais do que uma única palavra, é mesmo assim necessário e muito importante que você se esforce no estudo. Essa é minha maneira de pensar.
Tradicionalmente, na tradição tibetana, aqueles que estudavam tinham que entrar para um colégio monástico e se dedicarem principalmente aos campos do conhecimento. Geralmente, nos primeiros tempos da tradição Kagyu, existiam muitas escolas e centros de prática, mas nos séculos seguintes a tradição Kagyu de estudo e prática se deteriorou um pouco. Os estudos tradicionais, particularmente, ficaram para segundo plano e existem muito poucos eruditos.
No último ensinamento do Tai Situ Changchub Gyaltsen ele menciona que nos primeiros tempos, todos os patriarcas Kagyu eram definitivamente tanto eruditos quanto praticantes realizados. Mas nos tempos que vieram depois, os estudos deixaram de ser considerados como sendo de importância fundamental. Como resultado, os ensinamentos ficaram menos eficazes e as pessoas menos eficientes. Isso é realmente verdade, e esta foi a razão que levou o Tai Situ a fundar o grande centro de estudos Tsethang.
Mesmo que os ensinamentos dos patriarcas Kagyu sejam muito profundos, se não eliminarmos as dúvidas através da contemplação e estudo, estes ensinamentos não vão ser eficientes. Mesmo você sendo agora um ser humano, se você não for instruído, certamente você não será eficiente e os ensinamentos não vão ser também eficazes - isso é certo. Contudo, atualmente no Tibet, as pessoas dão uma atenção considerável à educação e recentemente a educação na tradição Kagyu melhorou um pouco.
Nos monastérios existem colégios monásticos e em alguns monastérios se estuda. No entanto, a não ser por esses avanços incipientes, a educação não atingiu um nível suficientemente elevado para que possamos dizer que nossas escolas são adequadas e que estamos completamente satisfeitos. Sendo assim, acho que é muito importante expandirmos nossas escolas.
A assembléia geral dos monásticos que não pertencem às escolas se reúne para práticas espirituais conjuntas. Eles aprendem danças de lamas, a fazer mandalas, cantar, tocar instrumentos e muitas outras coisas. Assim, ele não têm tempo suficiente para se esforçarem tanto nos estudos quanto os monásticos que estão aprendendo as ciências tradicionais nos colégios. Entretanto, as seções sobre refúgio e bodichita dos textos de prática, convidando as deidades, o estágio de criação, o estágio de completude, as formas de preparar bolos de oferendas e suas características deveriam ser bem compreendidos. Não deveríamos ter que dizer: "Nâo sei aquilo" ou "Não sei isso".
Na tradição Kagyu, existem muitos que praticam e muitos que praticam em retiro. Esses praticantes sabem como executar os rituais, preparar bolos de oferendas, ornamentá-los etc. É necessário aprender essas atividades. Contudo, além delas, a prática mais importante para nós da tradição Kagyu é o caminho dos meios dos Seis Dharmas de Naropa e o caminho da liberação do Mahamudra
No caso do caminho da liberação do Mahamudra, existe o tema da inseparabilidade da claridade e vacuidade. Em relação a isso, quando consideramos o aspecto da claridade, se não entendermos completamente o significado do Uttaratantrashastra de Maitreya sobre a natureza de Buda ou se, pelo menos, não tivermos um entendimento geral sobre isso, não há como entender o sentido do Mahamudra. É por isso que Gampopa disse: "Meu Mahamudra é o sentido do Uttaratantra". Consequentemente, é muito importante para nós estudar o significado desse texto como suporte para nossa prática de Mahamudra.
Com relação ao aspecto da vacuidade, definitivamente precisamos dos ensinamentos encontrados nos textos do Madhyamaka. Entre os textos Madhyamaka, existem escrituras e ensinamentos. Entre eles, o texto mais popular é o Madhyamakavatara de Chandrakitrti. Seria muito bom, então, estudar esse texto. Se você não conhecer o Madhyamakavatara e o Uttaratantra, se você não estudá-los de todo, e se você é como o resto de nós, destituído das faculdades mais elevadas, então a prática ficará muito difícil. Assim, é certamente necessário estudar.
Nos ensinamentos do caminho dos meios dos Seis Dharmas de Naropa, se diz que os Seis Dharmas são a essência de todas as classes de tantras insuperáveis ensinados pelo Buda. Então é muito importante conhecer o completo significado de todos os tantras e a essência de todos os ensinamentos do Buda. Se você não conseguir adquirir esse entendimento, ao menos você precisa ter algum conhecimento da
Profunda Realidade Interior, a clara exposição de
nadi,
prana e
bindu do estágio de completude, escrita pelo terceiro Karmapa, Rangjung Dorje. Sem esse conhecimento, não há como avançar.
Tanto no caminho da liberação do Mahamudra quanto no caminho dos meios dos Seis Dharmas de Naropa, é necessário nos apoiarmos no estágio da criação. Em relação ao estágio da criação, a tradição Kagyu tem o costume de estudar os ensinamentos de Buda contidos na segunda seção do
Hevajratantra. Assim, de qualquer forma, caso você pratique o caminho dos meios ou o caminho da liberação, você precisa estudar isso. Se você não estudar nenhum desses textos, eu poderia estar exagerando um pouco ao dizer que não haveria benefício em permanecer no retiro de três anos, mas eu certamente duvido que haveria muito benefício.
Homens e mulheres na comunidade leiga podem vestir roupas diferentes ou usarem diferentes estilos em seus cabelos, mas não são diferentes quanto a seus desejos de serem felizes e se livrarem do sofrimento. Se você quer ser feliz e se livrar do sofrimento, você primeiro precisa conhecer os princípios de como desenvolver a felicidade e se livrar do sofrimento. Para entender esses princípios, é necessário entender os textos e a linguagem em que eles são apresentados. É então necessário acumular a prática de virtudes e abandonar os maus atos, o que é o caminho indicado por estes textos. De outra forma, se você disser: "Eu preciso ser feliz, mas não preciso praticar as virtudes e abandonar os maus atos", isso contradiz a causa e efeito e não pode ser um caminho para a felicidade. Os efeitos subsequentes aparecem em dependência de suas causas antecedentes. Assim, você primeiro precisa estabelecer as causas, que consistem em acumular virtudes e abandonar os maus atos. Agindo dessa forma, todos poderão atingir o objetivo de serem felizes e se livrarem do sofrimento. Essas causas, que são as formas de praticar as virtudes e abandonar os maus atos, estão contidas nos ensinamentos do budismo. Você pode pensar que a felicidade vai surgir sem essas causas, prática da virtude e rejeição dos maus atos, no entanto, além deste ser um pensamento ilusório, vai tornar difícil obter a felicidade.
Assim sendo, para praticantes homens e mulheres, é muito importante estudar com dedicação. Atualmente a situação está melhorando. No passado, nós tibetanos pensávamos que estudar o budismo era atividade apenas para lamas e monges nos mosteiros. As pessoas achavam estranho que praticantes leigos estudassem. Em particular, se monjas e mulheres estudassem, as pessoas achavam que isso representava um sério problema. Acho que isso era, de certa maneira, um engano.
Nosso mestre, o Buda, não deu ensinamentos para uma classe de seres em particular. Ele deu ensinamentos sobre a liberação, sobre como atingir o estado de onisciência e de como nos livrarmos do grande oceano de sofrimento do samsara para o benefício de todos os seres. Ele nunca disse que esses ensinamentos deveriam ficar restritos aos lamas e monges. Como ele deu esses ensinamentos para todos os seres, independentemente de classes, todos temos o direito de estudá-los. Se alguém levantar uma objeção ao estudo, essa pessoa simplesmente não entende - não há outra razão possível para tal objeção. Sendo assim, como praticantes homens e mulheres estão capacitados a estudar o budismo tanto quanto os lamas e monásticos, seus estudos devem ser permitidos e encorajados.
Dessa forma, falei sobre como é de grande importância estudar as ciências tradicionais, discutindo a maneira de estudar, o que estudar e quem deveria estudar.
O caminho da prática
Meu segundo tópico é relacionado à prática. Geralmente se diz que nós Kagyus somos a linhagem da prática, então é certamente importante praticar.
O
Abhidharmakosha diz:
Sustentando as disciplinas do estudo e contemplação
Dedique-se à meditação.
O objetivo do estudo e contemplação é encorajar a meditação no dharma. Certamente, não é apropriado separar a prática de meditação do estudo e contemplação. O Buda deu 64 mil diferentes tipos de ensinamentos e os benefícios destes ensinamentos autênticos são muitos. Aproximadamente dez por cento desses ensinamentos promovem o estudo e contemplação e cerca de 90 por cento deles dizem respeito à qualidade da prática de meditação. Como exemplo, os muitos benefícios de nos alimentarmos são enchermos nossos estômagos, obtermos forças, sustentarmos nossas vidas etc. Se você comer, esses benefícios virão como resultado. No entanto, apenas preparando a comida e não comendo, esses benefícios não virão.
Da mesma forma, se você praticar da forma como o Buda ensinou, o benefício dos ensinamentos serão alcançados. Entretanto, se você apenas estudar e contemplar, a não ser por meramente aprender os ensinamentos, não vai haver outro benefício significativo além dos chamados quatro liberações através de ver, ouvir, lembrar e ter contato com os ensinamentos do Buda.
Entretanto, se você não praticar a meditação, mas apenas olhar, estudar e lembrar dos ensinamentos, vai ser extremamente difícil que isso seja de grande benefício. A finalidade principal dos ensinamentos de Buda é domar nossas mentes e, se você não praticar a meditação, não vai ser capaz de domar sua mente. Como disse Milarepa:
Eu não conheço a filosofia de acalmar e domar.
Se você domar sua mente selvagem, isso é domar
Assim, é muito importante praticar dessa forma.
Algumas pessoas pensam que o que chamamos de prática não é tão difícil. Eles praticam principalmente para subjugar inimigos, proteger amigos, se tornarem famosos e encherem seus estômagos. Assim, deixam os ensinamentos em um canto. Se têm vontade de praticar, praticam um pouco, se não eles descartam a prática. Se você pratica dessa forma, isso não é tão bom. O motivo é expresso em um de nossos provérbios mundanos:
Se você não fizer o que e difícil e nos faz derramar lágrimas,
Você não pode obter a realização da felicidade completa.
Da mesma forma, os ensinametos do Buda dizem:
Se você quiser sentir o sabor da cana de açúcar,
Você precisa comê-la.
Se você apenas tirar sua casca,
Você não conseguirá experimentar seu sabor.
Então, para praticar os ensinamentos, precisamos enfrentar algumas dificuldades. Precisamos ceder um pouco da felicidade dessa vida para realizar a felicidade, liberação e onisciência na próxima vida. Novamente, alguns acham que, quando dizemos que precisamos nos esforçar para enfrentar dificuldades, temos que ser como Milarepa e Naropa, que enfrentaram grandes dificuldades. Mas isso seria ir um pouco longe demais, precisamos nos esforçar de acordo com nossas diferentes capacidades. De outro modo, se tentarmos ir além de nossa capacidade e não tivermos a habilidade necessária, não vamos ser capazes de conseguir realização e nossos esforços serão inúteis.
Resumindo, ao praticar o dharma autêntico, mesmo se você não for capaz de abandonar todas as atividade mundanas de subjugar seus inimigos e proteger seus amigos, você deveria reduzir tais ambições - isso é muito importante. Se você não reduzir suas ambições, sua mente não poderá se voltar para o dharma. Se você não voltar sua mente para o dharma, não será capaz de ganhar experiência. Dessa forma, para voltar sua mente para o dharma, você precisa reduzir suas ambições de subjugar seus inimigos e proteger os amigos.
Como disse antes, é permitido a todos colocar em prática os ensinamentos. Não é que algumas pessoas possam praticar e outras não. Geralmente as pessoas praticam meditação entrando em retiro ou estabelecendo fronteiras e fazendo práticas de sadhana. Entretanto, atualmente, muitos lamas ficam em retiro como se fossem a uma escola. Depois eles dizem: "Eu terminei meu retiro de três anos" e vão embora. Se você praticar dessa forma, isso não é apropriado. Por quê? Geralmente, os sábios dizem:
A marca do estudo é a mente estar pacífica e domada.
A marca da contemplação é cortar através das dúvidas.
A marca da meditação é a ausência de aflições mentais.
É dessa maneira que precisamos praticar, mas atualmente alguém pode sair do retiro com maiores aflições, maior raiva e maior desejo. Nesse caso, eu imagino o que eles poderiam estar praticando. Tal resultado é uma contradição aos ensinamentos budistas. Na tradição do budismo tibetano, existem muitas excelentes maneiras de praticar. Os não tibetanos ficam impressionados com isso e dizem que temos uma grande abundância de práticas em nossos ensinamentos. Isso é bom, mas se eles perguntam: "Mostre-me uma pessoa que esteja praticando", não há ninguém que possamos apontar e é quase como se ninguém estivesse praticando. Isso é uma grande lástima. Assim, é muito importante demonstrar para os outros a fruição de nossa prática. Se você permanece em uma caverna numa montanha por vinte ou trinta anos sem mostrar nenhum resultado, para que serve isso?
Quando você pratica meditação, deve haver alguns sinais de realização. Não se trata de ver se você consegue ou não voar, ou penetrar ou não no solo. Você precisa praticar com alguma persistência, de outra forma não haverá benefício.
Aqueles de vocês que são alunos em colégios monásticos estudam todos os ensinamentos do Buda e seus comentários. Contudo, se vocês não praticarem, esses estudos só servirão para que vocês se tornem bons argumentadores. A não ser por isso, vocês serão simplesmente pessoas comuns. Nesse caso, existe o perigo de que os ensinamentos e o indivíduo sigam em direções diferentes. Então, aqueles que entraram no colégio devem principalmente estudar mas, ao mesmo tempo, precisam praticar o máximo que puderem - isso é muito importante. Não deveria acontecer que monásticos se reúnam e pratiquem simplesmente para seguir uma agenda ou um conjunto de regras.
Por exemplo, numa prática de liturgia, começamos com o refúgio e bodichita, então prosseguimos através de todos os estágios da criação e completude, e terminamos com a dedicação final. Durante a prática é muito importante que você seja capaz de entender e se concentrar nesses estágios tanto quanto for possível. Quando praticantes leigos homens e mulheres fazem suas recitações cantadas individuais, precisam primeiro saber o sentido de sua recitação. Algumas pessoas fazem muitas recitações mas não sabem nem o que estão cantando nem o que estão fazendo. Se você praticar dessa forma, praticar e não praticar terminam sendo a mesma coisa. Dessa forma, quando fizer práticas e recitações, você precisa primeiro entender seus significados. Então é muito bom que você pratique tanto quanto for possível. Como os ensinamentos do Buda são imparciais, é permitido a todos praticar. Se você pensar sobre como praticar, isso será uma boa coisa.
O caminho da boa conduta
É muito importante manter uma boa conduta. Mesmo que muitos lamas falem sobre a boa conduta, o que é a boa conduta e o que é a má conduta? Muitas pessoas ficam confusas sobre as fronteiras entre a boa e má conduta. Mesmo se um professor nos diz para termos boa conduta, se as pessoas não souberem o que constitui uma boa conduta terão dificuldades de saber o que fazer. Eu estudei os princípios da boa e má conduta e li textos que explicam a conduta superior. Quando penso sobre isso, aquilo que é chamado de má conduta é principalmente aquela que resulta em sofrimento para si mesmo e para os outros.
A causa do sofrimento surgir como resultado é a atitude que dá origem às aflições mentais. Se a conduta tem origem nessa atitude, então a conduta é naturamente danosa. O melhor é ser capaz de dar origem à virtude, a causa da felicidade para nós mesmos e para os outros. Não é preciso dizer que tal atividade virtuosa é boa conduta. Mesmo se você não agir dessa forma e for incapaz de dar origem à virtude que leva à felicidade para nós mesmos e para os outros, mesmo assim será uma boa conduta pelo menos evitar dar origem às aflições mentais que causam sofrimento. Se você cultivar tal atitude, é certo que você vai saber como adotar a boa conduta e rejeitar a má. De outra forma, se você não tem nenhum conhecimento da fronteira entre a boa e má conduta, é possível que algumas vezes você irá agir de uma forma errada pensando que tal atividade seja boa ou você poderá pensar que a boa conduta é má.
O que chamamos de boa conduta tem o mesmo significado de disciplina. O Buda disse:
A disciplina é como a terra que suporta tanto o animado quanto o inanimado.
É o fundamento para todas as qualidades excelentes.
A disciplina é a base dos ensinamentos do Buda. Então, a disciplina é muito importante. Aqueles que mantém a disciplina entraram pelos portoes dos ensinamentos. Uma classe de tais indivíduos é a sangha monástica, que usa os trajes e têm as cabeças raspadas. Outra classe é formada por praticantes yoguicos que vestem roupas brancas e usam seus cabelos longos. A sangha monástica com trajes monásticos acompanhou o nosso mestre, o Buda Shakyamuni na área de Varanasi durante o tempo do primeiro giro da roda do dharma sobre as quatro nobres verdades. Nessa época ele prescreveu os trajes apropriados e, de lá para a frente, o código monástico descreveu os excelentes tipos de roupas, as maneiras adequadas de vesti-las etc.
Mais tarde, também as regras monásticas foram sempre praticadas de acordo com o país e a época. No início, no Tibet, os grandes mantenedores dessas regras estabeleceram o tipo de roupas a serem vestidas de acordo com os costumes do país. Não há nada de insatisfatório ou incompleto na forma das vestimentas tradicionais, ela é completamente adequada. Geralmente, hoje em dia, existem muitas discussões sobre independência e direitos e as pessoas se dedicam a muitas diferentes atividades. Mas se a sangha monástica também falar de várias maneiras sobre independência e direitos e vestir diferentes tipos de roupas, isso irá contra a tradição do Buda. O Buda falou sobre três tipos de roupas do dharma para os monásticos vestirem. Roupas diferentes dessas são roupas para leigos. Entre as razões para estabelecer essas distinções, o Buda principalmente queria que a comunidade pudesse distinguir a sangha monástica dos leigos. Se os monges e monjas vestirem roupas diferentes das estabelecidas e participarem de todos os tipos de atividades não monásticas existe o perigo de não podermos mais distinguir quem é leigo e quem é monástico. Então, é apropriado que exista uma distinção entre as roupas de leigos e as dos monásticos.
Diz-se que quando se toma os votos monásticos, a intenção é muito importante. Também são importantes os pensamentos que se tem em relação a vestir as roupas do dharma e ao padrão de tais roupas. Tendo dito que a intenção é importante, se você não tomar cuidado com suas roupas de dharma e sua tigela monástica isso será inapropriado. Por serem estas atividades conectadas com as circunstâncias harmoniosas da pura disciplina, você precisa desempenhá-las bem.
Da mesma forma, se você pensar sobre a conduta de todos os tipos de monásticos, a conduta do monge inteiramente ordenado (bhiksu) é a mais sublime. O Buda ensinou 253 regras para o bhiksu e também estabeleceu muitas regras para os noviços. Além disso, nas escrituras bodhisatva, determinou muitas regras para os monásticos relativas ao que devem adotar e ao que devem abandonar. Também no vajrayana existem muitos ensinamentos conectados com os dententores monásticos do vajra, tais como bhiksus dententores do vajra e noviços detentores do vajra. Se você quiser resumir estes ensinamentos para mantê-los na mente com facilidade, essas regras significam ser pacíficos, controlados e cuidadosos. Essas palavras dizem tudo, basicamente.
Para nós, ser pacíficos, controlados e cuidadosos é muito importante. De outra forma, se você vestir as roupas do dharma e se comportar como uma pessoa selvagem, você será como o sacerdote Hari Nagpo na daça da história da vida de Norzang, que sempre faz coisas más. Tal conduta não é, de forma alguma, a conduta de um monástico. Será, então, muito bom se tivermos uma conduta elegante que está de acordo com as intenções do Buda e com a disciplina. Isso é o que é importante para os monásticos.
Para aqueles de vocês que vestem roupas brancas, o Buda estabeleceu os trajes dos praticantes tântricos quando ele começou a propagar os ensinamentos do vajrayana. Esta tradição já estava estabelecida na époco do início da difusão desses ensinamentos no Tibet e os trajes nela descritos são suficientes. No entanto, alguns praticantes vajra não usam as vestes tradicionais, mas sim roupas de pessoas comuns, o que é um tanto problemático. Praticantes vajrayana e pessoas leigas são diferentes, porque os primeiros entraram pelos portões do dharma, enquanto que os últimos não. Por isso, existe uma necessidade de fazer uma distinção. Como já haviam roupas distintas desde o começo, é importante manter esta tradição.
Atualmente, contudo, existem algumas pessoas que não têm vergonha e têm mulher e filhos e mesmo assim vestem as roupas de um monástico. Eles estão degradando os ensinamentos do Buda e as categorias de monges e monjas. O motivo é que o Buda decidiu que os monásticos deveriam usar os três tipos de roupas. Mas se as pessoas que têm mulher e filhos usarem tais roupas, as outras pessoas pensarão que os monges verdadeiros também têm mulheres e filhos e vão criticar tal comportamento. Desse modo, as faltas de uma pessoa se tornam as faltas de muitos e assim criam prejuízo. Isso não apenas vai contra os ensinamentos do Buda, é também ruim para a própria reputação delas. É, então, muito importante que não nos voltemos contra as regras estabelecidas pelo Buda. Dessa forma, tanto monásticos quanto praticantes leigos deveriam vestir os tipos adequados de roupas.
Quanto aos praticantes vajrayana, existem muitos tipos de conduta. Em resumo, como eu acabei de mencionar, deveriam ser pacíficos, controlados e cuidadosos. Geralmente, a fruição do estudo, contemplação e meditação é a redução das aflições mentais. Entretanto, algumas pessoas acham que não há problema se um praticante vajrayana comete algum ato não virtuoso. Se você pensa dessa forma, você está indo contra os ensinamentos do Buda. Mesmo sendo diferentes, monásticos e praticantes leigos são iguais com relação à necessidade de adotar atividade virtuosa e evitar maus atos.
Algumas pessoas chegam a pensar que os praticantes vajrayana são piores que as pessoas normais, mas isso é um engano. Geralmente, não há diferença entre seres sencientes. Mas com relação àqueles que entraram no dharma e aqueles que não entraram, não é preciso dizer, os mais sublimes dos que entraram no dharma são os monges e monjas. Em seguida, os praticantes vajrayana que entraram no dharma são superiores aos que não entraram. Em resumo, aqueles que têm uma conexão verdadeira com o budismo deveriam ser superiores aos outros em relação às suas intenções e condutas. Por favor, apliquem bem estes ensinamentos.
Texto para o Grupo de Estudos de 11 de outubro de 2009.
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