Introdução à prática de TCHÖD
por TRANGU RINPOTCHE
Todos os seres têm o potencial do estado de Buda, mas devido à sua ignorância, não podem percebê-lo. Pela visão dualista percebem o "eu" como existente e também dessa maneira percebem os outros. Então um certo tipo de relação vai se estabelecer entre esse "eu" e os outros. Será principalmente de dois tipos: o apego àqueles que consideramos nossos amigos e a aversão em relação àqueles que consideramos nossos inimigos; por essas relações, vão criar numerosas emoções perturbadoras sob a impulsão das quais, acumularão karma que provocarão sofrimentos manifestados no ciclo das existências. Pode-se pensar que sob a influência da ignorância, esse processo vai se repetir ao infinito e que o estado de Buda é um objetivo distante, muito difícil de ser obtido. Portanto, é necessário desenvolver a aspiração de liberar todos os seres do sofrimento e os estabelecer no estado de Buda.
Para desenvolver essa atitude, é preciso compreender que por mais vasto que seja o espaço, ele é completamente pleno de seres. E tão numerosos que sejam os seres, tão vasto é o karma que eles criaram. E tão importante que seja o karma, tão grande é o sofrimento que daí decorre, tão infinito quanto o espaço. E entre todos esses seres que preenchem o espaço, não há nenhum que não tenha sido no passado, nosso pai e nossa mãe. Eles demonstraram por nós a mesma bondade, a mesma atenção que nos dedicaram nossos pais nesta vida. Todos os seres são semelhantes, no sentido em que todos buscam a felicidade e que fogem do sofrimento. Mas devido à sua ignorância, não conhecem os meios de obter a felicidade e na sua busca, praticam ações negativas, causas de karma negativo que resultará no final em mais sofrimento. Sob o poder da ignorância, praticam as dez formas de ações negativas. É por essa razão que pode parecer que o ciclo das existências seja infinito e para eles a obtenção do estado de Buda seja um objetivo distante, que lhes será necessário muito tempo antes de atingí-lo.
Tendo tomado consciência disso, considera-se liberar todos os seres do sofrimento, mas ao mesmo tempo, nos damos conta que somos incapazes de fazê-lo. Para se conseguir, será necessário começar por escutar os ensinamentos, refletir a respeito de seu significado e depois meditar e colocá-los em prática na vida cotidiana, a fim de obter a capacidade de liberar esses seres. Esta é a atitude mental correta.
O resultado desse processo será a obtenção da capacidade de liberar os seres do sofrimento e finalmente os estabelecer na budeidade. Se essa motivação pura está constantemente presente em nossa mente, se ela nos motiva em todas as práticas, todas nossa ações cotidianas se tornarão então, os meios que nos permitirão seguir o caminho que conduz à iluminação. Se tivermos essa motivação, todas nossa atividades tornam-se a via do Bodhisatva, que nos conduzem em direção à iluminação. Se praticarmos essas ações positivas para o benefício dos outros, elas nos trarão a iluminação. Se em contrapartida, as praticamos com objetivo egocêntrico, o resultado será renascimentos superiores, mas sempre samsáricos. É essencial, antes de começar a prática de Tchö, desenvolver as quatro qualidades incomensuráveis que são o amor, a aspiração que todos os seres tenham a felicidade; a compaixão, a aspiração que todos os seres sejam liberados do sofrimento; a alegria, que se regozija com os atos virtuosos acumulados pelos outros e finalmente a equanimidade que deseja que todas essas condições favoráveis sejam repartidas por todos os seres sem distinção.
Para a prática de Tchö, se ela é corretamente realizada, os seres dos seis mundos vêem suas impurezas desaparecer e a natureza de Buda presente em cada um pode irradiar, aparecer claramente. Tudo o que se considera como bom ou mau, por exemplo em referência à uma mente benevolente ou malévola, não existe como realidade tangível. São somente conceitos de objeto e sujeito, por exemplo, que criaram o samsara e o nirvana como compostos, criaram igualmente por essa concepção dualista alguma coisa que nasce, que morre, alguém que cai doente. Pela prática de Tchö, pode-se dissipar todos os conceitos que criam a visão dualista do universo. Pode-se realizar igualmente que o corpo também não existe realmente, que ele é ilusório. A verdadeira natureza da mente é semelhante ao céu, ou seja, ela é livre de toda conceitualização e além de toda descrição. Desde os tempos sem começo, nossa mente é perfeitamente pura, perfeitamente sem véus, sem impurezas, livre de todos os conceitos tais com a existência ou a não-existência, tais como o ir e o vir, a origem e a cessação, igualmente livre dos conceitos de similaridade e de diferença. Sua verdadeira natureza é a vacuidade, a claridade, a essência da budeidade. As cinco sabedorias e os cinco corpos, perfeitamente puros estão em nós. A natureza da mente é semelhante ao Vajra-samadhi, ou seja uma absorção meditativa adamantina, indestrutível, imutável. Pela prática de Tchö, oferecemos o conceito que temos de nosso corpo e nossas riquezas, pois, ainda que ilusórios, esse corpo pode manifestar-se devido à apreensão de um ego. Devido a essa apreensão, cria-se um corpo que experimenta o sofrimento e todos os tipos de experiências desagradáveis. Essas experiências têm como origem o hábito que se tem de querer bem seu corpo e suas posses.
Na prática de Tchö transforma-se esse corpo em todas as coisas que os convidados possam querer. É muito importante chegar à realização do aspecto do Mahamudra dessa prática, na qual se realiza que aquele que faz a oferenda e aquele que recebe a oferenda não são dois. Se se está consciente disso e que se dissipa a visão dualista, poder-se-á deixar a mente na esfera do Mahamudra que é semelhante ao Dharmakaya que conhece a si mesmo. A esfera do Mahamudra está além de tudo que se possa pensar, de tudo que se possa dizer, ela é perfeitamente pura.
A prática de Tchö não leva em conta a bodhicitta de aspiração e sim a bodhicitta de aplicação. Por essa prática, corta-se a visão habitual que temos de nosso corpo, como sendo feito de carne e oferecemos a quem tem necessidade, a quem quer se deleitar, especialmente os demônios, obstáculos e influências nocivas; oferece-se igualmente aos seres das seis classes com os quais, durante inumeráveis existências anteriores , contraímos dívidas kármicas, a fim de quitá-las.
Tchö é uma prática que nos permite transformar os cinco venenos nas sabedorias correspondentes, por meio da realização da indissociabilidade da vacuidade e da compaixão, bem como da vacuidade e das manifestações. Quando o Buda Sakyamuni deu seu ensinamento, ele o fez em três ciclos. No segundo ciclo ensinou a perfeição da sabedoria ou a "Prajnaparamita". A prática de Tchö tal como foi ensinada por Matchikma, contém a essência da doutrina de Guru Rimpoche denominada "cortar a ilusão", da doutrina de Naropa denominada "sabor único", da doutrina de Padampa Sangye denominada "pacificação dos sofrimentos". Matchikma escreveu em uma de suas obras: "Pela prática de Tchö é possível reconhecer os obstáculos no momento em que surgem e dessa maneira poder superá-los. Por essa prática, mesmo se formos acometidos por uma doença, mesmo se sofrermos, é possível experimentar uma alegria e uma felicidade que transcende o sofrimento dessa doença. Pela prática de Tchö, mesmo se defrontarmo-nos com os nossos piores inimigos, pode-se desenvolver um sentimento de confiança e de coragem. Se nos é muito difícil criar relações; praticando o Tchö, nos será fácil envolvermo-nos com as pessoas, estar na sociedade e ter a amizade como quem desejarmos. Atualmente, busca-se a cada instante proteção junto de alguém, que seja junto das Três Jóias, amigos ou de protetores, mas pela prática de Tchö e a realização que esse corpo que acreditamos ser real é de fato ilusório, e não se tem mais necessidade de buscar refúgio ou um abrigo".
Nessa prática as diversas partes do corpo, os agregados transformam-se em todos os atributos desejados. Esse tipo de visualização é muito eficaz para a acumulação de mérito. O lugar onde se realiza esse ritual, floresta solitária ou um carniceiro é um local especial, pois ali estão presentes numerosos protetores. Os demônios e os espíritos que participam à esse regozijo são como os benfeitores, uma vez que eles nos permitem acumular imensas quantidade de méritos. Uma vez que esse sistema de prática está além de todos os pontos de vista e maneiras de conceber o Dharma, é muito eficaz, muito poderoso. Essa prática que consiste em cortar o apego ao ego e às forças demoníacas, é muito especial pois contém todos os ensinamentos orais imagináveis.
Se fizermos essa oferenda com a motivação suprema, ou seja, a Bodhicitta, estando consciente da natureza ilusória da oferenda, todos os seres ficarão satisfeitos e desenvolverão a mente do despertar.
Essa prática tem três níveis. Ela é dirigida àqueles que são superiores à nós, ou seja, os Budas, Lamas... todos aqueles que visualizamos, àqueles que estão em nosso nível: os seres dos seis mundos. Finalmente, faz-se a oferenda para os níveis inferiores, aos demônios... A prática de Tchö é como a chave que abre a porta da prática do Vajrayana. É o coração das mães dakinis, a essência de todas as instruções dos Lamas e a essência das experiências daqueles que obtiveram grandes realizações. É como a jóia que realiza todos os desejos, uma panacéia, um antídoto para todos os venenos. É a sabedoria que pode vencer os cinco venenos, uma faca que corta o apego ao ego, uma espada que corta as visões dualistas.
Em resumo, quando se recebe os ensinamentos sobre o Tchö, a motivação fundamental deve ser o desejo de liberar todos os seres do sofrimento. É com essa motivação que se deve abordar o estudo da prática de Tchö, bem como a sua colocação,em prática a fim de estabelecer todos os seres no Dharmakaya, indissociável da terra de Yum Tchenmo.
Todas as práticas em geral começam pela introdução e é seguida do corpo da prática, depois um período de meditação e finalmente a dedicatória dos méritos e preces de aspiração.
Toma-se refúgio para seu benefício pessoal e para os outros desenvolve-se a Bodhicitta ou atitude iluminada. Durante o corpo da prática, é necessário se concentrar a respeito da inseparabilidade da claridade das manifestações que são as divindades que serão convidadas e sua natureza vazia ou ilusória e realizar dessa maneira a natureza enganadora de todas as manifestações que se produzem em nossa vida (nosso corpo, nosso séquito, etc...). Nos é necessário realizar que essas aparições cotidianas são de fato uma ilusão.
Enfim, dedica-se o mérito acumulado por essa prática e por todas as formas de ações positivas em benefício de todos os seres, a fim de que eles obtenham o estado de Buda.
Traducao Miriam 09-03-2007
Galeria -
Textos